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Joãos & Joanas: Humor e reflexão por Pedro Hutsch Balboni

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*Por Meiri Farias

“Talvez o maior desafio possa ser condensado em uma palavra: continuar”, é a resposta de Pedro Hutsch Balboni quando perguntamos qual é a maior dificuldade para o artista independente. O autor da tira “Joãos & Joanas”, acredita que os desafios se somam com o passar do tempo e as mudanças nem sempre acompanham as perspectivas. “Ser independente implica em arcar com todos os colaterais batendo diretamente no peito. ”

Com as tiras publicadas frequentemente no site, Pedro chega ao terceiro livro da coleção “Fulanos, Ciclanos, Beltranos”, onde convida 50 artistas (por livro) para redesenhar uma de suas tiras. Recentemente a HQ foi bem-sucedida em uma campanha de financiamento coletivo no Catarse. O artista conta que sempre se surpreende com o resultado quando outro quadrinista faz uma releitura de seu trabalho. “Adoro quando eles sacaneiam o texto, ou trazem uma outra leitura que eu ainda não tinha pensado. Convergente ou divergente, os mundos que vêm de fora vêm para somar.”

Utilizando a simplicidade das joaninhas e sem cenário, Pedro acredita no papel do humor como ferramenta social. “E isso é basicamente o que tento com minhas tiras, arranjar um jeito de fazer as pessoas pensarem em coisas que talvez não estivessem pensando. ” Confira a entrevista completa.

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Armazém de Cultura: A primeira curiosidade: Por que joaninhas? e aproveitando esse tópico, como foi o surgimento da tira?

Pedro Hutsch Balboni: Essa é uma pergunta recorrente, e tive que inventar uma resposta para ela, pois confesso que não sei, na verdade, de onde tirei essa ideia de fazer joaninhas. Eu ia participar de um concurso de tirinhas, e a ideia encaixou em joaninhas. Gostei, e continuei. Mas aí inventei uma explicação posterior que talvez seja o real motivo de eu ter pensado em joaninhas: acho a joaninha e o humor muito próximos. O humor é algo bacana, divertido, entretêm, mas ao mesmo tempo é uma ferramenta de crítica social, uma forma de você dizer coisas difíceis e ser bem recebido. As joaninhas tem essa mesma coisa, são bonitinhas e tudo mais, mas são carnívoras, predadoras, controle de praga. Cavalo de Troia. E isso é basicamente o que tento com minhas tiras, arranjar um jeito de fazer as pessoas pensarem em coisas que talvez não estivessem pensando. O que me chamou para esse formato de tiras foi a possibilidade de dar uma roupagem agradável para assuntos frequentemente descartados. São esses temas que tento maquiar de joaninha e fazer as pessoas lerem sobre.

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AC: Você fez uma campanha para financiar a terceira HQ “Fulanos, Ciclanos, Beltranos”, onde outros artistas fazem releituras das suas tiras. Como é ver suas ideias com traços diferentes? Como escolhe os artistas que vão participar do projeto?

Pedro: A possibilidade de trabalhar com tantos artistas que admiro em um único projeto foi o que me deu forças para continuar, pois é bastante cansativo. Mas folhear o livro e ver seus textos nas mãos de pessoas tão talentosas é algo indescritível. Adoro quando eles sacaneiam o texto, ou trazem uma outra leitura que eu ainda não tinha pensado. Convergente ou divergente, os mundos que vêm de fora vêm para somar. Eu me deparo com a surpresa sobre o que julgava conhecer, com o susto sobre o conhecido, com o inusitado no planejado. Além disso, existe uma coerência ligando esses trabalhos todos que aumenta a satisfação da leitura. Gosto de todo tipo de narrativa, mas sou um leitor um pouco chato. Essa coleção “Fulanos, Ciclanos, Beltranos”, por mais que tenha 150 artistas, foge bastante de uma coletânea de conteúdo, pois é tudo muito amarrado e planejado, tematicamente, textualmente, logicamente… os limites que eu trago como roteirista e editor acabam trazendo mais coerência para o resultado final.

Sobre a escolha dos autores, acho que não tenho uma resposta certa. Convido artistas que conheço, e em alguns casos vou atrás de artistas que ainda não tive a oportunidade de conhecer, mas isso acontece um pouco menos. Como público na internet desde 2008 e já fui em muitos eventos (muitos mesmo) desde 2012, conheço muita gente da área. Tento usar o conteúdo do livro para me ajudar na escolha do artista. Assim, o processo para pensar no livro Beltranos e Beltranas, por exemplo, começou pensando nas tiras que eu queria usar no livro, depois escolhi a ordem que elas teriam (para projetar a experiência de leitura) e depois disso fui pensando no artista que tinha mais a ver para cada tira.

AC: Juntar vários artistas com estilos diferentes já traz um caráter muito coletivo para projeto, o que é reforçado na opção pelo crowdunding. Como está sendo essa experiência? Já é sua quarta campanha certo? Quais são as principais vantagens e/ou dificuldades em financiar projetos com esses tipos de ferramentas?

Pedro: Isso, é a quarta campanha. É sempre muito cansativo, exige muito envolvimento, muito planejamento e muito trabalho. Mas vale à pena. O zelo que a campanha exige acaba ajudando o resultado final também. O projeto nasce mais forte do que nasceria sem o “crowd”, a sua responsabilidade como realizador é maior, e isso não é uma coisa ruim. A visibilidade do projeto também aumenta, mesmo para quem não apoiar durante a campanha e deixar para comprar depois.

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(do Fulanos & Fulanas, por Will Leite)

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(do Ciclanos & Ciclanas, por Otoniel Oliveira)

É minha quarta campanha, e não deixa de ser tudo novo, sempre. Claro, aprendo mais a cada vez, mas nenhuma campanha é igual a outra, e nenhum instante vivido é o mesmo que já foi, as coisas mudam e você precisa ir mudando junto. Fico pensando se parte do meu público não pensa em apoiar minha campanha do futuro, que nem existe ainda, já que tenho feito várias – e acaba deixando de apoiar a campanha atual. Ou então se minha comunicação perde efeito ao longo das campanhas, já que sempre existe uma largada e uma reta final. Estou testando, toda vez testo algo novo e tento aprimorar para a próxima. Mas o que me puxa mesmo é ter uma ideia forte para um projeto. Para mim, esse é o motor da coisa, sem um projeto bacana eu não me sinto confortável em levar a ideia para uma plataforma que envolve o coletivo para viabilizar o financiamento.

AC: Quais são os maiores desafios para os artistas independentes no Brasil hoje? Para quadrinistas é mais difícil trabalhar dessa forma ou a liberdade editorial compensa?

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Pedro: Talvez o maior desafio possa ser condensado em uma palavra: continuar. Começar é muito fácil, apesar de todas as dificuldades. Mas continuar exige muito. Os desafios vão se somando com o passar do tempo, e as mudanças nem sempre acompanham a expectativa. Ser independente implica em arcar com todos os colaterais batendo diretamente no peito. Se compensa ou não, depende muito da pessoa, é sempre ônus e bônus. Pra mim, tem funcionado. Acho que as partes mais difíceis são as comerciais, não as artísticas. E o autor independente tem que lidar com a parte comercial, esse costuma ser um grande desafio. Dentro do processo comercial, existe a distribuição, que é o nome usado para dizer que você precisa fazer esforço pra sua obra chegar nas pessoas. Vai estar presente em bancas, livrarias, lojas, eventos? Tem que arranjar um jeito de fazer isso acontecer. E é o maior gargalo que vejo na exigência do nosso esforço. Agora, existe um outro fator paralelo e que não está diretamente ligado ao nosso esforço: o interesse do público. No sentido de que somos um país que não gosta de ler. E que estamos vivendo uma era de memes e Netflix. Ou seja, a competição por atenção está cada vez mais acirrada, e a conjuntura não joga a favor. Esse é um desafio que existe no nosso dia-a-dia, que só vai piorar, e que talvez não possamos fazer muito a respeito.

AC: Vamos fazer o jogo inverso: se pudesse fazer a releitura de alguma tira que gosta bastante, qual seria e por que? 

Pedro: Acho um pouco complicado pensar, pois uma releitura minha seria para mexer no texto da tira, não na parte visual. Então seria uma releitura que provavelmente deturparia bastante… provavelmente eu iria para um tipo de humor não tão parecido com o que uso nas joaninhas, seria algo mais direto e dialogando mais diretamente com o conteúdo visual. E pensando nisso, acho que eu gostaria de pegar alguma arte mais detalhada, justamente para contrastar com a simplicidade das minhas tiras, e ter mais elementos pra brincar. Estou pensando aqui e não sei exatamente de “quem” seria a tira que eu gostaria de mexer. E acho que eu seria péssimo nisso haha.

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AC: E tem algum artista da que admira muito e que adoraria ver em uma releitura Joãos & Joanas? (o céu é o limite, haha!)

Pedro:  De verdade, acho que já consegui a participação que mais gostaria no livro: Lourenço Mutarelli. Admiro muito como artista e como pessoa, fiz a oficina de quadrinhos dele no Sesc durante 2013 e essa admiração ficou muito sólida. Foi a maior honra que tive ter ele fazendo a tira de fechamento do Ciclanos e Ciclanas. Nesse mesmo livro, não consegui uma tirinha do Fernando Gonsales (Níquel Náusea), mas consegui que ele prefaciasse o livro… puxa, maior honra! As tiras dele são as que me fazem rir em voz alta, isso é difícil.

Claro que eu queria muitos outros artistas participando. Já tentei o Marcatti, Clara Gomes, Pedro Cobiaco, os gêmeos Moon e Bá, André Dahmer, Roger Crux… puxa, e muitos outros fantásticos. É um projeto que me obriga a lidar com vários “nãos”, (risos), pois sem tentar não se consegue. Gostaria muito que a Laerte fizesse uma das tiras. E poxa, Maurício de Sousa seria incrível, é o padrinho involuntário de quase todo quadrinista brasileiro.


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