Cotidianas

Acabou chorare: Carnaval e alegria colorida da cidade cinza

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*Por Meiri Farias e Beatriz Farias

Esse texto quase não existiu. Passou uma semana, o tempo foi curto e a vida correu intensamente, justificando a máxima de que, no Brasil, o ano começa quando passa o carnaval. Esse texto quase não existiu. A pauta ficou velha? Ainda valia a pena publicar? Esse texto quase não existiu, mas hoje de manhã quando coloquei os óculos escuro para sair de casa, alguma coisa bloqueava parcialmente minha visão. Um restinho de glitter, quase nada. Vestígio insignificante, lembrança vívida da festa das festas e da alegria que chega em brilho, suor e música.

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É isso, faz exatamente uma semana que o carnaval chegou ao fim e a cidade já foi invadida pela vida cotidiana. Um ou o outro carro de som ainda ecoa, e um resto de cor ou glitter ainda brilha no cesto de roupa suja, mas na verdade cruel é que carnaval acabou e chegou a hora de enfrentar de verdade o ano de 2018, com sua Copa do Mundo, eleições presidenciais, todo tipo de emoção elevada ao extremo. São Paulo segue um caos, o rio militarmente ocupado. 2018 é uma panela de pressão depois de meses em banho-maria. E o Carnaval é uma janela em meio a tudo isso, um pedido de pausa para alegria entrar na Avenida, seja Anhembi, Sapucaí, a Paulista ou a São João. O carnaval pediu licença, nós abrimos o coração. E quando alguma coisa acontece no coração, é preciso compartilhar.

Prólogo

O nosso pré-carnaval começou com Bloco Tarado Ni Você na Casa Natura Musical no dia 2 de fevereiro, como parte de uma semana especial de programação carnavalesca que também já havia recebido o Bloco do Sargento Pimenta, Johnny Hooker, Antonio Nóbrega, Beth Carvalho, entre outros. O Tarado já é um dos blocos mais queridos e tradicionais da cidade, que homenageia a obra do cantor e compositor Caetano Veloso e propõe o redescobrimento da cidade através do ativismo urbano e da ocupação de espaços públicos.

Foto: Página Oficial do Bloco| Felipe Giubilei

Dessa vez a ocupação foi de um espaço privado e essa festa provocou uma nova percepção. Já na entrada, a Casa Natura mostra o que sabe fazer melhor: receber. O público pode se regalar com glitter, maquiagem e adereços antes mesmo de adentrar o espaço do show. Com a assistência dos funcionários da Natura, a brincadeira foi um ótimo entretenimento durante a espera do início do show (e até mesmo durante). O salão principal demorou muito mais que o costume para encher, é tentador se encher de brilho e difícil largar as plumas.

O bloco ganhou cara de bailinho, com potência de show. Composta por 11 integrantes, a banda do bloco revisita toda a obra de Caetano com arranjos novos baseados em samba-reggae e afoxé. Para a apresentação da casa Natura, além do integrantes oficiais da banda, a cantora baiana Xenia França fez uma participação especial. Outra novidade foi o lançamento da primeira canção autoral do bloco, o funk “Profane”, que deu tom ao tema escolhido pelo Tarado para 2018.

O esquenta carnavalesco abriu fevereiro com todas as honras, equilibrando o repertório animado que foi de Tropicália a Como Dois e Dois sem perder o suingue. Reconvexo, Vaca Profana e Eclipse Oculta são algumas das músicas que mais se destacaram na noite de sexta. O clima da festa era de alegria genuína, mas sobra um porém, falta algo. A festa é linda, a anfitriã sempre cumpre o seu papel, mas a rua faz falta quando se pensa no Tarado. E a vontade de botar o bloco na rua é inevitável.

Apogeu

Relatos do que foi ser uma pré-adolescente de periferia:

Olhares chocados por não estar o dia inteiro com um short curto, sutiã ou em alguma laje fazendo a unha (não que tenha qualquer problema fazer isso, inclusive se esta foi a realidade imposta, por que não se apoderar dela? Algo que não tem nada a ver com aceitar “menos” do que é necessário). Na mesma balança, ter cuidado com a roupa, ter cuidado com o horário de voltar para casa. Viver de restrições, medo, cuidado. O oposto do clichê, o oposto da figura “favela ostentação” que sobe o morro-cenário Rede Globo.

Mas no carnaval, existe uma nova noção de espaço. Uma outra noção de cidade, onde você está no mundo. Vivo, vivo, muito vivo.

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Fotos: Página Oficial do Bloco| Victor Moriyama

É existe o abuso, existe o homem, existe o machismo. Existe o medo, condição inerente para ser mulher em uma sociedade desigual. Mas existe o carnaval rua e a festa pode ser uma armadura para coragem também. O bloco de rua não pede convite na porta, não te cobra dinheiro. As pessoas não usam o carro para ir na festa, as pessoas vão de transporte público. A brincadeira começa no Metrô, a saída da estação é uma espécie de “red carpet”, onde o dress code é o que mandar sua imaginação.

Carnaval é a festa da carne, não por menos. É a celebração dessa matéria a qual viemos ao mundo. E ela importa. O Profane, tema do bloco Tarado Ni Você em 2018, tem a ver com o corpo. Nossos corpos importam e não precisa estar ocupando o lugar de hipersexualização. Ele pode estar com pouca roupa, com fantasias, cheio de glitter, apenas existindo e dançando, jeito de ser feliz fácil, sem erro ou justificativa. A festa que glorificava corpos irreais na Sapucaí, de repente abre espaço para pessoas reais. É irônico como justamente no carnaval, a percepção foi que ser mulher, gorda e usar o que quiser não é um problema e ninguém vai ter julgar por isso, pelo menos não NESTE bloco.

O Bloco Tarado Ni Você, desfilou no dia 10 de fevereiro, saindo do cruzamento mais famoso da cidade, praticamente uma continuação exata do desfile do ano anterior que acabou o mesmo lugar: o encontro entre a São João e Ipiranga. O público, fiel e empolgado chegou munido de chifres personalizados, referência ao tema e a canção inspiração Vaca Profana. Ao caminhar com o Tarado, a percepção é clara a todo momento: carnaval é político sim. O Profane exaltou o direito de cada um ser exatamente o que quiser e o manifesto era uma sensação palpável durante todo o cortejo. E a gente não se diverte menos por isso, a gente se diverte mais porque ocupa cada espacinho da rua que já é nossa.

Fotos: Página Oficial do Bloco| Victor Moriyama e Paulo Peixoto

O repertório, similar ao apresentado na Casa Natura, enche a cidade e outras canções se destacam nos arranjos do Tarado. Cor Amarela se torna um hino, Língua a mais dançante. Tigresa e Tieta são manifestos e é incrível ser mulher, na rua e sentir que esse lugar concreto poder ser, mesmo que por um dia, o lugar inventado onde a gente está comunhão com a natureza feliz. E a tigresa pode mais que o Leão.

Algumas ausências são sentidas. Como cantar contra o conservadorismo e não trazer Podres Poderes? E Tropicália? Parece imperdoável não estar em qualquer setlist. Mas ao parar em outro cruzamento, agora entre o Theatro Municipal e o a Prefeitura, Vaca Profana enche a cidade de fumaça colorida e chega ao clímax da tarde.

O desfile segue e completa a volta encerrando no ponto de partida. A escolha do repertório é obvia e nem por isso menos impecável. Chegamos ao cruzamento ao som de Sampa. São Paulo viva responde com seus deuses da chuva. A alegria é quase boba, o cansaço de quatro horas de caminhada é quase esquecido. A felicidade genuína do carnaval chega ao ápice paulistano quando todos passeiam na tua garoa. E todos podem curtir numa boa.

“Em 2018 não tivemos apenas um tema e sim uma trama: Profane! Um verdadeiro levante. Todes livres e iguais. Bois, vacas, bezerros com o direito de escolherem ser o que quiserem, de resistir e de lutar sempre. Todo o leite bom para lavar as ruas paulistas de um velho conservadorismo, de um caretismo violento e estagnado. Sagrado é nosso estado de espírito. Nosso #Profane2018 foi um chamado em expansão. Seja o que for, desde que seja sagrado, que respeite e seja livre!

Esguichamos alegria por becos, sarjetas, vielas, por todas as frestas possíveis, afogando esse grito conservador e abafando-o com nossa cantoria, nossa folia, nosso mugido. Colorimos a cidade cinza. Jorramos o respeito à nossa felicidade sobre toda forma de raiva, de medo, de preconceito, de tristeza. Esse foi um carnaval pra se valorizar ainda mais as risadas e chorar de tanto rir. E assim saímos todes iguais pelas ruas, chifres em riste sendo todes profanes!”

(Manifesto na Página oficial do Bloco)

A hora do Adeus

O texto chega ao fim com o fim do carnaval. As cores continuam e é por isso que essa parte será muito mais ilustrada. Mas os tons de cinza começam a aparecer.

Fotos:  Daisa Souza

A terça oficial do carnaval foi marcado por uma multidão de gente que se concentrou no Páteo do Colégio, centro de São Paulo na região da Sé. O bloco Pagu comandou o fim da festa, seguindo em seu segundo ano de desfile. Contando com sua maravilhosa bateria formada inteiramente por mulheres.

O bloco que levanta a bandeira de luta por mais respeito e igualdade para as mulheres, conta com um repertório formado também por interpretes femininas de grandes hinos da nossa música. De Elza a Elis, passando por Rita, Gal, Clara e Baby, a bateria feminina brilha com os pés no chão e as vozes de Barbara Eugênia, Julia Valiengo e Soledad ecoam no trio elétrico.

Mas o segundo ano intensificou alguns problemas que já se percebiam na estreia do bloco em 2017: o trajeto não suporta a quantidade de pessoas que o bloco atrai. A saída do Páteo é infernal. As ruas estreitas criam uma corrida de obstáculo que incomoda e tira parte do brilho, já que quase não se ouve o bloco. O empurra empurra cria uma sensação de insegurança e o assédio, furtos e pequenos focos de violência concentrada ganham espaço. É triste, não é culpa do bloco, mas gera uma frustração imensa.

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Fotos:  Daisa Souza

O clima melhora e a festa recupera o fôlego no Largo São Bento, o espaço faz toda a diferença e aí a bateria tem espaço para brilhar. É o melhor momento do bloco e a tristeza agora é outra: o sentimento inevitável do fim do carnaval. O frio se intensifica em oposição completa ao calor tropicalista do sábado. O céu já está cinza e a quarta-feira está querendo chegar.

O Pagu continua como uma das melhores surpresas do carnaval paulistano, mas o sinal de alerta se intensifica. É notável como um bloco novo e relativamente menos conhecido sofre muito mais com a falta de espaço que o Tarado, por exemplo.

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Fotos:  Daisa Souza

Precisamos nos organizar e o carnaval também precisa disso para que não perca o brilho, ja que em tempos de muros cinzas e balas de borracha nos nossos direitos, nada mais dentro dos conformes do que usar nossos próprios corpos para colorir.

Acabou chorare, já estamos com saudade Carnaval.


Perfil Meiri

Meiri Farias: Portfólio | Instagram | Twitter

Assinatura Beatriz

 

 

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