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MINIDocs: “É um dos momentos mais frutíferos na música no Brasil”

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*Texto: Meiri Farias e Beatriz Farias | Imagens: Michelle Voloszyn – Zoe Films | Vídeos: MINIDocs

É regra: qualquer vídeo no YouTube que mostre um artista que alcançou notoriedade nos anos 1960, ganhou um festival da canção ou fez parte de algum movimento cultural revolucionário, traz de brinde uma lista interminável de comentários saudosistas do tipo “não se faz mais músicas como antigamente”. Há também os partidários da qualidade “isso sim é música boa, não é como aquela de fulano, que não sei o que…”

Não se faz mais música como antigamente, não mesmo. Também não se consome música ou qualquer tipo de conteúdo da mesma forma. “Hoje a gente quer estar próximo do artista, saber como ele vive, o que ele faz, se ele é uma pessoa bacana com quem está em volta, se é bem-humorado. Tudo isso influencia como o público e artista se relacionam”, explica Bruno Piazza.

Carlos Gayotto também acredita que as novas tecnologias e os novos meios de produção e distribuição estão alterando a dinâmica dos artistas. E vai além. “Eu tenho convicção, até o ponto que dá pra ter, de que é um dos momentos mais frutíferos na música no Brasil.”

Qualidade. Olha aí o segundo tema favorito dos críticos de YouTube. Não se faz música como antigamente e isso não é necessariamente ruim. Mas a qualidade, ah, a busca pela qualidade continua sempre em alta. E o esforço por coloca essa qualidade em evidência é o que trouxe o Bruno e o Carlos para esse texto. Senhoras e senhores, no palco do Armazém de Cultura: o projeto MINIDocs!

 

O PROJETO

Hoje o slogan do MINIDocs é “Do Palco Para o Mundo”, mas o início do projeto foi bem simples: Gravações no telhado de um escritório alugado na Alameda Santos. Carlos Gayotto, músico, empresário e produtor do projeto, conta que os primeiros vídeos foram bem aceitos, alcançando um público considerável, mesmo em um formato simplificado. Esse início acabou se tornando uma espécie de “piloto” para o MINIDocs.

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Dois fatores acabaram moldando o projeto para chegar no que conhecemos hoje. Como o objetivo era captar recursos por meio do ProAC (Programa de Ação Cultural) como um projeto de música (e não cinema, o que aconteceria se fossem apenas vídeos), além dos registros da ideia original, cada artista se apresenta ao vivo. Os primeiros shows foram no Tom Jazz e atualmente as apresentações acontecem no Teatro Vivo, o que nos leva ao segundo fator: a GVT se tornou patrocinadora do projeto bem na época em que estava sendo incorporada pela Vivo, que por sua vez já carregava uma vocação para falar e divulgar música e se tornou uma das casas do MINIDocs.

Ouça “Clareia”, Anna Tréa:

A outra casa que abriga o projeto é a Gargolândia, estúdio musical do músico e compositor Rafael Alterio, localizado em uma fazenda na cidade Alambary, interior de São Paulo. Gayotto conta que estava gravando seu próprio disco quando levou a ideia de fazer parte do projeto no estúdio. A parceria deu tão certo que Alterio acabou se tornando o responsável pela curadoria dos artistas participantes.

Bruna Caram, cantora e atriz que participou do MINIDocs com Paulo Novaes, destaca a importância desse espaço. “A Gargolândia, onde gravamos, também contribuiu para sensação de estarmos em casa, em família. Além de ser um estúdio incrível, fica na fazenda da família Alterio, grande amiga da minha família desde que eu era criança.”

O MINIDocs já na está segunda temporada! Confira alguns dos artistas que participaram do projeto:

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“SOMOS UMA GERAÇÃO DE RIQUEZA E CORAGEM”

Paulo Novaes se apresentou no palco do Teatro Vivo no dia 13 de julho e antes disso, teve seu registro na Gargolândia, juntamente com a Bruna Caram. Para o artista, que lançou o primeiro disco “Esfera” em 2016 e já está preparando o próximo álbum (Baú do Coração), a qualidade de captação, boa curadoria e produção são as principais qualidades do projeto. “Sabem aproveitar muito bem esse novo cenário da música brasileira dando a oportunidade para quem as vezes não tem esse registro.”

Já Bruno Piazza, músico e um dos produtores do projeto, destaca como a cena musical no Brasil sempre foi e sempre será gigante. “A importância do MINIDocs está em mostrar para artista e público que tem sim gente de olho no que acontece na cena independente no Brasil”. Para Bruno, o projeto não abraça tudo o que acontece, mas é o suficiente para estimular novos produtores. “O fato de dividir palco, experiencias musicais e/ou discos, é a prova de que o trabalho de um se fortalece com o do outro. Todo mundo ganha: público, artista e projetos culturais”, completa o artista, que acredita que esses encontros devem acontecer com cada vez mais frequência.

Ouça De Repente, Paulo Novaes e Bruna Caram:

De encontro musical a Bruna Caram entende bastante. Com diversas composições, parcerias e palcos compartilhados com Paulo Novaes (que também é primo da cantora), Bruna destaca a importância dessas reuniões. “Tenho o maior orgulho da minha geração. A música brasileira pode ter perdido muita mídia nas últimas décadas, mas o que se faz na música independente no país é simplesmente maravilhoso”, reflete. A artista destaca a fidelidade do público e a qualidade dos compositores, mesmo em uma época de mudanças na forma de produzir e consumir conteúdo. “Para mim a música brasileira atual é uma música de resistência. Surgimos na época de decadência das gravadoras, assistimos ao surgimento das plataformas virtuais que subtraem ainda mais a venda de CDs, estamos em plena crise, mas não desanimamos. Somos criativos. Somos uma geração de riqueza e coragem. ”

Bruno Piazza, que já fez diversas participações como músico (a lista é longa: Música dos Dois, com Pedro Alterio; Oritá, trio instrumental com Gabriel Alterio e Fi Maróstica; além de participações especiais com o Paulo Novaes e Gabriel Sater) e também é produtor do MINIDocs, acredita que um trabalho complementa o outro, já que consegue ter conhecimento e motivação em prol do projeto. Para ele, as mudanças no mercado e na produção de música também tem lados positivos. “Acho que estar nestas duas frentes é algo natural para todo mundo que hoje trabalha ou pretende trabalhar com música. Muitos artistas que conheço são hoje seus próprios empresários, produtores, e isso é uma coisa maravilhosa! Todos eles quando adotaram a ‘auto-gestão’ melhoraram seus cachês, sua frequência de shows, de conteúdo, fãs, etc.”

Ouça “Ironia”, Pedro Alterio e Bruno Piazza:

 

EM TODAS AS TELAS

O próprio projeto espelha as necessidades de adaptação da arte no cenário contemporâneo se desdobrando em várias formas de distribuição. Além dos vídeos no YouTube e dos shows no teatro Vivo, é possível assistir o conteúdo do MINIDocs pela TV no canal Arte1 e também na plataforma de VOD (Video on Demand) norte-americana Qello Concerts, uma espécie de “iTunes de vídeos” que antes do MINIDocs não tinha nenhum conteúdo brasileiro, mesmo o país sendo o terceiro maior grupo de assinantes da plataforma.

Para o VOD, a projeto ganhou nova edição com legenda em inglês e novo formato. “Aquele público é diferente do público brasileiro. Como o objetivo maior do projeto é tornar esses artistas mais relevantes, a gente precisa pensar em como as outras culturas enxergam a nossa, para reeditar o material”. Gayotto explica que enquanto o conteúdo exibido no Arte1 tem mais entrevistas (reafirmando o que Piazza fala sobre a curiosidade do pública a respeito do artista por trás dos trabalhos), já o público norte-americano prefere menos conversa e mais música.

Trailer do projeto em inglês:

Mas as novas formas de distribuir conteúdo não param no VOD. O show de Tó Brandileone no dia 6 de julho teve a primeira transmissão ao vivo pela internet do MINIDocs. “Vai ser o futuro da música a partir de agora”, conclui Gayotto. Para o produtor, o show como conhecemos será cada vez mais enxuto, para contemplar essa geração que faz várias coisas ao mesmo tempo. Que quer assistir a um show, mas também quer estar nas mídias sociais. “As transmissões vão ficar mais frequentes, ou pagas por um patrocinador ou pagas pelo próprio usuário. ”

 

A CASA É A MÚSICA

É curioso notar durante nossa matéria como a palavra casa torna-se recorrente e faz sentido com a proposta da música de entrar nos espaços e habitar. O MINIDocs enquanto projeto parece ter efeito similar: ocupar os lugares e ocupar com grandeza. Os shows acompanhados, tanto de Tó Brandileone quanto de Paulo Novaes com participação de Bruna Caram, exemplificam a sensação de intimidade entre cantor e artista porque o que importa nesse momento é estar nessa casa comum que é a canção.

Ouça “Quem Sabe?”, Tó Brandileone:

Para os profissionais comentaristas de YouTube e outras plataformas digitais que logo vão entender a intimidade como brecha para bagunça e falta de qualidade, observamos exatamente o oposto. No projeto, a qualidade de som é impecável tanto no ao vivo quanto nos vídeos registrados e a grandiosidade já citada está em saber que mesmo sendo peça fundamental, isso apenas não basta. É preciso criar o ambiente acolhedor e familiar dentre as muitas casas pelas quais o MINIDocs passou e ainda passa, porque ser afetado importa. E fazer e falar sobre música é um ato de resistência a favor do afeto e aproximação, como bem diria Tó Brandileone em seu show: “Nesse tempo de Instagram e Facebook, o jeito mais eficiente de se comunicar continua sendo a música”.


Perfil MeiriMeiri Farias: Portfólio | Instagram | Twitter

 

Assinatura Beatriz

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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