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Das coisas que não deixo de fazer só porque a patrulha da vida alheia não faria

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*Por Talita Guimarães

A vida não deixa de ser vivida só porque há algo que eu ou você, pessoalmente, não faríamos. A vida, inclusive, vai seguir sendo vida depois que qualquer um de nós tiver partido. Então, está mais do que na hora de darmos um basta nessa falta de distinção entre o que é decisão pessoal e o que é decisão coletiva. Precisamos urgentemente aprender a enxergar a linha robusta que separa o que cabe a cada indivíduo decidir, quando o impacto é somente em sua vida privada ou em seu corpo, do que afeta um grupo maior, quando intervém de fato na vida em sociedade.

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Arte: Talita Guimarães

O raciocínio sempre foi simples: se a decisão alheia não está ligada ao meu corpo, não prejudica a minha vida, tampouco fere os direitos humanos e sociais, não é da minha conta.

Se não somos a mãe que levou a criança para interagir com o artista nu, nem o artista que se despiu, muito menos a criança, então jamais nos coube decidir se eles deveriam estar onde estiveram fazendo o que fizeram. Não houve abuso, não houve pedofilia. Só houve arte e os que são obtusos o suficiente para não estarem lá e ainda assim, sem nada entender, se revoltarem.

Somente quando nos dermos todos conta de que não faz diferença o que pensamos sobre a vida alheia, ela ainda nos será alheia, e é justamente por ser alheia que não é nossa, ora ora, vamos chegar perto de evitar toda essa vergonha, perda de tempo e desperdício de revolta.

Em um simples retrospecto pessoal de tudo o que faço, apesar do que os outros fariam ou não caso fossem eu, as conclusões ao longo de 28 anos tem sido simples: a última palavra continua sendo a minha.

Não deixo de rezar só porque há quem não creia.

2017 - Aspas_Recorte

Não parei de amar só porque há quem odeie.

Não me calo só porque há quem silencie.

Não aliso meu cabelo só porque há quem o ache ruim.

Não maquio meu rosto só porque há quem ache bonito.

Não subo no salto só porque há quem diga que devo.

Não depilo meu corpo só porque há quem não goste de pelos.

Não sorrio sem vontade só porque há quem ache algo engraçado.

Não compactuo só porque há quem alegue não ter intenção [de ferir, de magoar, de ofender, de desrespeitar].

Não repasso corrente só porque há quem tema praga.

Não apedrejo só porque colocaram uma pedra na minha mão.

Não desejo mal só porque há quem discorde de mim.

Não vou continuar meu projeto só porque há que ache importante, embora nunca tenha ido.

Não troco de roupa só porque há quem não a associe ao meu peso.

Não digo que está tudo bem só porque há quem não queira se sentir culpado.

Não vou tentar mudar sua cabeça, só porque você pensa diferente.

Incomodemo-nos ou não, as decisões individuais ainda são individuais e surpresa: quando alheias, não fazem diferença nenhuma nas nossas vidas além do incômodo que desperdiçamos com elas.


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