OSCAR2018 / Questão de Opinião

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME, três personagens de uma cidade peculiar

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*Por Meiri Farias

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Uma mulher é estuprada e morta, a polícia racista é ineficiente, a igreja é omissa. Quantos crimes nos últimos cinco anos poderiam ser noticiados dessa forma? Não, esse não poderia ser o lead, está faltando uma peça, é claro: imprensa oportunista. Três Anúncios para um Crime”, com sete indicações para o Oscar 2018, apresenta todos esses elementos em quase duas horas de um dos filmes mais interessantes da temporada.

Três Anúncios para um Crime (Three Billboards Outside Ebbing, Missouri, 2018) é surpreendente ao unir uma situação dramática a um tom absolutamente cômico. A premissa é brutal: Mildred Hayes é uma mulher que precisa lidar com a morte da filha Angela, a vítima do crime que abre o texto, que teve o corpo queimado enquanto era violentada sexualmente. É impossível achar algo engraçado com essa premissa, parece improvável tirar humor dessa temática, mas quando o diretor Martin McDonagh escolhe de quem vamos rir, o tom é definido.

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Mildred (Frances McDormand) não é apenas uma mãe enlutada, não é a tristeza que define a personagem e sim a indignação frente a inercia da polícia, que nada descobre sobre o autor do crime. Seus primeiros embates com os policiais começam a delimitar as principais características dos “representantes da ordem” local. Acomodados, racistas e incompetentes, os policiais são caricatos. Durante o filme conhecemos mais profundamente o delegado Wolloughby e o policial Dixon, personagens que completam junto a Mildred as peças que definem a história: sem respostas, a mãe de Angela resolve alugar três outdoors com uma mensagem que cobra satisfação do delegado.

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O filme acontece em torno dos outdoors e da relação das pessoas com esse fato inusitado. Cidade pequena e devota da polícia, a maioria das pessoas se mostram indignadas com a atitude de Mildred. Ironicamente a revolta com a publicidade negativa em relação a polícia é bem maior do que com um crime hediondo. Aparentemente a reputação da polícia vale sempre mais que a vida da mulher.  O tratamento direcionado a Mildred vai sempre por esse caminho. Divorciada e com histórico de violência doméstica, é inclusive desacreditada e as sugestões de que as agressões que recebeu não seriam verdade é mais uma das humilhações a que a mulher é sujeita.

Esse tom poderia pautar uma obra poética, com uma heroína sofredora e triunfante. Mas não é o caso de Mildred. A mulher é ácida, irônica e rebate as críticas sem titubear. Em uma das cenas mais memoráveis, Mildred recebe a visita do padre local, que vem advogar em favor dos policiais e critica o comportamento dela. Ela não deixa por menos e expõe a omissão dos clérigos diante do comportamento cruel ou criminoso das outras pessoas. Mildred é clara, quem se omite em algo que “sua gangue” fez, é tão culpado quanto.

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A acidez da protagonista rende muitas risadas, apesar do luto constante que paira no ar. Além da morte de Angela, outra história com desfecho trágico prende a atenção e aumenta a gama de interpretações e subjetividade do filme.  A segunda peça do quebra cabeça, o delegado Wolloughby (Woody Harrelson), que a princípio parece somente um policial omisso, acaba por ser um homem doente e torturado pela morte iminente, mas gentil e atencioso. Mesmo com Mildred. A breve passagem por seu drama familiar e o câncer que o atormenta, funciona como um capítulo à parte do filme. Depois de um dia afetuoso com a filhas e a esposa, o delegado tranquilamente atenta contra a própria vida. Com um saco na cabeça onde se lê uma mensagem para que a esposa chame a polícia sem ver o estado em que ele ficará, Wolloughby atira contra a própria cabeça.

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Pesado? Sim, não é uma cena fácil de digerir. E ainda assim, o filme mantem o clima que pende tanto para comédia, como para o drama. O que nos leva a terceira e mais controversa peça: Dixon (Sam Rockwell). Sim, o policial “mala” que parece vir diretamente de um episódio de Os Simpsons é uma das peças chave da história. Caricato, racista, agressivo e ao mesmo tempo um “filhinho da mamãe”, é o personagem da qual nossa predileção passa longe, não? E ainda assim, por algum motivo, o delegado acredita que exista algo de bom nele. Quando perde os privilégios, o emprego e a motivação depois da morte do superior, o policial precisa decidir que tipo de homem e profissional ele quer ser. Longe de se tornar um herói (definitivamente nada heroico), Dixon se torna um personagem muito interessante no último terço do filme. Ao que parece, a ruína lhe cai bem e o esforço para se reerguer pode ser a chave do desfecho.

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O fim de Três Anúncios para um Crime é aberto e sugestivo. Dixon descobre um suspeito, que acaba se provando inocente em relação ao crime principal, mas culpado de uma agressão similar. A reunião improvável de Mildred e Dixon sugerem um misto de vingança e justiça, onde o alvo é menos importante que o propósito. Não sabe lidar com a curiosidade? Então o fim pode ser frustrante, já que não sabemos se a dupla vai realmente caçar o criminoso. Eles estão a caminho, mas ainda não decidiram. Sem respostas, o filme é muito eficiente em despertar uma infinidade de perguntas e aponta como um concorrente fortíssimo para o prêmio de melhor filme, com grandes possibilidades de levar a estatueta de melhor atriz.

CONFIRA O TRAILER:


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One thought on “TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME, três personagens de uma cidade peculiar

  1. Amei muito a história tambem o elenco é incrível. Os filmes dramáticos sempre lidam com problemas reais, podem ser duros e cruéis, mas não devem ser escondidos. Recentemente vi um filme que me deixou chocado, a história é muito boa e acima de tudo faz o espectador refletir, O conto é um filme que vale muito a pena ver, o tema é interessante. É umo dos excelentes filmes de dramas para assistir. Un filme que debe assistir, você não vai se arrepender.

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