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A impermanência do que quero permanente

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*Por Talita Guimarães

Em tempos de revelações atordoantes sobre nossas controvérsias mais íntimas e, portanto mais nossas, que nos opõem a quem depomos ser, redescobrir o sentido, o sabor e o efeito dos gestos urge.

Declarar para nós mesmos a impermanência de quem ostentamos ser a todo custo me parece um passo importante para entender que tipo de identidade temos nos esforçado para sustentar e por que uma hora ou outra fracassaremos miseravelmente em ser quem não somos.

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Permitir que nosso reflexo no espelho seja a quem damos a cara a tapa, ainda me parece o melhor e menos socialmente prejudicial dos chacoalhas que precisamos, vez em sempre.

Mas sabemos, não é assim tão suavemente que as máscaras caem.

A redescoberta do que nos constitui e do que fazemos com o que nos consta, é fato: não cessa enquanto ciclo vital. Pulsamos transitórios e é nessa brevidade que nos tornamos possíveis. Sejamos passíveis ou impávidos.

Lidar com a impermanência das coisas faz parte. É pressuposto para rodar com a ciranda, que – não nos enganemos – a cada volta já não é mais a mesma.

Entretanto, quanto há de tolerável à impermanência de tudo, inclusive das desfeitas que ferem a nossa humanidade? É realmente aceitável concluir que respeito também seja muro que se derrube, incluindo seu deslimite no baú sem fundo da aceitação do fim de tudo?

Em um contexto artístico, cuja função social está sempre sendo questionada, pensar o que projetamos no que produzimos é de fundamental importância, porque toca o cerne da honestidade que honra a arte. E ali, entre o que gestamos e o que parimos, encarar profundo o que botamos no mundo requer integridade para assumir a parentalidade que aponta para nós. Antes mesmo de uma funcionalidade, trata-se de responsabilidade.

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Nesse sentido, algumas questões me acompanham permanentemente. Afinal, se não formos mais capazes de ser quem cantamos, cantar para quê? Ou ainda, se somos o que cantamos, o que nosso canto tem revelado sobre nós? Será que vivemos mesmo do que acreditamos, ou apenas acreditamos viver? Em qual medida nossa obra é projeção e fuga? Nós, simulacro?

A seara da impermanência coexiste com nossas vontades coincidindo ou não com nossa compreensão, alinhando-se ou não aos nossos entendimentos e movimentos de desapego. Mas em relação à alguns aspectos fundamentais para uma vida em compasso de paz, sinto que certas coisas jamais deveriam findar, pois cabe justamente a cada um de nós mantê-las ativas, pelo bem de cada ciclo.

O exercício da reflexão, o sentido dos gestos, o sabor das palavras, as convicções elaboradas com o caminho, o estar onde se sabe que está, ciente de quem se é e do que se faz.

Nenhum de nós, contemporâneos, inventou a roda. Já caímos no giro, sendo erguidos pela sobrevivência por rotas que traçamos com a inteligência de que dispomos. Caímos, falhamos, equivocamos nossas crenças a certas alturas da vida e somos enredados pelas consequências das marcas que nos acompanham, voltando a cada giro para nos lembrar do que não se apaga.

E é aí que mora minha inquietação: se há o que não se apague, o que não se esqueça, o que nos marque em definitivo, então não há o que termine de todo também, pelo menos não enquanto estamos vivos.

Das possíveis impermanências que quero experiência permanente, a paz vem em primeiro lugar. Porque abarca tudo de mais arduamente necessário para alcançá-la, e sem o qual não vale a pena permanecer numa roda apenas a girar.


Copy of Especial de Resenhas - 2 anos AC

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