Questão de Opinião

As “Casas” de Rubel: Criando um espaço para a reconstrução

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*Por Beatriz Farias

1. Casas.

“O móvel que separa o estar do jantar comporta lareira, bar, rádio-vitrola e biblioteca. a lareira abre para ambos os lados. Móveis executados por “Ambiente”*

1a. Uma casa é um edifício para habitar;

1b. Conjunto de paredes construídas pelo ser humano cuja função é constituir um espaço de moradia para um indivíduo ou conjunto de indivíduos, de tal forma que eles estejam protegidos dos fenômenos naturais exteriores;

1c. Local onde se vive; domicílio, morada;
1d. 1mai2018---foto-de-arquivo-mostra-o-predio-que-desabou-apos-pegar-fogo-no-centro-de-sp-o-imovel-tinha-24-andares-e-abrigava-cerca-de-150-familias-nos-primeiros-dez-andares-a-imagem-foi-p

Espaço ocupado por uma reunião de pessoas que não contam com um dos direitos mais básicos previstos na constituição e que ameaça vir abaixo deixando em média 150 famílias desamparadas.

 

1e. Conjunto dos membros de uma família;

1f. Cada uma das divisões da tabuada;

1g. Conjunto de pessoas que estão adstritas ao serviço particular de um chefe de Estado;

1h. Lar.

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*Capa de “Casas”, projeto gráfico de Pedro Zylbersztajn.

2. Logo que minha família e eu mudamos para a casa que atualmente moramos em São Paulo, minha mãe, em razão de sua fé, decidiu anotar um lembrete na janela para deus. O que ela não percebeu foi a confusão causada – talvez pelo seu subconsciente – que a levou escrever “abençoa o nosso lá”, ao invés de abençoa o nosso “lar”.

E aqui vale explicação simplificada: migrante entre o nordeste e sudeste do país, o pai e a mãe da minha árvore genealógica mais próxima cresceram com a necessidade de mirar no futuro para garantir sobrevivência mínima. Acredito que lar é o mais próximo do aqui que mamãe já teve, por isso tão grande dificuldade em encerrar o “Lá”.

Nesses últimos meses ando meio sem endereço fixo, viajando entre uma cidade e outra porque casa é uma palavra que pesa. Desse modo, vale informar que ouvia seu novo trabalho Rubel, em um dia que fazia viagem que me afastava da minha cidade natal. Foi aquela cena clichê da chuva caindo do lado de fora da janela e tudo parecer tão bonito na mesma dimensão que óbvio, que parei no seu disco para andar em um ritmo diferente. Não por comodismo, mas pela nova certeza que a voz de fazer tudo ficar bem avistava: se eu vou passar e você também, não tem outro jeito de permanência se não passando pra passar. E assim fui.

2,5. Ainda que sabendo que a maior parte das coisas que são feitas no mundo artístico são cartas de amor ou ódio ou resistência ou tudo isso junto, queria manifestar e confirmar que esse texto, em específico, é uma carta de amor. E peço perdão que dentro disso caiba a mim a emoção espalhafatosa e senso de humor desafinado, a gente sabe que todas as cartas de amor são um pouco ridículas. (Obrigada Pessoa)

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Esse texto é um bilhete de amor descarado ao trabalho de Rubel.

Esse texto já nem existe mais no plano jornalístico da questão. Ele só volta a tona por um acaso porque ontem comentei entre um petit gateau e outro que estava escrevendo uma carta para o Rubel. “O Rubel artista?”. Ele mesmo. Aí o texto voltou, Rubel, me desculpa, você já deve ter ouvido tanta coisa a respeito do seu disco novo, mas devo alertar que esse em especial é um bilhete de amor ao seu trabalho, desses que poderia anotar em um guardanapo fajuto de bar e pedi para o garçom te entregar.

Gosto de pensar que o primeiro disco lançado pelo artista carioca é sobre uma casa, a já conhecida de nome Pearl. A informação aqui que vale comentário é que nesse segundo trabalho o nome da casa é o próprio nome. “Criando espaço para a reconstrução”, agora a gente tá entrando para além de uma porta para conhecer a mobília e os cômodos. Agora parece que a gente é um pouco mais de concreto e tijolos também. A gente pode ser sofá e cama na mesma medida que a gente é a tinta escorrendo e a parede com umas rachaduras que o tempo foi construindo pela desconstrução.

Eu li em algum lugar que você disse estar fazendo exatamente o disco que queria. Olha Rubel, com toda a ousadia de quem não te conhece, posso falar que esse disco passa longe de ser o disco que eu queria. No caso, “Casas” vem a ser o disco que eu precisava. Que finalmente me fez abrir a mala e começar a ter coragem de retirar a bagagem. E lá vamos nós.

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3. Conheci sua música lá em 2013, estava em uma lista das mais bonitas do ano. A “Quando bate aquela saudade”, que hoje integra meio que a lista das músicas mais bonitas do mundo de todo mundo, que bonito.

Tão grande em mim era aquilo, nem quis saber quem era você ou qualquer que fosse outra música sua. Queria que aquilo que era tão imenso continuasse existindo ali pelo tempo que fosse necessário. Foi lá para abril do próximo ano que por alguma razão deixei “Mascarados” tocar e depois disso todo o ser ou não ser de Hamlet pareceu infinitamente menor. Quando ouvi “Quadro Verde” eu já tinha me misturado tanto com esse trabalho que não sabia mais quais cores eram de quem, mas achei legal perceber que se anteriormente citava “o verde do mato e o branco do concreto”, na paisagem agora cabe o amarelo como a cor mais certa (“Pinguim”) e todos os outros tons que ainda estão por vir.

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Por falar em outros tons, “Casas” tem umas participações que me fizeram vibrar a vida Rubel, como quando o Emicida entrou em “Mantra” ou o Rincon Sapiência em “Chiste”, ou ainda os coros que chegam a ser graciosos de tão leves e potentes. Na entrevista para o Monkeybuzz você comenta disso que estava lendo a respeito da nossa capacidade de contar histórias ser o que nos torna humanos e nada parece desembocar tão bem quanto a definição para a situação de partilha aqui criada. “Casas” é uma celebração do começo ao fim de como se dá os encontros e o jeito de falar com uma simplicidade linda do que fica de quando a conversa vale a pena. Rimar as coisas simples é tão sábio.

Já que falei de rima, queria também mencionar a ausência de palavras que passa longe da inexistência de coisas a serem ditas. Os momentos de música sem letra são tão importantes quanto os outros. Talvez pela rica junção de instrumentos (que caminham entre luxuosos arranjos de cordas, metais, sampler e programações, dentre outros) que parecem andar na corda bamba das experimentações com conversas engajadas a respeito da certeza de que o que vale na música é estar criando.

Ouça “Casas”:

4. Ainda que entendendo a necessidade, usualmente me incomodo com a necessidade de catalogar a nossa música entre música popular brasileira e sertanejo e rap e funk como se não houvesse inserções. Ainda na mesma entrevista para o Monkeybuzz, vi que existe essa vontade de pertencimento a esse lugar Brasil. Achei corajoso. Achei um alívio também porque depois de muitas páginas não sabia definitivamente como definir musicalmente um disco que consegue tão bem misturar aquele folk que a gente já conhecia com uns batuques brilhantes e a influência do hip hop na importância que dá para o poema da canção. Acho que é um disco brasileiro e acho que é novo. Acho ainda que ser novo no nosso país é uma contradição no próprio termo, mas tudo bem.

Outro ponto de crise quando falo de algum produto artístico é o momento de síntese afetiva do que aquilo representa. Em meu primeiro esboço mencionei que “casas” se trata de um disco para que está se jogando de cabeça nas coisas. Gente que é muito coração, mas sabe que ainda assim e talvez por isso, lidar com leveza talvez seja o único remédio para não deixar de continuar. Mas isso eu escrevi em março. Já em abril voltei para relatar a certeza da música como espaço sagrado em que eu volto quando não sei mais para onde ir.

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Nesse começo de maio, quando a gente começa a desacreditar na maioria das coisas, a única crença passível é a de que a gente não precisa de nada, nada. E ao invés de erguer as mãos aos céus para agradecer, vale apenas sugeri-la ao mais próximo parceiro de dança e começar a ocupar essa pista vazia que são as ruas do nosso país.

5. Olha Rubel, esse texto vem nascendo em mim desde março, mais ou menos, com a certeza humana e boboca de que crescer dá um puta trabalho na gente. Por essa razão, esses dias ouvi aquela “Passagem” em que você colocou trechos do seu curta-documentário de mesmo título e eu chorei. A gente enquanto jovem quer fazer alguma coisa que faça a gente feliz e que faça o mundo de alguém um pouquinho melhor né? Eu gosto desse ideal de sucesso que um dos adolescentes falam, me emociona. Foi assim que aceitei encerrar agora pela consciência de que não estará pronto em algum momento. Não apenas por ter músicas como “Explodir” (que ainda foge da minha capacidade intelectual de elaborar um comentário já que é sempre sobre a moleza no corpo que dá e a necessidade de parar o que eu tô fazendo). Eu gosto de respeitar algumas músicas desse disco com silencio e adoração. Mas eu queria dizer escrever ainda por uma outra que você diz “vai honrar a força que te faz cantar”. Se a música ainda faz a gente chorar de solução e sambar mesmo sem saber o ato, então acredito que é esse o caminho Rubel, e se não for, que mais bonito ainda é esse que você tá inventando.

Ainda não entendi qual das definições do começo do texto que mais me agradam enquanto casa. Talvez o “nosso lá” da minha mãe seja o único tipo de espaço que eu saiba morar. Mas que bom que você acrescentou um “s” final na palavra e a gente perceba aí que entre os corpos cabe mais que o cimento, as telhas e o concreto, que enquanto material ou matéria do que é real nunca bastou, porque a gente inventa nossa vida e é fácil ser feliz.

Um abraço,

Beatriz


Assinatura Beatriz

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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