OSCAR2018 / Questão de Opinião

TRAMA FANTASMA: Pretensioso, preguiçoso e perturbador

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*Por Meiri Farias

*********************SPOILER ALERT*********************

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O artista torturado gênio, admirável e irresistível que não permite aproximação, até que repentinamente, quando se isola em uma cidade do interior, conhece adorável e jovem garçonete levemente atrapalhada e fica completamente encantado. Ela, é claro, corresponde a sua afeição e decide que será quem irá salvá-lo de seus demônios internos. Com amor, é claro.

Esse poderia ser um resumo digno de comédia romântica de classificação livre, mas é o enredo básico da Trama Fantasma (Phantom Thread, 2018), um dos indicados a melhor filme do Oscar 2018. A diferença eventual entre o longa de Paul Thomas Anderson que vem sendo aclamado pela crítica e uma comédia banal é que a comédia, geralmente carrega um elemento que aparentemente foi absolutamente indispensável em Trama Fantasma: paixão. E às vezes um pouco de bom senso e coerência também.

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Trama Fantasma pode ser facilmente resumido no título desse texto: pretensioso, preguiçoso e perturbador. Como objetivo de contar a história de (aspas aspas aspas) “amor” entre Reynolds Woodcock e sua “musa” Alma (sobre a escolha lastimável desse termo, discutiremos depois) é na verdade um tributo ao ego masculino. Vamos ao contexto: estilista da alta sociedade, vestindo as mulheres mais belas e encantadoras de Londres na década de 1950, o personagem é obsessivo e extremamente metódico e vive na companhia da irmã Cyril (a única personagem que parece ter um pouco de personalidade interessante sobre a superfície, mas que jamais vem à tona).

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A vocação de Reynolds é explicada em um daqueles irritantes monólogos acompanhados, supostamente uma conversa com Alma. O estilista fala sobre a mãe, sua grande inspiração para tudo que faz e incentivadora. Resumo da obra: o homem que já passou da idade de brincar de Peter Pan, com o complexo de Édipo não resolvido. A estranhíssima relação com a mãe não é realmente explicada. Por que a mulher é tão fascinante e importante? Não parece relevante detalhar. Porém o plot acaba por gerar uma cena muito muito perturbadora, onde Reynolds visualiza e conversa com a mãe supostamente morta, com um vestido de noiva. A mulher o observa e nada diz.

Esse é o Reynolds e foi preciso gastar tanto espaço para descrever o personagem apático interpretado por Daniel Day-Lewis, porque exatamente isso que o filme faz o tempo inteiro, descrever e descrever e descrever os hábitos de uma pessoa absolutamente vazia. Levando em conta toda obsessão em torno do conceito de “gênio”, era de se esperar que ao menos um traço positivo da personalidade se destacasse, mas não, Reynolds não tem substância alguma.

Mas e quem é a Alma (Vicky Krieps), quem é a mulher em primeiro plano os cartazes de divulgação do longa? a mulher que inicia o filme contando a sua história de “amor”. Na verdade não sabemos. Veja bem, não por um artífice intencional para gerar uma aura de mistério, muito pelo contrário. A suposta musa é uma mulher simples e sem passado. O que sabemos de sua história, se é que pode-se dizer que existe uma história, é que ela era garçonete antes de conhecer Reynolds e larga tudo para viver com ele. Não há nada mais sobre sua vida pregressa, a mulher se torna um manequim para o estilista brincar.trama-fantasma-filme-01

A escolha da palavra musa, beira ao patético. Alma não é inspiração para Reynolds, não é admirada por ele.  Não passa de um cabide para usar suas criações, não existe paixão no relacionamento. Embora alguns momentos pareça sugerir que Reynolds sente algo por algo pela moça, é ela que desenvolve uma obsessão bizarra pelo estilista, ignorando o quão maltrata e humilhada é. Quando pensamos que o filme terá uma virada e Alma finalmente assumirá as rédeas de sua vida, se vingando do homem que só demonstra desprezo ou indiferença por ela, o filme se utiliza de estratagema que beira a desonestidades. A garota passa a envenenar o estilista, para que ele se torne cada vez mais dependente de seus cuidados. Sim, o único traço de personalidade que o filme foi capaz de conferir a Alma foi uma insanidade “apaixonada”.

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Além de tudo isso, supostamente, ser vestido pela casa Woodcock é uma honraria da qual somente as merecedoras podem usufruir. Em uma das cenas mais absurdas, Reynolds e Alma exigem a devolução de um dos vestidos usados por uma cliente rica, uma mulher gorda, beberrona e caricata. A situação da mulher é triste e penalizante, mas a câmera decide com quem está a razão e a dupla dinâmica sai de modo exultante da cena. Gordofóbico e de extremo mal gosto. Some isso a sugestão de racismo, machismo em todos os atos e cenas arrastadas ao som de piano. Temos uma obra perfeita para o Oscar.

CONFIRA O TRAILER:


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