OSCAR2018 / Questão de Opinião

DUNKIRK e o heroísmo em tempos de guerra

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*Por Talita Guimarães

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Se do Choque de Cultura eu fosse, diria que Dunkirk (2017) – filme de Christopher Nolan indicado a oito estatuetas do Oscar 2018 – se resume a 1h46min de aviões sendo abatidos, navios naufragando e centenas de figurantes morrendo na praia.

As cenas de bombardeio e perseguição aérea são de tirar o fôlego. A tensão permanente entre os soldados nos prende à cadeira. A trilha sonora cresce nos momentos certos. E quase não há diálogos. Se é tiro, porrada e bomba que você quer na telona, Dunkirk é o seu filme de guerra da temporada.

Dunkirk

O que não deixa de ser verdade e cumprir seu papel, embora o longa concorrente por Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Trilha Sonora, Melhor Edição de Som, Melhor Mixagem de Som e Melhor Direção de Arte intencione ir além de mais um filme de guerra ao enveredar pelas perspectivas que o roteiro baseado em fatos reais nos dá do que foi a Operação Dínamo, segundo Nolan: um capítulo sobre a sobrevivência durante a Segunda Guerra Mundial, simultaneamente retratado por terra, céu e mar.

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Mais claro e colorido do que o cinema convencionou pintar conflitos bélicos, Dunkirk alterna narrativas simultâneas da evacuação das tropas aliadas da praia de Dunquerque, na França, mostrando como ao mesmo tempo em que soldados lutavam por terra para escapar do cerco alemão e chegar a salvo à orla, onde navios e até mesmo quase uma centena de embarcações civis iam resgatá-los, o céu era cortado por caças em combate que tentavam bombardear os barcos que transportavam os sobreviventes.

Como alguém imerso na operação, o espectador acompanha as jornadas de um jovem soldado britânico (Fionn Whitehead como Tommy), um piloto da Força Aérea Real (Tom Hardy como Farrier) e uma embarcação civil envolvida no resgate, tripulada por Mark Rylance como o marinheiro Sr. Dawson, seu filho Peter interpretado por Tom Glynn-Carney e seu amigo George, feito por Barry Keoghan.

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O efeito alcançado com o entrelaçamento dos três ângulos nos aproxima dos sentimentos que atravessam quem se encontra em situação de conflito armado. Podemos sentir o medo de morrer dos soldados, que ao ouvirem o ruído dos caças se aproximando abaixam-se instantaneamente como em uma coreografia do instinto de sobrevivência. O desespero dos que se lançam ao mar quando seu navio bombardeado naufraga. A preocupação do piloto que precisa administrar seu tempo de combustível com o embate aéreo, desviando de rajadas inimigas e abatendo adversários. E até mesmo compreender o soldado que teme ser hostilizado por ter sobrevivido, ou o jovem civil que embarca para ajudar no resgate com o sonho de fazer algo heroico para orgulhar o pai.

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Independente da incrível reconstituição de batalhas e resgates, com as cenas gravadas em mar aberto com aviões e embarcações reais, algumas delas originais do confronto real, o filme não se debruça tanto sobre as implicações da operação ou sobre reflexões acerca da guerra. Nesse sentido, Nolan não julga os fatos, apenas conta sua elaboração ficcional de uma perspectiva britânica do fato histórico. O que não passa batido graças à menção de que a operação ordenada por Churchill, primeiro-ministro à época, superou as expectativas de resgate de 30 mil homens para 300 mil, ou ao desfecho que apresenta um panorama da situação política lida longamente de um jornal por um soldado sobrevivente.

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O que Dunkirk entrega, no fim das contas, é um retrato de como a luta pela sobrevivência move o ser humano até mesmo quando o sentido de sobreviver pode cruelmente significar fracasso e o recuo, uma derrota. Inversão que quase somos direcionados a questionar, até o filme mostrar a recepção calorosa que a população dá aos sobreviventes, vistos como heróis, embora toda a bravura e determinação empenhada desde Dunquerque por aqueles homens traumatizados tenha objetivado unicamente escapar da morte, vencendo assim cada qual sua batalha pessoal pela vida. Heroísmo que vai de encontro à um contraponto irônico, quando o desejo de George em estar entre os homens que salvam vidas, é considerado heroico o suficiente para sair no jornal, embora o jovem tenha morrido no barco ainda a caminho do resgate. Contraponto que deixa no ar a reflexão sobre qual vitória realmente importa em tempos de guerra.

CONFIRA O TRAILER:


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