OSCAR2018 / Questão de Opinião

A FORMA DA ÁGUA: A vida é a ruína dos nossos planos*

Logo Questão de Opinião

*Por Talita Guimarães

*********************SPOILER ALERT*********************

90O-90SCARS_LOGO_OSCARGOLDlrg

A água sempre foi um dos elementos que mais me fascinou. Sempre tão perto de nós, onipresente em nosso cotidiano, parte vital de quem somos. Tão íntima quanto fascinante em sua composição química pura que lhe assegura independência de cheiro, cor e sabor. Solúvel a uns tantos elementos, enquanto a outros nem tanto e indissolúvel a alguns. Fora a capacidade de assumir a forma do recipiente em que é depositada podendo ainda admitir estados distintos.

Como o amor. Essa matéria insondável e poderosa, ora superestimada ora subestimada, que em algum momento vai tentar morada em nós. Com ou sem sucesso. Mas nunca sem dor, cor ou cheiro.

the-shape-of-water

Em A Forma da Água (The Shape of Water, 2017), longa-metragem de Guillermo Del Toro indicado ao Oscar 2018 em 13 categorias, a trama de premissa aparentemente simples – uma zeladora do Centro de Pesquisa Aeroespacial norte-americano se apaixona por uma criatura fantástica mantida em laboratório e decide salvá-la de um fim trágico – se desenrola por 123 min meticulosamente pensados para falar dos mecanismos mais complexos e insuspeitos do amor.

Por conta de uma incisão feita em suas cordas vocais ainda bebê, Elisa – interpretada com uma comicidade comedidamente comovente por Sally Hawkins (quem diria que a mesma mamãe serelepe do infantil Paddington!) – é muda, mas tem preservada sua audição, comunicando-se por sinais com falantes que a entendem quase sempre sem dificuldade. Artifício perspicaz que permite fluidez ao filme, já que os diálogos alcançam facilmente o espectador, seja por legendas ou pelos interlocutores de Elisa, que interpretam oralmente a linguagem de sinais.

Embora sem grandes ruídos de comunicação, a mudez de Elisa é ainda um forte elemento de distanciamento de seu mundo dos demais, colocando-a em busca de uma relação de mútua empatia. O que finalmente começa a acontecer quando a personagem e sua amiga Zelda (Octavia Spencer) entram em contato no trabalho com um ser fantástico capturado na América do Sul e nunca visto por elas, levado ao laboratório do serviço secreto do governo para fins experimentais. As duas são escaladas para uma limpeza de urgência no local onde a criatura está e o cenário é de um crime recém-cometido com sangue pelo chão e dois dedos humanos – um deles com aliança – encontrados sem sobressaltos por Elisa, que os recolhe para entregar à chefia como se tratasse de um objeto qualquer, colocando-os displicentemente em um saco de papel que mais tarde descobrimos estar melado de mostarda.

O dono dos dedos – Michael Shannon como Coronel Richard Strickland – acabara de ser atacado pela criatura e é o responsável pela maior parte das cenas asquerosas do filme, com direito a assédio sexual, tortura e assassinato. Elementos que assinalam o contraste insólito de A Forma da Água entre violência, erotismo e ternura. Fora o humor peculiar que perpassa todo o filme. Conjunção de características curiosas que exercem grande poder de comoção durante a sessão no cinema, não raro com uma explosão de risadas rompendo de um canto isolado da sala, enquanto momentos depois, de outro lado alguém estremece quando o sujeito de dedos reimplantados – que gangrenam no decorrer da estória conferindo-lhe um ar de vilão repugnante – dá choques elétricos violentos na criatura que guincha dolorosamente sob tortura. Ou ainda, da emoção que nos envolve nas cenas em que Elisa e a Forma, como é chamada a criatura interpretada por um irreconhecível Doug Jones, interagem.

naom_5a6b29304410b

E é a construção dessa interação que vale a pena destacar quando se pensa na relação entre o nome do filme e o sentimento primordial que une o casal protagonista. Não é a paixão ou a descoberta arrebatadora de um grande amor que saltam aos olhos logo de cara. É a identificação mútua que brota no peito de Elisa diante da figura aprisionada dentro de si sem comunicação com o mundo externo, representada pela Forma, uma mistura de anfíbio com humano ora selvagem ora vulnerável, que revela uma inteligência superior ao corresponder amigavelmente à aproximação da zeladora.

Leia também | #OSCAR2018: Os filmes do ano

Em cena, Elisa e a Forma são a descoberta de um par improvável, que gradualmente supera as expectativas de uma união romântica completa, com amizade, cumplicidade e até mesmo relações físicas íntimas em cenas oníricas que certamente tiveram grande peso na indicação recorde ao Oscar, por Diretor, Atriz (Sally Hawkins), Roteiro original, Ator coadjuvante (Richard Jenkins), Fotografia, Atriz coadjuvante (Octavia Spencer), Direção de arte, Figurino, Edição, Trilha sonora, Mixagem de som e Edição de som.

5.jpg

Secretamente, Elisa visita a Forma e a alimenta, ensina a se comunicar por sinais e compartilha músicas em uma vitrola com discos de vinil que – apesar da Direção aclamada – Del Toro não explica muito bem como ela conseguiu simplesmente contrabandear num carrinho de limpeza para dentro de um laboratório secreto do governo sem levantar suspeitas. E nesse sentido, há uma série de furos de continuidade entre as transições das cenas, que demonstram o completo desinteresse em nos convencer de que a fantasia encenada é possível. Parecendo importar apenas que a fantástica conexão entre dois seres sedentos por cumplicidade fique clara enquanto busca vital, pela qual vale a pena enfrentar todos os riscos.

Visualmente, A Forma da Água é carregada de tons esverdeados que criam uma atmosfera pantanosa em lembrança ao habitat da criatura, mesmo quando no tanque do cativeiro. O que se conecta diretamente com a própria origem de Elisa Esposito, uma órfã encontrada nas águas de um rio que já adulta se apraz com longos momentos em sua banheira. Os ambientes por onde a personagem desliza – em casa ou no trabalho – têm esse tom em comum, que é suavizado nas cenas em que seu vizinho de porta Giles (Richard Jenkins), um artista homossexual de meia idade, surge debruçado sobre seus desenhos afixados em pranchetas marrons espalhadas por uma sala iluminada pelo sol.

E nesse sentido, não é sem mérito que dois coadjuvantes de A Forma da Água estão entre os indicados ao Oscar, pois tanto o Giles de Jenkins quanto a Zelda de Spencer encenam diferentes representações do amor.

A presença de Giles no filme reforça o quadro de personagens que lutam por representatividade e seu lugar no mundo, o que fica evidente quando sua tentativa de se aproximar romanticamente do rapaz por quem está interessado é duramente reprimida em uma cena especificamente inserida para retratar a atmosfera fortemente homofóbica e racista da década de 60. Na mesma cena em que tenta segurar a mão do rapaz sob o balcão da lanchonete e é repelido, Giles o vê enxotar grosseiramente um casal negro do local. Desilusão que inclusive o demove da recusa em ajudar Elisa, pois a partir do baque com o desamor alheio, Giles compreende a ânsia por completude da amiga, revelando-se um grande aliado do romance e empenhando-se no plano de fuga orquestrado por ela para resgatar seu amado do laboratório impedindo que seja sacrificado por ordens oficiais.

shape2-photo_2a2a

Enquanto isso, Zelda é constantemente subestimada intelectualmente por Strickland devido a cor de sua pele, em situações abomináveis que a personagem robusta de Spencer contorna com sabedoria e uma quase indisfarçável perplexidade. Fora seus longos monólogos sobre a ingratidão silenciosa de seu marido, que embora descrito como calado, acha de abrir a boca justamente no momento mais inoportuno da trama.

E o ainda não citado aqui Michael Stuhlbarg como Dr. Robert Hoffstetler/Dimitri Mosenkov, um cientista russo que precisa ocultar sua identidade no trabalho para o governo estadunidense enquanto passa informações para o lado soviético que possui interesse na criatura. Símbolo do amor científico por seu objeto de estudo, Robert/Dimitri pertence ao lado que ajuda Elisa dando orientações sobre os cuidados especiais que a Forma demanda ao ser cuidada na casa da zeladora, após ser salva das garras de Strickland.

Leia também | ME CHAME PELO SEU NOME: A delicadeza dos amores de verão

Diante desse quadro, tudo no longa de Del Toro é construído em torno da opressão a que seus personagens – sob diferentes formas de amor e amar – são submetidos, dificultando sua existência em paz e testando seus limites em prol da resistência por suas identidades e crenças.

O desfecho, surpreendente do ponto de vista do suspense erguido com direito a muita tensão e reviravoltas, recorre a uma solução fantástica que cumpre seu papel em nos convencer de que os meandros do amor, assim como a ruína de nossos planos mais ingênuos ou ambiciosos, pode ser um conto admiravelmente lírico e sombrio.

CONFIRA O TRAILER:

*Provérbio que Elisa (Sally Hawkins), protagonista de A Forma da Água, lê no verso da folhinha do calendário durante o filme.


Perfil Talita

Talita Guimarães: Ensaios em Foco | Instagram | Twitter

 

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s