Abre Aspas

Roseta: O nascimento das divindades em quadrinhos

*Por Meiri Farias

Qual é a história dos deuses? Em Roseta, Henrique Hübner e Henrique Madeira buscam a trajetória da humanidade por meio de uma narrativa ficcional que caminha pela história e ocultismo. “Roseta foi concebida a partir de algumas observações a respeito das similaridades (para não dizer plágio) entre vários deuses e deusas de diversas civilizações”, explica Madeira. Os autores contam que a história da HQ se desenvolve a partir da premissa que a “ideia” de um deus se originou através de um erro de interpretação de um objeto, uma boneca de pedra de uma menina paleolítica.

Para contar essa história cheia de simbolismo, os autores escolheram a HQ como ferramenta narrativa “Os quadrinhos são uma mídia que oferece infinitas maneiras de se contar uma história aliando texto e imagem de maneira sequencial”, explica Hübner. O ilustrador destaca as possibilidades dos quadrinhos para contar histórias de formas inovadoras, instigantes e provocativas que “podem levar a diferentes níveis de percepção, entendimento e aprendizado. ”

Confira a entrevista completa!

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Armazém de Cultura: Recentemente vocês fizeram uma campanha no Catarse para publicar Roseta. Como foi a experiência com o financiamento coletivo? Por que usar esse tipo de ferramenta para financiar projetos com esse?

Henrique Hübner: Fazer quadrinhos em um país que ainda não possui um mercado ou uma estratégia mercadológica para as HQs é um desafio e tanto. Dentre os maiores entraves (principalmente para o autor independente), acredito que seja o setor de divulgação e distribuição.

Henrique Madeira: Nesse sentido, o Catarse é uma ferramenta muito útil, que permite ao autor não somente captar recursos para a impressão, mas, ao mesmo tempo, divulgar e vender o trabalho para leitores dos quatro cantos do país, tudo isso antes mesmo do projeto estar finalizado ou impresso. Acho esse sistema ágil e extremamente facilitador. Em muitos casos, mais útil do que publicar em uma editora de pequeno porte.

AC: O enredo de Roseta desperta muita curiosidade sobre o rolar da história. Como surgiu a ideia de produzir uma HQ com esse tema, como esse projeto nasceu?

HM: Roseta foi concebida a partir de algumas observações a respeito das similaridades (para não dizer plágio) entre vários deuses e deusas de diversas civilizações. Para a o conceito de um deus existir, obviamente algum humano o idealizou. Comecei então a divagar a respeito de como se deu esse processo; como nasceu o conceito original que desencadeou essas potencialidades simbólicas que possuem tanta força no imaginário humano. A partir daí, desenvolvi a premissa de que o primeiro deus da humanidade, ou a primeira ideia de um deus, tenha sido gestada através de um erro de interpretação, ou de algum artefato, e a trajetória desse objeto (o qual batizamos de Roseta) através do tempo e das civilizações, tenha inspirado o nascimento de todos os deuses da humanidade. Claro, isso tudo não passa de uma hipótese bem maluca, mas em termos de premissa para uma ficção, nos permitiria trabalhar com um leque muito amplo de temas de nosso interesse, como história, simbologia e ocultismo.

Capa (2)

Capa da HQ Roseta

AC: Ainda sobre a temática, vocês descrevem a HQ como uma viagem através da história, a arte e o ocultismo. Contem um pouco sobre o processo de trabalho desde a pesquisa até levar a ideia para ser financiada coletivamente.

HH: Apesar do Livro 1 de Roseta ter poucas páginas, a leitura não será rasa ou rápida, como seria natural supor. Há uma quantidade impressionante de informações e referências que conseguimos acrescentar na história que potencializou o material a ponto de permitir que o leitor a leia e releia muitas vezes, e, mesmo assim, sempre encontrará algo novo escondido em algum canto ou subentendido em alguma linha.

HM: Queremos que Roseta proporcione uma experiência recompensadora ao leitor. É preciso dizer também que tudo isso não está lá de modo gratuito. Aliás, a trama não apenas permitiu como exigiu esse recheio. O texto levou alguns dias para ser escrito, mas a pré-produção, o trabalho de pesquisa que permitiu com que todas as peças do roteiro se encaixassem perfeitamente, foi cruel e exaustivo. O processo de financiamento do Catarse não exige menos tempo e atenção. A parte de produzir o vídeo e montar a página foi só o início das preocupações. Depois ainda seguem dois meses de campanha tendo que encher o saco de todo mundo nas redes sociais e mandando releases aos blogs e sites especializados em quadrinhos. Foi uma experiência recompensadora, naturalmente, mas não é tão fácil ou tranquila quanto se imagina.

Códigos

AC: A HQ lida com um universo de símbolos e vocês se usam desses códigos para proporcionar uma segunda possibilidade de leitura da HQ. Aproveitando esse aspecto metalinguístico, gostaríamos que vocês comentassem um pouco a respeito e também sobre os quadrinhos como ferramenta narrativa.

HM: Além desse recheio de símbolos herméticos e cabalísticos, a trama de Roseta se desenrola em dois planos: o mundo físico e o extrafísico. A trama do mundo físico o leitor pode captá-la na primeira leitura; a segunda exige um esforço maior. Foi por isso que acrescentamos um apêndice que ajudará o leitor a desvendar os segredos de Roseta quadro a quadro. Acredito que essa forma de explorar uma narrativa não pode ser feita em nenhuma outra mídia senão os quadrinhos, que permite acrescentar centenas de informações, seja no texto ou na ilustração, em um único quadro. Tenho certeza de que Roseta não funcionaria tão bem se fosse um trabalho em prosa, por exemplo.

HH: Os quadrinhos são uma mídia que oferece infinitas maneiras de se contar uma história aliando texto e imagem de maneira sequencial. Quando bem trabalhados, estes dois elementos (texto e imagem) podem simplesmente te contar uma história redondinha, de maneira concisa e clara, porém eles também podem se apresentar de maneiras inovadoras, instigantes e provocativas e, neste caso, podem te levar a diferentes níveis de percepção, entendimento e aprendizado.

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AC: Como foi o encontro de vocês para esse projeto? Já produziram outros quadrinhos juntos, como se conheceram?

HM: Somos conterrâneos, mas o Hübner residiu muito tempo em Porto Alegre. Nos conhecemos quando ele resolveu retornar para o interior. Em pouco tempo começamos a trabalhar em uma extensa Graphic Novel chamada Em Busca do Lar Perdido que, devido a alguns entraves, ainda permanece inédita.

AC: Que obras (ou artistas) podem ser consideradas referências para o trabalho em Roseta? O que indicariam para os leitores do Armazém?

HM: Coincidentemente, Hübner e eu havíamos acabado de ler Promethea do Alan Moore e Willians III, pouco antes de começarmos a trabalhar em Roseta. Com certeza serviu de referência e é um trabalho altamente recomendado. No entanto, minhas maiores influências estão nos textos clássicos, que são a minha grande paixão. Recomendaria O Sonho de Uma Noite de Verão e A Tempestade de Shakespeare, que também possuem essa ideia da trama se desenrolar em dois planos (físico e extrafísico). Se fossem lançadas hoje, certamente seriam classificadas como Literatura Fantástica ou Realismo Mágico.

HH: O ilustrador sempre carrega toda sua bagagem cultural quanto mergulha em qualquer trabalho. No meu caso, além de trazer esta bagagem, procuro identificar o trabalho em andamento com alguma referência específica, no caso de Roseta fiquei alucinado com as possibildades narrativas de Sharaz-De, do Sergio Toppi, que aproxima muito a narrativa sequencial à ilustração. Mas o trabalho do Toppi é somente a ponta do iceberg de inspiração para Roseta. Gostaria de ressaltar outros autores cujas obras foram fundamentais para o seu entendimento e execução, caras como o Elyphas Levi, Franz Bardon, Joseph Campbell, Veet Pramad, Aleister Crowley, Marcelo Del Debbio e uma penca de outros autores que se arriscaram a estudar, ilustrar e escrever sobre alquimia e símbolos.


Perfil Meiri

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