Questão de Opinião

Perotá Chingó: Sesc Pompeia – 04/08/2018

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*Por Meiri Farias e Beatriz Farias

A turnê brasileira do grupo Perotá Chingó, que passou por Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio de Janeiro, chegou a São Paulo para duas apresentações no Sesc Pompeia no último final de semana (4 e 5 de agosto). Com ingressos esgotados em menos de 15 minutos pelo site da rede Sesc, a procura por entradas movimentou o Facebook durante toda a semana. Até o início da noite de sábado, mensagens de “compro ingressos”, “pago R$100 por ingresso” lotavam a timeline do evento criado na mídia social. Parece surpreendente que uma apresentação com preços tão acessíveis pudesse gerar esse nível de comoção, mas a pequena multidão que lotou a Comedoria do Sesc Pompeia (antiga Choperia) em uma noite de inverno intenso comprovou a popularidade do grupo na terra da garoa.

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Foto: Página do Sesc – Marcel Verrumo e Mari Carvalho

Formado por duas argentinas no vocal, Dolores Aguirre e Julia Ortiz, um brasileiro na percussão, Martin Dacosta e um uruguaio na guitarra, Diego Cotelo, o Perotá Chingó aqueceu o Pompeia com uma mistura de referencias tradicionais e contemporâneas. O grupo que surgiu da amizade das vocalistas e teve sua formação definitiva a partir de 2011, se define como “música de viajante” e tem um vasto histórico de turnês pela América Latina.

Abrindo com a canção que sintetiza a temática do disco mais recente, Aguacero, Perotá mostrou a que veio logo nos primeiros segundos com os vocais poderosos de Dolores e Julia. O clima era dançante e o entusiasmo das duas vocalistas encantador. O esforçado “portunhol” dava graça sincera e ainda mais especial a apresentação, fazendo notável a vontade de se comunicar com as pessoas que ali se encontravam, muito para além da fala. As canções iam despertando um poder de reunir, agregar, tão intenso que algo no centro do espaço parecia se mover cada vez que uma nova música começava. Concreto e contagiante, talvez a isso chamem energia ou vibração. Ainda no início do show, o Perotá recebeu uma participação especial: o multiartista André Abujamra subiu ao palco para acompanhar a banda em algumas cancões, entre elas, “Alma não tem cor”, da qual é compositor e que foi gravada no disco anterior do Perotá.

Respeito é um termo delicado de discutir. Não estamos interessadas em abordar nenhum respeito higienizador, nada que requeira “se dar ao respeito”. Mas o modo com que o grupo se comporta no palco tem a ver com o melhor do respeito. Isto de se conhecer. Isto de confiar. Mesmo que a banda poderosa que acompanha as duas argentinas seja personagem central no encantamento melódico provocado pelo Perotá Chingó, os diversos momentos a capella criam uma atmosfera que é impossível não mencionar. Vale destacar o momento da canção “Reverdecer”, que é entoada quase como um ritual. Nesse ponto, somos tomadas pela impressão de que aquelas duas mulheres que dividem microfones são parte de um voo só. Isso porque o movimentar do corpo de cada uma parece plenamente pronto para receber a voz da outra. E dentre a oração profunda demais para ser sagrada e primeira do mundo demais para ser profana, a percepcão vem chegando com a simplicidade entre olhar de plateia para palco: esse pequeno instante é estar vivo.

Foto: Página do Sesc – Marcel Verrumo e Mari Carvalho

Ainda assim, não dá para tratar o show apenas pela abstração, pelas sensações. Embora seja de toda importância o que acontece pela mística, os sons da terra, da água e dos bichos é indissociável da música, como um posicionamento no mundo. A banda que junta argentinas, brasileiro e uruguaio tocando em São Paulo fala tanto sobre nossa América que impressiona quando uma das música mais aclamadas do show, “Inés”, apresenta em sua ultima estrofe: “son las once y once minutos y estamos donde tenemos que estar”*.

A essa altura, Julia e Dolores já estavam com suas bandeiras verdes empunhadas. O movimento recente, que ganhou muita visibilidade na Argentina, favorável a legalização do aborto é mais um dos traços que nos aproximo dos vizinhos do sul. Vale mencionar que esta semana o Supremo Tribunal Federal recebe audiência pública sobre a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Enquanto mulheres no mundo, seja no palco, na pagina da internet ou na rua, faz-se necessário apresentar um posicionamento por outras mulheres nos palcos, nas páginas, nas ruas do mundo. Outras mulheres na América que não podem dizer.

O show segue mesclando canções do disco mais recente Aguas (2017) e do álbum Perotá Chingó (2014). As batidas mais eletrónicas dividem espaço com referencias folclóricas do grupo que faz em poucas horas uma viagem completa pela América Latina sentimental de cada um. O fim da noite faz a alegria dos fãs de longa data com uma sequência clássica de canções do primeiro disco: “Inés” (definitivamente o ponto mais alto da apresentação), “La Complicidad” e “Inca Yuyo”. Nessa hora a plateia “brasileña” já arrisca um coro em espanhol. “Es que hay que estar atentos. Requiere de toda tu energia. Si es que queres salir de ese enjambre mental que te atrapa, no te deja ver la luz”**. Um ode a liberdade em uma noite que definitivamente deixou a claridade entrar.

Foto: Página da banda – Pochography

Tradução:

* São onze horas e onze minutos e estamos onde precisamos estar

** É que você precisa estar atento. Isso requer toda a sua energia. Se você quer sair daquele enxame mental que te prende, isso não te deixa ver a luz

Escute Perotá Chingó:

 


Perfil Meiri

Meiri Farias: Portfólio | Instagram | Twitte

Assinatura Beatriz

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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