OSCAR2018 / Questão de Opinião

O DESTINO DE UMA NAÇÃO: As contradições do homem mais poderoso do mundo

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*Por Beatriz Farias

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Este poderia ser um começo de resenha sobre a importância de uma liderança justa que olhe para seu povo. Ou até mesmo uma indireta óbvia aos nossos modelos atuais de governo, que não permitem a participação da população e não dão um passo que ultrapasse os seus interesses pessoais. Sempre que a gente tem em mente o destino de um conjunto de pessoas que convivem sob determinado número de leis e acordos, soa confuso que os planos resolvam um futuro distante e que mais pareçam argumentos pouco convincentes para estagnar nosso presente. Para realizar essas pequenas análises, no entanto, pesquisar o contexto é sempre alternativa interessante de entender porque certas situações eram ou não evitáveis. Contudo, ao invés de recorrer simplesmente aos termos que dão nome a uma batalha, poderíamos alcançar conclusões interessantes se déssemos ouvido ao contexto do ser que ali se encontra governando. A alternativa continua sendo conhecer a história, talvez a gente só precise trocar um pouco os focos que estamos utilizando de análise.

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Para este filme, esqueça os textos épicos sobre a segunda guerra mundial ou os termos que você decorou com dificuldade para passar no vestibular nas questões que envolviam a Alemanha.  A gente vai falar de gente. Muita gente, ou não. Como questiona o senhor britânico que serve de tema para o longa: “qual dos ‘eus’ devo ser hoje?”. E eis que a câmera nos dá um vislumbre de uma porção de chapeis diferentes entre si na coleção do velho. A primeira coisa a saber sobre um dos primeiros-ministros mais relevantes para a história da Inglaterra é que jamais podemos falar de uma pessoa só quando se trata de sua personalidade.

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Com direção de Joe Wright e roteiro de Anthony McCarten, O Destino de uma Nação, ou, pelo título original Darkest Hour (2018) – caso você seja menos romântico e genérico do que as pessoas que fazem as adaptações dos títulos – apresenta para as telonas o momento de posse do cargo de primeiro-ministro assumido por Winston Churchill (Gary Oldman). Se a pressão em estar à frente do até então Reino Unido não parece suficiente, vale lembrar que a mudança acontece em plena 2ª Guerra Mundial, quando a desesperança em vitória já começava a plantar a ideia de um tratado de paz com a Alemanha, a fim de botar ponto final nos anos de conflito que já se contabilizavam.

Com elenco de peso, Ben Mendelsohn dá vida ao rei Jorge VI do Reino Unido, Ronald Pickup é Neville Chamberlain, Lily James é Elizabeth Nel, a datilógrafa do primeiro-ministro, e finalmente Gary Oldman, que parece ter retirado Churchill do túmulo e incorporado, o ponto principal do longa é apresentar as facetas contraditórias deste governante frente a guerra. Com base no que as pessoas que o rondavam pensavam dele, vamos construindo o mapa de ligação entre as características a partir do olhar de sua esposa, da oposição, da sua datilógrafa, dentre outros, passando de velho rabugento a engraçadinho irônico, “doido de pedra”, o senhor que mentiu para a população e sacrificou soldados até se tornar o líder deste mesmo povo. Ou simplesmente constatar pelo olhar do mesmo sobre si: um homem “terrivelmente assustado” com o destino de uma nação em mãos.

Através de uma câmera impecável, somos guiadas a entender o ritmo do filme por meio de um labirinto de informações que nem sempre precisam ser verbalizadas, sendo expressas muitas vezes por um simples posicionamento preciso de cada objeto em cena, desde os personagens até a marcação de luz ou escolha de enquadramento para um frame. E se tem uma coisa que esse filme tem é ritmo. As passagens de cenas são apostas ousadas e certeiras para uma proposta de acontecimento histórico, viabilizando uma curiosidade que paira em todos os momentos aliada a uma certa graça diferencial ao modelo de filme de guerra.

E é aqui que se encontra o maior trunfo do diretor: como falar de um tema que já foi tão abordado, através do enfoque de alguém usualmente mencionado e, ainda por cima, de um jeito que prenda a pessoa na tela? A resposta é concedida em poucos minutos da trama: adicione um visual de tirar o folego dos amantes da sétima arte com roteiro que não deixe nem a mais mínima ponta solta. O resultado é um filme fácil de assistir, onde as sacadas rápidas provocam a graça pela não convencionalidade em narrar cenas que poderiam soar cansativas, como os discursos que o primeiro-ministro realiza à câmara e sempre são mais que uma simples leitura de texto.

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A paleta de cores é outra surpresa positiva para o longa, tendo em vista a variedade de filmes sobre o período que custam em abandonar os tons de cinza e que nesse caso transitam com naturalidade para cores que ultrapassem a impressão de fumaceira constante na tela. Aqui vale mencionar também que não há problema em contar com cores mais sombrias, em especial como recurso narrativo para uma fase, no entanto é realmente curioso se desprender deste artifício para agregar novas visões sobre a época e sobre a importância do senhor Churchill para o que veio a seguir.

Por falar no primeiro-ministro, as cenas que acontecem sob sua perspectiva são as que comportam valor estético da maior beleza. Dentre elas, a passagem em que Winston (para os mais íntimos) observa as pessoas de dentro de seu carro é grandiosa pela facilidade que a câmera tem em nos fazer entender que estamos vendo pelo seu olhar, sem necessidade de mostrar desde o princípio que é ele mesmo que observa. É deste momento também que fica explicito a grande questão sobre o governar a ser utilizada, quando Churchill comenta sua experiencia zero com atividades cotidianas como pegar o ônibus ou fazer sua própria comida. Não é curioso que continuamos sendo governados por pessoas que não vivenciam as demandas mais básicas do nosso tempo? Que tipo de melhoria há de se esperar de alguém que não entenda as carências de um transporte público, por exemplo, já que nunca esteve ali (e desse ali não podemos contabilizar o evento organizado em que se convoca a imprensa para cobrir o ato como se fosse feito maior que a obrigação, certo senhor prefeito de uma cidade aí chamada São Paulo?).

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Já que estamos no assunto homens com dificuldades em lidar com seus egos, é curioso notar na trama a variedade de senhores que afirmam grande interesse na paz, quando é evidente a busca principal pelo poder a todo custo. Porém também não isenta o questionamento das intenções reais de Churchill quando se recusa inicialmente a aceitar o tratado de paz: sua maior preocupação é de fato restaurar a nação ou o medo de se render tem mais a ver com parecer fraco perante a situação britânica?

Ainda sobre as cenas de imensa significação, Kristin Scott Thomas merece parágrafo único devido incomodo sútil que oferece a personagem da esposa de do primeiro-ministro. Clementine Churchill é o clichê da mulher brilhante por trás do homem importante, que consegue em uma pequena cena subverter a lógica do “sacrifício heroico” de abdicar de sua vida para cuidar do esposo, através de uma simples olhada de espelho em meio a frase que recita com certo pesar: “aqui está uma mulher muito cansada porque viveu num mundo em que era muito necessária”.

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O Destino de uma Nação se agarra até os últimos segundos na menção de filme com relevância singular e qualidade indiscutível, podendo facilmente se encerrar na cena final do discurso, sem a necessidade das letrinhas em fundo preto que nos explicam algo que ou já sabemos, ou parecem querer ocupar um espaço que não existia. Os pequenos dizeres comuns a filmes baseados em fatos-reais, nesse caso retiram uma porção do brilho anterior de mostrar o sacrifício da guerra sem romantismo, muitas vezes mais como um capricho de Churchill, inclusive.

Ainda assim, não há um momento em que o longa deixe a peteca cair, ainda quando a situação com a Alemanha aperta e é de fato preciso aumentar o tom de tensão na narrativa visual. Para isso, inclusive, somos direcionados a cena semelhante ao primeiro olhar de Winston do carro, quando o cotidiano sem desespero leva seu motorista a afirmar que “nem parece guerra”. Neste segundo momento, a chuva cinza, as crianças com máscara de Hitler e a tristeza geral não deixa dúvidas: estamos de frente com o maior conflito armado da história. E é aí que Churchill decide entender o povo que governa, na cena mais próxima da catarse onde abandona o carro e utiliza o metro para ter acesso a opinião pública sobre a situação.

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Colecionando uma série de indicações nas premiações recentes, O Destino de uma Nação venceu o Critics’ Choice Awards e o Globo de Ouro na categoria “Melhor Ator” para Gary Oldman. Curioso citar a segunda premiação mencionada, levando em conta a campanha realizada por inúmeras atrizes, diretoras e escritoras contra o assédio sexual na indústria de Hollywood, protesto denominado “Time’s Up” que foi apresentado oficialmente no palco do Globo de Ouro. Nesta mesma data, as vencedoras fizeram importantes discursos sobre outros malefícios que ainda estão enraizados na sociedade patriarcal, como os salários desiguais e as condições hostis enfrentadas pelas mulheres de todo o mundo.

A nível de curiosidade, logo após a vitória de Oldman na categoria de melhor ator, a Internet nos relembrou a acusação de agressão feita em 2001 pela até então esposa do nosso protagonista, Donya Fiorentino, que ainda é vista como a mulher recalcada e sem credibilidade, uma vez que o grande premiado ator vem negando a denúncia desde então, sabendo que para a sociedade em que nos encontramos, a palavra masculina sempre basta.

Como muito bem manifestou Titi Muller durante a transmissão do Lollapalooza 2017 na emissora Multishow, gostaria de dizer que machistas não passarão desta vez. Mas sabemos que não é o caso. A exemplo dos outros eventos, o ator é o mais cotado para levar a estatueta para casa e aproveitando que os senhores cinéfilos já estão prontos para criticar a “falta de profissionalismo” aqui presente, vamos deixar transparente: Gary Oldman ganhar o Oscar é mais que a entrega de um título, é um posicionamento da academia a respeito da situação. Apesar de uma atuação brilhante, não é como se a categoria estivesse ausente de outros tantos atores dignos do prêmio.

“Ah, mas se começar a tirar esses caras que já tiveram alguma atitude machista como essa, não vai sobrar nenhum”. Sim, acho que podemos lidar com isso.

CONFIRA O TRAILER:

Embora merecesse a indicação que não veio de melhor diretor para Joe Wright, o longa concorre ainda a nomeação mais importante da noite, melhor filme, onde tem chances consistentes de ganhar. Outras indicações vão para melhor fotografia – Bruno Delbonnel, melhor figurino, melhor direção de arte, melhor penteado e maquiagem, sendo estas duas últimas minhas apostas de ganhos merecidos para o filme.


Assinatura Beatriz Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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