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LADY BIRD: Crescer é agridoce

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*Por Meiri Farias, com e para Beatriz Farias

*********************SPOILER ALERT*********************

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Lady Bird: A Hora de Voar (2018) é exatamente o filme que imaginávamos. O filme que precisávamos.

Primeiro longa dirigido pela atriz Greta Gerwig, Lady Bird é uma história sobre normalidade, cotidiano e como a vida pode ser estranha e maravilhosa quando se está crescendo. A personagem título, interpretada pela sempre mágica Saoirse Ronan, é uma garota absolutamente normal. Mas aquele normal meio esquisito que todo mundo é no finzinho da adolescência, aquele normal meio em busca do anormal como afirmação e identidade.

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Christine “Lady Bird” McPherson escolheu o seu nome, alcunha pela qual exige seja chamada, inclusive pelos familiares (que acatam, as veze com naturalidade, às vezes a contragosto). É uma garota de ideia fortes, personalidade em formação, mas muito convicção. Uma adolescente que gosta um bocado de si mesma, embora as vezes tenha dúvida. Moderninha do cabelo cor de rosa ainda no início dos anos 2000 (muito ousada para “época”, não?), mas que não quer abrir mão do baile tradicional e vestido bonito. Lady Bird carrega características tão contraditórias entre si que quase parece, não sei, humana.

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Não estamos acostumadas a ver garotas normais na tela do cinema. Somos a geração que cresceu com Meninas Malvadas, mas entende que esse tipo de enredo não cabe mais em novas produções. O que funciona agora é mostrar que a escola se divide menos entre o “nerd”, a “popular”, e finalmente em uma mistura de todas essas possibilidades menos ancorada nesses estereótipos que sim, existem na vida real, mas de uma forma sem glamour ou idealização. Em Lady Bird, o cara esquisitão descolado nem é tão legal assim. O outro, SPOILER, no fim era gay. E um bom amigo.

Os relacionamentos são detalhados no enredo sem monopolizar o tempo. Existe tempo para decepções e lágrima, mas o que importa para Lady Bird é continuar com a esperança sobre a vida e sobre quem ela é. O roteiro genial e tão bem costurado que consegue explicar os sentimentos da personagem sem perder tempo demasiado. O ritual de escrever o nome do garoto de interesse na parede, depois riscar e substituir o “crush” rende uma cena divertida, que no fim resulta em uma das catarses mais doces que já assisti no cinema: ao mudar seu rumo e sair para descobrir o mundo, Lady Bird deixa de riscar nomes de garotos e passa a tinta na parede. Ninguém encontra o “amor da vida” nesse filme (embora ela acredite alguma vezes que está chegando lá). E tudo bem.

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Há coisas mais importantes e a amizade certamente é uma delas. Julie, a melhor amiga é hilária. A conexão entre a duas é permeada pela cumplicidade e, mesmo quando brigadas, reencontram o caminho da outra. Que raro, não? Um filme sobre a adolescência onde a importância da amizade entre meninas é exaltada e não o contrário. É colocado, inclusive, acima da relação com os garotos. O que rende uma cena absolutamente adorável quando as duas decidem ir ao baile juntas.

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Mas talvez o ponto mais importante da história seja o núcleo familiar de Lady Bird. Se trata de uma família pobre, é notável. Mas não é um filme sobre pobreza, não há glamourização ou miséria. Há um pai doce e gentil desempregado, o irmão e a cunhada com formação excelente, não conseguem emprego na área em que estudaram. E a mãe, segunda personagem mais importante da história, que é quem põe o pão na mesa e coloca a família sonhadora nos trilhos da realidade. Vivendo em uma família pobre, onde a situação financeira sempre é um fator determinante, é impossível não sentir uma identificação agridoce. Ainda assim, mesmo que falta de dinheiro seja condutora de muitas tramas no enredo, não é o drama que move a história.

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Os melhores momentos do longa acontecem da relação entre mãe e filha. Das mais descontraídas, como quando Lady Bird sai do carro em movimento depois de uma discussão banal, passando por aquelas que dão um apertinho no coração como quando ela questiona a mãe dela sobre a diferença entre amá-la e gostar da pessoa que ela é, até chegar nas cenas de arrancar lágrimas reais e dolorosas como quando tenta inutilmente fazer com que sua mãe volte a falar com ela depois de um conflito. A relação com a mãe é difícil, nem sempre existe um esforço de ambas as partes para derrubar os muros. Mas se trata de um desejo tão genuíno pela felicidade (uma da outra), que algum momento é possível construir uma porta.

3

Atualmente é difícil definir quais filmes vão marcar uma geração, talvez impossível. É fácil imaginar que se fosse nos anos 1980 ou 1990, Lady Bird se tornasse um daqueles clássicos que a gente guarda com carinho e cita com um afeto e nostalgia para se definir. Ao mesmo tempo, trazendo um olhar tão contemporâneo, talvez esse filme seja muito desse resgate para falar dessa geração, onde os adolescentes se importam e estão preocupados com o que querem ser, mas que não querem perder esse miolo que é a vida acontecendo.

No fim, o último elemento que vale destacar é a relação da garota com o lugar, sua relação ambígua com Sacramento (cidade da Califórnia). Quando uma das freiras de sua escola comenta que ela deve amar muito a cidade para descreve-la tão bem em suas redações, Lady Bird afirma que ela só presta atenção. A irmãzinha muito sábia rebate, “mas não é a mesma coisa?”.

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Esse reconhecimento do seu lugar como lugar de afeto é fundamental para o desfecho do filme, que desperta aquele alívio e até uma lágrima ou outra de respeito, por não subestimar nossa inteligência. Lady Bird entende seu amor por seu lugar (a cidade, a família), quando já está longe, buscando os seus sonhos. Em uma ligação para casa, o agradecimento para a mãe, a aceitação do nome que recebeu dos pais. Obrigada Christine, você vai ficar bem. Nós também.

CONFIRA O TRAILER:

*Você também Bia, é hora de voar. Esse texto é para você.


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