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O inevitável cortejo de cada um

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*Por Talita Guimarães

Na contramão do tráfego pesado rumo ao Centro, um cortejo fúnebre avança lentamente pela pista da direita.

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Arte: Talita Guimarães

Em pé no ônibus velho de cadeiras faltando e irritada pelo noticiário consumido no café da manhã, sou tomada de assalto pela visão do destino que nos aguarda a todos. E no instante seguinte, toda aflição com o início de dia ruim se esvai. A vida que habita nossos corpos não é perene.

A tensão crescente com os rumos dessa insanidade de país que estamos vivendo, a preocupação com os impactos do desmonte do projeto de nação, o medo com o futuro que estamos projetando para nós mesmos. Tudo de repente fica em suspenso, enquanto o cortejo passa devagar. Como um soco no estômago em câmera lenta. O destino de todos nós que vivemos correndo acima da velocidade, aos atropelos pela ânsia da chegada, ali, passando ao nosso lado como um lembrete sombrio da única certeza que temos, que é de para onde estamos realmente indo.

2017 - Aspas_Recorte

E nem é que a lembrança de finitude remova o sentido do que fazemos durante nossas jornadas pessoais e intransferíveis, pelo contrário, o lembrete é urgente e necessário afinal saber-se finito é o que nos ajuda a pensar melhor nossos trajetos. E isso pra ontem. Pra hoje. Agora!

Para onde nossos cortejos diários estão nos levando?

O que é realmente perene na vida?

Diante da espiral autodestrutiva em que o Brasil entrou graças ao nosso sistema político falido e desonesto, que nos empurra diariamente para o precipício da dignidade, resta-nos cada vez menos em quem e no que acreditar. Os caminhos se turvam enquanto o que há a frente pouco se esboça.

Temo que a crise crescente sobre como reagir e lutar nos imobilize e encaminhe para um surto coletivo, já que parecemos dolorosamente lúcidos e anestesiados em nossas consciências escandalizadas e impotentes em refrear o paradoxal avanço do retrocesso.

Impermanente que é, a vida enquanto ciclo sempre triunfa. Já estamos em cortejo para o fim. Resta-nos descobrir como desacelerar e engatar pela mão certa pelos quilômetros que nos faltam.


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