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Pelo despudor em ser humano

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*Por Talita Guimarães

 Começa com o que é pouco a pouco negado a nós. Um acesso gratuito a banheiro ou um copo d’água, por exemplo. E se arrasta pelas convenções sociais que determinam o que é aceitável ou não fazer em público. Até você se dar conta de que está condicionado a sentir vergonha de características da sua própria natureza.

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Arte: Talita Guimarães

Do constrangimento ao comprar um pacote de absorventes higiênicos ao medo de suspeitarem que sua demora em um dos boxes do banheiro do trabalho tem a ver com algum desarranjo intestinal. Sentimos pudor das nossas necessidades básicas e temos vergonha de admitir o que nos é inteiramente natural e comum a todos.

Pode ter a ver com a nossa educação para o medo, assim como pode ter influência forte da nossa cultura de opressão, o fato é que temos nos distanciado da nossa humanidade com gestos hostis à nossa natureza humana. Como se negar um copo d’água a alguém fosse nos tornar mais fortes ou menos frágeis na evolução da nossa condição irrevogavelmente finita.

Tenho pensado no assunto há algum tempo e me questionado sobre meus gestos calculados para não levar o outro a pensar que faço o que ele também faz, ou ainda para esconder o máximo possível que sou tão humana quanto ele. Para além da educação que nos orienta a reconhecer o lugar e o momento de cada coisa, às vezes passamos por situações em que a natureza vence a racionalidade e aquele gás que você tá prendendo há horas simplesmente sai no corredor de cereais do supermercado. Seja porque te negaram o acesso ao banheiro – restrito para funcionários – ou porque você não teve tempo de ir porque perderia o ônibus ou mais alguma dessas desculpas que nos damos para justificar nossa falta de tempo para nós mesmos, a questão é que d2017 - Aspas_Recorteevia ser tudo bem lidarmos com as necessidades mais básicas que todos temos, sem ficarmos nos escandalizando uns com os outros, para variar. Por mais que nossas intimidades pertençam somente a cada um de nós e isso inclua certo bom senso em nos resguardarmos aos locais adequados, isso não quer dizer que devamos nos entender tão pouco quando uma ou outra necessidade íntima inadiável – ou nem tanto assim como comprar papel higiênico – nos demande em público.

 Um dos meus primeiros empregos na vida foi como recepcionista em um laboratório de análises clínicas lidando diariamente, oito horas por dia com excrementos e secreções humanas. A experiência revelou muito sobre a vergonha que temos de nós mesmos, alguns mais outros menos, quando o assunto é fezes e urina – para ficar nos materiais mais básicos coletados. Chega a ser cômico o papel que fazemos tentando proteger o material na entrega. Com certo tempo de trabalho, o profissionalismo com o procedimento confere uma camada nova de naturalidade para lidar com o assunto, pois querendo ou não você acaba aceitando que se tem uma necessidade que não procede alimentar é de qualquer pudor em ser humano.

Afinal, se for pra falar do que deveria motivar nossa vergonha ao atrairmos uma atenção imprópria, entraríamos numa seara infinita de gestos que desonram nossa humanidade e nos humilham muito mais do que precisar de um pouco mais de papel higiênico e descargas em um banheiro público.


 

Copy of Especial de Resenhas - 2 anos AC

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