Recortes!

No jardim com tia Elza

Logo Recorte

*Por Talita Guimarães

Manhã de terça. É novembro em 2017. E minha mãe, à mesa do café, comenta que encontrou Tia Elza no supermercado no dia anterior. Imediatamente me recordo da senhora robusta, de andar vagaroso e gestos pacientes que foi minha primeira professora escolar, na época que o ensino infantil era chamado de jardim de infância.

719d4016-7149-43a7-950d-de48289767d6

Arte: Talita Guimarães

É provável que a minha poesia brote dessa formação que vinculava crianças a flores. Onde Professoras eram Tias que nos pegavam pela mão e conduziam pelo fantástico mundo do saber ligar os pontos.

Ciente de que não tenho fotos ou qualquer tipo de registro desse tempo que me associe à Tia Elza, percebo que sequer preciso, pois embalada pela preciosidade das lembranças cujo único registro são memórias dentro de nós, uma narrativa completa me vem à mente, reativada graças ao simples encontro de mamãe com minha primeira professora, entre frutas e verduras do mercado de bairro onde moramos há décadas.

Na lembrança eu claramente era criança. Com direito a marias-chiquinhas, franja, uma lancheira amarela enorme e um bonequinho do desenho animado Cavalo de Fogo que articulava a cabeça e uma vez esqueci na escola, recuperando no dia seguinte graças a Tia Elza, que o havia encontrado e guardado em segurança.

2017 - Aspas_Recorte

Pareceu que eu é que havia sido esquecida, quando certa vez fiquei além do horário de saída esperando meus pais irem me buscar, enquanto via a escola silenciar à medida que ficava deserta.

Até Tia Elza aparecer empurrando sua bicicleta com garupa na despedida de seu expediente e me notar ainda pela portaria. Conhecida de meus pais, assegurou-me que algo atípico acontecera para não me buscarem no horário e decidiu, preocupada, porém gentil, não me deixar sozinha ali, levando-me em segurança até em casa, algumas quadras depois de onde ela mesma morava.

Lembro de me acomodar na garupa e seguir pelo trajeto conhecido, parando em sua casa, caminho da minha, para deixarmos suas coisas. Na parada, Tia Elza me deu água para beber e deixou que eu pegasse uma florzinha do jardim da sua doce casa avarandada com plantas e muro baixo, para eu levar para minha mãe, a quem mais tarde eu encontraria em casa e ouviria falar do que a impedira de me buscar a tempo (demora do ônibus para voltar de uma ida ao Centro da cidade, há 30km de casa).

Era início da década de 90 e nosso bairro ainda conservava os traços urbanos de seu projeto habitacional original de casas com varanda. É possível que as pessoas também conservassem qualquer nota de uma decência que inspira confiança. Ou que talvez só fossemos mais sortudos, por contar em nosso meio com professoras primeiras que cultivavam flores com igual afinco e delicadeza com que zelavam por crianças em seu jardim de infância.


Perfil Talita

Talita Guimarães: Ensaios em Foco | Instagram | Twitter

 

 

 

 

One thought on “No jardim com tia Elza

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s