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A Infância do Brasil: HQ de José Aguiar apresenta a história do país pelo olhar das crianças

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*Por Meiri Farias

Em 2016, o Nexo Jornal publicou uma reflexão sobre o fato de sermos a última geração que conviveu com o mundo de tecnologias analógicas e digitais e como as próximas gerações, que já nascem nesse contexto hiperconectado, não terão acesso a sensações como ausência completa ou ócio. Com o celular, tablets e todas as dezenas de aplicativos, é cada vez mais difícil entrar em um de “não fazer nada”. Se para nós, jovens adultos que passaram a infância fazendo trabalhinhos escolares em folha de papel almaço ou que ainda recorria ao templo sagrado da biblioteca para os trabalhos de história, pode parecer uma perspectiva um tanto assustadora, para as crianças nada mais é do que o filtro pela qual elas entenderão e escreverão a história a partir de agora.

Nesse contexto de quebra entre gerações, José Aguiar apresenta a HQ A Infância do Brasil. O projeto surgiu justamente quando o quadrinista foi pai pela primeira vez e foi redescobrindo sua infância e comparando com a experiências que seu filho vivia. A curiosidade em relação a essas diferenças fez o artista começar a especular como viviam as crianças na época de seus pais, dos pais deles e assim por diante. Para além de relatar situações familiares, o autor decidiu que as crianças de suas HQ  seriam porta-vozes da história do país. Não pela perspectiva de grandes eventos, mas pelo viés da infância, apresentando um um arco formado por pequenos personagens que atravessam quase seis séculos de abusos, sexismo, intolerância, preconceito e violência.

 

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Um dos criadores do projeto Cena HQ e da Gibicon, José apresentou a HQ inicialmente pela internet, por acreditar que a versão online oferece recursos que expandem a experiência do leitor. “Realmente é importante pensar seriamente nas melhores maneiras de usar as ferramentas da internet na maneira de produzir e difundir uma obra. O acesso ao bem artístico na web é virtualmente infinito. Mas sem nunca deixar de lado o valor do livro físico. Ambos podem conviver sem conflito algum”, explica, destacando que sempre imagina o produto impresso como objetivo final. Os episódios também estão disponíveis em outros idiomas, possibilitando alcance internacional. “Levar nosso cotidiano e, principalmente uma reflexão sobre nosso presente, é algo fundamental para fazer ruir estereótipos e criar uma ponte sincera entre culturas”, conclui.

Confira a entrevista completa!

Armazém de Cultura: Como surgiu o projeto de falar a partir do olhar das crianças?

José Aguiar: Quando me tornei pai pela primeira vez eu fui redescobrindo lembranças de minha própria infância. Refletindo sobre as diferenças do que eu recordava com o que meu filho vivia, comecei a especular sobre  como foram as infâncias de meus pais, dos pais deles e por aí em diante. Daí surgiu o lampejo de falar da infância de uma perspectiva que fugisse do clichê de “mostrar como a chegada de uma criança mudou a rotina da família” entre outras abordagens. Como há tempos buscava um bom fio condutor para uma HQ sobre História do Brasil, juntei as ideias e o resultado foi A Infância do Brasil.

AC: Vivemos um período intenso no país, onde se voltar para nossa história é cada vez mais importante. Você acredita que as histórias em quadrinhos podem ser uma ferramenta didática para auxiliar o ensino?

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José: Sempre foram. Inclusive até recentemente o MEC reconhecia o valor das HQs no ensino, adquirindo obras para as escolas. Infelizmente essa não é uma prerrogativa do governo atual, onde a diversidade de pensamento e perspectivas que as HQs proporcionam são ferramentas importantíssimas para formar pessoas de mente aberta e criativas. Conhecer nossa história nunca foi tão necessário. A polarização, a exacerbação de valores conservadores e retrógrados e a sobreposição de (alguns) valores religiosos em assuntos políticos são prova de que nossa memória anda curta e que precisamos olhar para trás se queremos seguir adiante. Essa é uma provocação da minha HQ: refletir o presente a partir do nosso passado. Para quem sabe assim projetarmos um futuro melhor. Não só para nós, para os que ainda nem nasceram.

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Página da HQ “A Infância do Brasil”

AC: O site Infância do Brasil apresenta material extra, como textos sobre contexto histórico que cada capítulo aborda, além de estudos e depoimentos do autor sobre seu processo de criação. Dentro da discussão entre a importância de oferecer conteúdo em diversas plataformas, como a internet altera a produção do quadrinista? Inclusive pensando no material impresso.

José: Eu sempre pensei no impresso como objetivo final. Acredito que webcomics e livros tem públicos distintos por enquanto. Claro que a versão online oferece recursos que expandem a experiência do leitor, o que é bem fascinante. Além das opções de interatividade que pude acrescentar à obra, pude publicar simultaneamente em quatro idiomas, algo que seria praticamente impossível em papel. Realmente é importante pensar seriamente nas melhores maneiras de usar as ferramentas da internet na maneira de produzir e difundir uma obra. O acesso ao bem artístico na web é virtualmente infinito. Mas sem nunca deixar de lado o valor do livro físico. Ambos podem conviver sem conflito algum. No mundo de hoje nenhum autor está restrito a uma plataforma, ou mídia, a não ser por opção.

Optei por estrear a Infância do Brasil na internet justamente para começar a desbravar as possibilidades desse meio e as interações com ferramentas impensáveis no impresso. É meu dever como autor me atualizar e buscar fugir da zona de conforto e, consequentemente, cativar novos leitores por novos meios. Uma das recompensas desse esforço foi a indicação desse projeto ao Troféu HQMIX  2017 na categoria de melhor web quadrinhos. O projeto também foi indicado ao mesmo prêmio nas categorias roteirista e adaptação para outras linguagens (foi encenado no teatro via Cena HQ), mas como se trata de minha primeira webcomic, é muito importante para mim figurar entre os melhores sites de HQ do ano no prêmio mais reconhecido do mercado nacional.

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Página da HQ “A Infância do Brasil”

AC: Os episódios também estão disponíveis em outros idiomas, possibilitando alcance internacional. Já recebeu algum tipo de retorno de leitores estrangeiros? Qual a importância de dialogar sobre o Brasil com pessoas de outro idioma, outra cultura?

José: Tive retornos principalmente de leitores franceses e pude conferir acessos em todas as regiões do globo, o que para mim é uma grande satisfação.  Eu acredito que nenhuma obra deve “morrer” após sua publicação e a possibilidade dela continuar ecoando indefinidamente sem que eu busque um editor em cada país é uma das vantagens da edição virtual. Levar nosso cotidiano e, principalmente uma reflexão sobre nosso presente é algo fundamental para fazer ruir estereótipos e criar uma ponte sincera entre culturas. Nós consumimos muitas HQs traduzidas, muitos artistas brasileiros desenham os principais heróis das HQs norte-americanas, mas ainda se produz menos quadrinhos sobre nós mesmos do que deveria ser feito. E desse pouco quase nada chega a leitores de outras nacionalidades. Os quadrinhos são um importante bem cultural, um registro de quem somos e pensamos. Tornar a relação auto/editor/leitor uma via de mão dupla é o melhor caminho para todos. Que desmoronem as barreiras invisíveis que nos separam!

AC: Você também é cocriador do projeto Cena HQ e da Gibicon – Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba. Conta um pouco sobre esses projetos e sobre a produção de quadrinhos na cidade! Que artista de Curitiba indicaria para quem está conhecendo o seu trabalho?

José: São dois projetos dos quais muito me orgulho pois serviram de vitrines para autores não só de minha cidade e foram importantes na formação de novos leitores para a HQ nacional, bem como na solidificação da autoimagem de Curitiba como uma cidade polo na produção de quadrinhos no Brasil. Infelizmente o Cena HQ paralisou suas atividades ano passado, mesmo ano em que a Gibicon se tornou outro evento, agora sem minha participação. Mas foram iniciativas coletivas onde pude trabalhar com artistas incríveis não só dos quadrinhos.  Ambos os eventos tem sua origem na tradição dos quadrinhos curitibanos que se intensificou desde a década de 1970, tanto na imprensa como nas revistas da editora Grafipar, que desembocaram a criação da Gibiteca de Curitiba, a primeira do mundo. Ela é o ponto focal da cultura de HQs daqui. Hoje é um dos espaços culturais mais ativos da cidade, coordenada pelo Fulvio Pacheco, meu ex-aluno. Por sinal, eu também fui aluno dessas oficinas.  Desse espaço ramificaram quatro gerações de autores, hoje inclusive politizados a atuantes nas polícias culturais da cidade.  Só no ano passado foram publicadas em Curitiba mais de 40 revistas (entre autores independentes e editoras) o que demonstra um fôlego grande na cena local.

Como acho injusto indicar um nome apenas vou listar alguns que muitos nem sabem que são daqui como Rogério Coelho, Bianca Pinheiro, Alexandre Lourenço. Leonardo Melo, Francis Ortolan, Alan Ledo, Dw Ribatski, Yoshi Itici, Tako X, Robson Vilalba…Paro aqui pois a lista é enorme e todos com trabalhos completamente diversos!

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