OSCAR2018 / Questão de Opinião

THE POST – A GUERRA SECRETA: Jornalismo em tempos de crise

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*Por Beatriz Farias

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O jornal impresso foi pioneiro dentre os meios de comunicação utilizados para transmitir notícias e, ainda que sua importância tenha sido colocada em cheque com o desenvolvimento das tecnologias digitais, segue nas bancas como uma pequena resistência da parcela de gente tradicional e nostálgica que permanece comprando seu exemplar para ler pela manhã enquanto toma seu café. Se o produto (enquanto objeto, papel, sólido) virou – ou está para virar – obsoleto, o conteúdo nunca esteve tão em alta. A propagação da notícia passou do status de apenas informação e assimilação para ganhar os debates metalinguísticos sobre nosso rápido acesso a ela, a democracia do conhecimento e sua ausência, a “Fake News”, a inconsistência dos fatos. Nunca se teve tanta liberdade para buscar uma notícia. Ao mesmo tempo, continuamos sem liberdade e continuamos atento a cada brecha, porque geralmente a notícia que não está impressa, nos telejornais ou na tela do computador é exatamente aquela que nos tiraria da inércia ou caos generalizado.

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O conceito de liberdade de imprensa e de expressão sãos importantes para entender a relevância do filme abordado. Liberdade de imprensa é esta que pode ser definida pelo direito de publicação e informação no formato noticia, tendo como veículo os meios de comunicação. Essa mesma que parece piada em tempos de Trump atacando continuamente a mídia. Já a liberdade de expressão é caracterizada pelo direito de livre manifestações de opiniões aos indivíduos e grupos ao qual pertencem. Liberdade esta que parece outra piada em tempos de Temer pedindo gentilmente que uma escola de samba amenize a crítica que fez ao seu governo. Em tempos onde o jornalismo que é levado a sério acontece no horário nobre da Rede Globo, este mesmo grupo que demorou quase 50 anos para reconhecer publicamente que errou ao apoiar o golpe militar de 1964. Tudo isso, enquanto liberdade de imprensa caminha na corda bamba do jogo de revelar ou não, enquanto o jornalismo já foi definido como “aquilo que alguém não quer que se publique” (William Randolph Hearst).

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The Post – A Guerra Secreta (The Post, 2017) narra exatamente um momento histórico real onde a imprensa decide trazer à tona essa tal brecha mencionada no primeiro parágrafo. Para isso, é necessário voltar ao início dos anos 1970, onde o impresso era suprassumo da informação consistente e um jornal local de Washington decidiu assumir uma posição e lidar com a responsabilidade que o título de jornalista submete, sendo esta a de tornar fatos complexos compreensíveis ao mesmo tempo em que leva informação ao leitor.

Com direção de Steven Spielberg e roteiro de Liz Hannah e Josh Singer (não é curioso que este segundo nome seja responsável pelo texto de outro filme jornalístico, “Spotlight”, que por acaso ganhou o Oscar de 2016, dentre outros inúmeros prêmios?), The Post conta a história do The Washington Post, jornal sob o comando de Katharine Graham (Meryl Streep) e seu editor-chefe Ben Bradle (Tom Hank), que estão a ponto de lançar ações na Bolsa de Nova York a fim de buscar estímulo financeiro, quando tem acesso aos Pentagon Papers, documentos secretos que expunham fatos expressivos sobre a participação dos  Estados Unidos na Guerra do Vietnã.

A sinopse acima pode ser quebrada entre a ambientação e contexto do filme e a descoberta dos Pentagon Papers, que inverte o compasso lento e o estado de inércia em que o longa se encontrava para somar curiosidade ao que já deveria se contabilizar em, no mínimo, meia hora de trama que poderia ter sido apresentada em dez minutos e que simplesmente não engatava.

Ainda assim, quando resolve engatar, The Post  tem ritmo. Além de prender a atenção pelo entusiasmo em acompanhar como o desfecho do caso será solucionado no roteiro, o título do filme aumenta a expectativa por ser preciso na reflexão que provoca. Ao mesmo tempo em que reflete a Guerra do Vietnã que perdurou até abril de 1975 e é tema dos documentos encontrados, carrega em si o próprio embate entre imprensa e Casa Branca e o jogo de interesses que ali se instala desde os primórdios.

E já que estamos falando de travar batalhas em ambientes ameaçadores, o filme tem como um de seus pontos altos o modo com que aborda a dificuldade de uma mulher poderosa ao lidar com homens de todos os lados dizendo como a mesma deveria prosseguir. Um exemplo claro da hostilidade presente no meio em que se encontra pode ser notado ao analisar que mesmo sendo filha do dono do jornal, Katharine Graham só foi assumir a posição de chefe após a morte de seu marido.

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Ainda sobre a maneira como trata o machismo intenso nos papeis designados para aquela sociedade, uma das cenas mais significativas sobre o assunto acontece no diálogo entre Antoinette “Tony” Pinchot Bradle (Sarah Paulson) –  até então esposa de Ben Bradlee – e o esposo. Na passagem, ela subverte o tipo de discurso que estamos acostumadas a acompanhar em filmes que retratam fatos históricos (e até mesmo o presente), para mostrar sua admiração por uma mulher que teve que ir contra seus parceiros de trabalho e o lugar a qual foi patriarcalmente submetida, batendo o martelo no que viria a ser um dos momentos cruciais para a história do jornalismo.

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A estética de The Post não assegura nenhum espetáculo à parte, tirando os frames que demonstram o processo de produção do jornal desde o começo de sua montagem até chegar na banca, clichê visual que sempre funciona pela beleza quase idealista que carrega e por se tratar de um jeito descontraído de narrar um método longo em pouco tempo.

Outro quesito onde o êxito não vem como esperado é na graça que tentam obter em algumas cenas a fim de proporcionar leveza ao constante clima de tensão. O modo forçado com que soa faz questionar se não seria melhor manter como foco a todo instante a inquietação de aventura presente nos jornalistas enquanto tentam montar o quebra-cabeça de informações contidas nos documentos, que por si só já prendia com melhor resultado a curiosidade e causava sozinha certa diversão ao movimento.

Mas para não dizer que eu não falei das flores, vale mencionar a atuação de Tom Hanks como um dos pontos bem-sucedidos da trama no sentido “dar graça”. Não é que seu papel tenha como intuito o feito, mas a maneira com que o personagem é construído e apresentado dá espaço para uma reflexão mais profunda sobre a multiplicidade de facetas de Ben Bradlee. Sem deixar de lado as problemáticas de um homem poderoso, tal como a arrogância do editor e o ego de querer ser a voz que trouxe o caso a tona, o ator tem jogo de cintura para ir além dos estereótipos do jornalista idealista e nos apresenta com naturalidade o filme dentro dessa visão bilateral.

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Dentre os trunfos do longa, o principal acerto diz respeito a sutileza em apresentar as condições da notícia da época sem necessariamente criticar diretamente a situação, como os pequenos frames onde apresentam as informações que eram produzidas para as mulheres no período e a demanda de mudança que surgia, ainda dentro de um jornal composto majoritariamente por homens. E aqui é válido citar Meg Greenfield (Carrie Coon), uma das jornalistas presentes na organização da notícia dos Pentagon Papers e que sem que precise ser mestra na arte de adivinhar ou de interpretação da trama, penou o dobro para estar ali.

Como que para contrabalancear um começo pouco consistente, o final de The Post é sugestivamente certeiro. Antes mesmo da última cena o desfecho já atingia o ápice da trama com a cena da audiência em que se encontravam representantes de inúmeros jornais. Enquanto a imprensa ignora Katharine Graham para procurar os jornalistas do The New York Times (salientando: Graham é a responsável por bater o martelo na publicação dos documentos), uma quantidade considerável de mulheres de diferentes idades se aglomera para cumprimentar a moça.

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Eleito como o melhor filme de 2017 pela National Board of Review, grupo de acadêmicos, cineastas e profissionais que acontece em Nova York, The Post recebeu grande número de indicações em premiações mais populares, como por exemplo o Globo de Ouro (melhor filme dramático, melhor atriz em filme dramático para Meryl Streep, melhor ator em filme dramático para Tom Hanks e melhor diretor para Steven Spielberg), sem chegar a ganhar de fato nenhuma das categorias. Já em suas indicações ao Oscar (melhor filme e melhor atriz para Meryl Streep, a opinião pessoal (ou seria melhor dizer previsão?) é que não seja muito diferente do resultado obtido no Globo de Ouro.

Para o principal prêmio do Oscar, The Post não aparece entre os favoritos dentre as apostas da Internet ou desta que vos fala, tendo em vista a fartura de outros indicados que merecem a nomeação. A categoria de melhor atriz é um fator a se pensar, tendo em vista a marca de 21 indicações no evento já alcançadas por Meryl Streep, das quais venceu 3 delas. Embora a atriz sempre leve para a telona uma interpretação potente e admirável, no longa atual sua atuação é importante, mas não faz milagres.

CONFIRA O TRAILER:

Embora não possa ser analisado como o filme do ano, The Post – A Guerra Secreta se posiciona como um trabalho significativo para além do valor cinematográfico. É um lembrete do tempo em que estamos e toda resistência conservadora que precisamos ultrapassar para que essa tal liberdade de imprensa seja alcançada, bem como o próprio longa deixa explicito: “a imprensa deve servir os governados, não os governantes”.


Assinatura Beatriz

 Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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