Abre Aspas

Onde a estaca nunca zera

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*Por Talita Guimarães

Estão todos lá. Os ipês, as crianças, a primeira bicicleta, balões soltos no ar (que agora me fazem pensar “Pennywise, é você?”), a travessia da ponte, uma menina com as duas pernas engessadas, um homem comovido, o caminho, eu farejando recortes. E sentindo que já zerei meu álbum. Nada de novo para recortar e colar. Estaca zero.

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De tempos em tempos fecho ciclos de inspiração. Os ipês outonam, as crianças somem, os pneus furam, os balões murcham, o ônibus não passa pela ponte, ninguém se quebra, ninguém se comove. O caminho sempre o mesmo. Quando não, figurinhas repetidas. E eu, esgotada.

Como fruta sem semente, algumas coisas simplesmente fenecem. Alimentam-nos por um tempo até que não mais. E aí lá vamos nós, de novo e uma vez mais, buscar novidade pela qual se interessar.

Percebo, zero comovida, que todos os ipês do caminho estão floridíssimos. Puxo ar como quem espera trazer junto algum resquício de alegria enquanto digo a mim mesma “a primavera chegou!”. Mas não rola. Alguma coisa em mim, irritante coisa em mim, espera por mais. Precisa de mais.

Todos os anos, as mesmas árvores, nos mesmos canteiros. Ofertando suas floradas de sutis cores a cada temporada.

2017 - Aspas_Recorte

Tento me animar com um sorvete de chocolate na pracinha (onde os ipês também já derramam suas flores pelo chão) e sorrio irônica para a frase do palito que se revela então, sobre algo como dinheiro não comprar felicidade, mas comprar sorvete “que é quase a mesma coisa”.

Reviro os olhos para a sentença insolente, sepultando-a dentro da embalagem melada e sequer penso duas vezes antes de jogá-la no lixo.

No caminho de volta para o expediente, evito uma escadaria e desço por uma ladeira nova, escolhendo dar uma volta maior para passar por baixo do primeiro ipê que reparei na vida. Onde a comoção começou.

Rodeado pelo tapete cor-de-rosa das próprias flores, ele já vai florindo e deixando-as ir. Como quem chora. Lágrimas em forma de flor.

Colho duas do chão. E então me dou conta de que as flores são sempre novas. Gestadas e paridas ano a ano. Únicas a cada estação. Filhas de uma sabedoria infinita. Onde a estaca nunca zera.


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