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De volta ao mar

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*Por Talita Guimarães

“Eu não lembrava que era assim. Tipo uma luta.”

Cai a tarde em São Luís e lá estou eu, dentro d’água tomando caixote e enfrentando o vento frio que sopra da maré cheia, enquanto tento aproveitar o que restou das férias com um banho de mar.

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Arte: Talita Guimarães

Apesar de morar em ilha a vida toda, vou pouquíssimo à praia. Ia mais quando pequena, levada pelos pais para banhos intermináveis, brincadeiras na areia e aquele peixe frito temperado sem igual pela maresia.

De volta ao mar, espero reencontrar as marolinhas da infância, com gosto de sal e som de espuma a cada quebrar de onda.

Ingenuidade.

O que se atira sobre mim são ondas velozes, que facilmente me desequilibram, enquanto finjo não tremer de frio para não desencorajar minhas companhias a também entrarem no mar.

Destreinada, sequer lembro que é preciso vencer a rebentação para boiar sob a calmaria, sempre atenta ao fundo para não perder o pé da areia.

Sem óculos, preocupo-me em não perder de vista, ainda que turva, a referência que tenho de onde minha irmã guarda nossas coisas na areia. E alterno-me com ela e meu namorado, para que um de nós sempre esteja em terra vigiando nossos pertences.

Mais de uma vez é preciso recolher tudo às pressas à medida que o mar avança sob nós. Como se gentilmente nos avisasse que devemos recuar.

Quando o frio nos convence a sair de vez da água, recolhemos nossas coisas e nos preparamos para partir, satisfeitos pelo combo praia executado conforme o previsto: caminhada curta com os pés descalços na beirinha, porção de caranguejo e banho de mar.

Penso comigo que é um reencontro tímido, para quem quando criança sentia-se íntima do mar, quase um peixinho, como diriam meus pais.

E então um arsenal de memórias litorâneas me vem, como que na tentativa de resgatar algum sentir passado. Retomar a proximidade e reatar o laço.

Enquanto caminhávamos, pouco antes do sol baixar completamente e o caranguejo ser servido, encontramos duas águas-vivas na areia. Aqueles seres bonitos cuja morfologia fascinante pede que guardemos distância, pois ao toque podemos nos machucar.

Lembro de mim criança, em carreira desabalada pela areia rumo ao mar, sendo parada bruscamente por uma moça que alertava à beira que ninguém devia entrar, pois era tempo de caravelas e muita gente estava queimada ao longo da orla.

2017 - Aspas_Recorte

Nesse mesmo dia, caminhamos eu e minha irmã de mãos dadas com nosso pai por um longo trecho até encontrar olhinhos d’água seguros onde pudéssemos nos refrescar.

A memória doce me faz pensar em como foram meus pais quem me ensinaram a lidar com o mar.

Na ausência de mamãe naquela tarde, não me ocorreu de tentar vencer a rebentação. Era ela quem me pegava pela mão e me levava até onde a água tranquila batia acima da minha cintura. Em sua companhia, eu não sentia medo.

É preciso respeito para lidar com o mar. Certa reverência, ao contemplá-lo. Aprendi isso com meus pais, respeitosos que sempre foram com a imensidão da natureza que banha nossa cidade de morada.

Nesse retorno, estranhei a praia de adulto em que me banhei. A luta ao encarar as primeiras ondas, sinal de que novas jornadas sempre estão a começar. E a qualquer tempo, vai haver momento de evocar as lições aprendidas com os pais.


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