Questão de Opinião

10 anos de Triunfo: Emicida na Casa Natura com part. de Drik Barbosa

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*Por Beatriz Farias com colaboração de Meiri Farias

MELANINA

O dono da noite em Pinheiros foi o rap paulistano. O show de abertura, bem podia ser uma apresentação completa: durante aproximadamente uma hora, Drik Barbosa apresentou canções do EP Espelho (2018), que mescla influências do rap e R&B, de uma perspectiva feminina, feminista e militante. A artista que participa do Laboratório Fantasma, tem 26 anos e já carrega a responsabilidade de ser umas das representantes mais ativas da cena de hip hop local.

Felipe Giubilei

Foto: Felipe Giubilei

Canções como “Espelho”, “Banho de Chuva” e “Melanina” falam sobre os dramas, dificuldades e nostalgia das garotas negras da periferia de São Paulo. Com uma pegada mais R&B em “Inconsequente”, a artista também fala sobre amor e relacionamentos. A apresentação com uma narrativa coerente, com começo, meio e fim, mostra que Drik sabe preencher todos os espaços e não se restringe a um número introdutório. O público vai junto, canta, participa e se engaja com muita facilidade.

Compositora desde 14 anos, Drik começou a ganhar visibilidade nas batalhas de rap de Santa Cruz, onde começou a rimar. Com canções em parceria com vários nomes do rap nacional, incluindo Emicida, com quem gravou “Mandume”, que integra o disco mais recente do músico.

 

DEDO NA FERIDA

As 20h de um domingo – domingo, veja bem -, Emicida entra no palco.

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Emicida, acompanhado de seu fiel escudeiro Dj Nyack, interage com uma plateia fervorosa com habilidade, seja pelo riso ou pela emoção, existe uma “tenda” de respeito, uma espécie de abrigo que envolve o ambiente

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Foto: Felipe Giubilei

O espetáculo começa com a canção mais recente lançada pelo rapper: “Inácio da Catingueira”. A música publicada nas plataformas digitais no dia 18 de setembro fala abertamente da forte onda de ódio e fake news voltadas especificamente ao artista em questão. Com a habilidade que só o letrista tem, sua resposta é afiada e leva uma batida seca, como se em sua própria estrutura, a ideia de nos fazer ouvir sem distrações já estivesse totalmente empregada.

Dentre as acusações voltadas ao cantor, muito se fala sobre ele ter se vendido, ser comunista (ao que parece a crítica teve problemas de coerência, risos) e etc. É curioso notar sempre de onde vem esses rumores. Talvez mais importante ainda é observar o caminho que fez a voz para qual os rumores todos são apontados e o porquê. O que nos incomoda, enquanto sociedade, não é o terno de 18mil, não é a Fashion Week, não são os shows internacionais, coisas que usualmente aplaudimos em inúmeros artistas a qual seguimos. O que incomoda é ver até onde um negro favelado pode chegar, mas para parafrasear o próprio e compreender aonde nós queremos chegar por aqui: “acabou essa porra de ‘o que vem debaixo não te atinge.’”

 

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O show “10 anos de Triunfo” teve como cenário o palco da Casa Natura Musical no último final de semana (22 e 23 de setembro). A informação anterior, que poderia ser somente uma afirmativa circunstancial, ganha sentido maior quando relembramos o endereço onde se localiza uma das mais promissoras casas de show do momento. Localizada na Faria Lima, a “cracolândia blasé” que o rapper cita em uma de suas faixas, recebe na segunda noite de espetáculo um corpo ocupando um espaço que nossa sociedade chama de contradição. A cena é política ainda que a palavra não tivesse sido mencionada em nenhum momento.

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Foto: Felipe Giubilei

E já que estamos falando de espaço e acreditamos que muito da potência do show venha dessa reivindicação ainda quando não verbalizada, é importante ressaltar que a resenha parte do ponto de vista de duas mulheres brancas a respeito de um artista negro que utiliza sua voz para dar voz a outras inúmeras pessoas a margem da sociedade por conta do seu tom de pele. Aqui temos consciência que muito de seu canto é repleto de uma dor que não sentimos e não sabemos como é, embora estejamos inteiramente abertas a ouvir sobre. Não temos a pretensão, portanto, de falar desse papel.

O que queremos falar é sobre espaço. Sobre o não-lugar que é a periferia dentro de uma cidade e por isso nossa necessidade de sair de porta em porta inventando um espaço ou outro que mesmo que não nos caiba, nos faça ser ouvidos. Quando Emicida começa “Mandume”, segunda música do show que conta com participação especial de Drik Barbosa, a compreensão dolorosa e lenta, entendimento de toda uma vida em comum tentando “chegar lá” e sempre percebendo que ainda não chegou o suficiente. Familiar demais para quem atravessa uma cidade inteira todos os dias para fazer qualquer coisa. E ainda precisa ouvir palavras de desdém e ironia de quem “nunca deu nada pra nóis”

E assim segue todo o primeiro momento do show, reinvindicação do direito de existir. “Mandume”, “Pantera Negra”, “Hoje cedo”, “Boa esperança” (que ganha como prólogo um trecho do filme “´Ó Paí, Ó” no telão, com Lazaro Ramos como sempre rasgando as coisas dentro da gente) e outras canções que anunciam com veemência: nós estamos aqui e vocês vão ter que nos engolir.

 

OÁSIS

“Nóis quer carrão e mansão, né? Por que não?
Tá bem patrão de avião, né? Por que não?
Quer opção, quer salmão, né? Por que não?
Ser feliz, jão, diz aí, por que não?
Se no choro foi nóis também”

Embora permaneçamos alertas a todo instante, o momento de maior conforto do show pode ser considerado seu miolo. O próprio artista descreve o momento como “mais fofo”, em que engata canções com doçura intensa como “Madagascar”, “Baiana”, “Oásis”, “Mãe”, dentre outras. Uma das críticas que mais ouço direcionada ao artista, vale mencionar, é de como utilizou sua voz para fugir dos “temas que importam” e ir fazer uma música “melosinha”. A resposta que sempre direcionei aos comentários privilegiados – que curiosamente sempre ouço de pessoas que nunca botaram um pé na periferia – é que para nós, o momento de sossego é luxo. E merecemos nos dar ao luxo de falar sobre isso. Mas é mais. Em tempo de ódio generalizado contra os nossos, a felicidade é uma das vias mais potente de resistência da nossa condição mais básica de gente enquanto ser capaz de produzir afeto.

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Dialogando diretamente com a primeira música do show, “Inácio da Catingueira”, a pergunta é clara: por que nós, pobres mesmo, não podemos aproveitar tudo isso que os mais abastados sempre tiveram para esbanjar? Sim, podemos até estar falando dos carrões, das mansões, das comidas sofisticadas, mas antes disso tudo, estamos falando de uma coisa muito básica e complexa chamada leveza, isso que o dinheiro e o não-tempo sempre nos tirou.

Destaque ainda para o momento dentro desse clima em que Emicida canta “Passarinhos” e eis que surge do meio da plateia de surpresa – inclusive para o músico -, Vanessa da Mata, que empresta a voz na faixa gravada, e no show, fez questão de encontrar um microfone para cantar o trechinho final.

 

TRIUNFO

“Irmão, você não percebeu
Que você é o único representante
Do seu sonho na face da terra?
Se isso não fizer você correr, chapa
Eu não sei o que vai”

Sabemos que essa informação deveria aparecer logo no inicio do texto. Mas você que já leu o Armazém de Cultura sabe que faz um tempo que abrimos mão da forma precisa e objetiva para endossar o que estamos dizendo. Você que nunca leu agora sabe.  O show sediado na Casa Natura chama-se “Dez anos de Triunfo” e apresenta o repertório do trabalho mais recente de Emicida, o DVD que comemora sua primeira década de trabalho e reúne desde as canções mais atuais até as faixas que integram sua primeira mixtape “Pra quem já mordeu um cachorro por comida até que eu cheguei longe”.

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Foto: Felipe Giubilei

E a história comprova ainda mais isso que já dizia o título da mixtape lançada lá em meados de 2009.

Sua gravadora, Laboratório Fantasma, projeto bem-sucedido que reúne produtora de música, moda e etc. exemplifica em seu próprio cotidiano de trabalho a capacidade de se conectar com o público por vias diversas. É o paralelo contínuo entre saber de fato olhar para onde já chegaram e anda assim continuar questionando: e agora que a gente está aqui?

Nos resta ficar atentos para saber. Com a certeza de que Emicida é um dos grandes poetas da nossa geração. E só não vê quem tem medo.

E nem a consciência que só um domingo a noite é capaz de dar, de que a semana acaba de começar com as suas tarefas a cumprir parece afetar aquele conjunto de pessoas, que dentro de algumas horas cantaram fervorosamente até as batidas mais rápidas e improváveis. E então a gente vence o cansaço e os medos e as preocupações todas, o caminho é longo e o que temos até aqui é a possibilidade de sonhar e seguir.


Assinatura Beatriz

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

Perfil Meiri

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