Questão de Opinião

Exposição Quadrinhos: Um recorte histórico da arte sequencial

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*Texto por Meiri Farias. Foto por Beatriz Farias

Arte sequencial, 9ª arte, HQ, quadrinhos. A linguagem marginal que nasce na indústria cultural, como meio de comunicação de massa e faz o caminho inverso para as salas de museu. É mídia, é arte, é o que? As dúvidas e contradições do universo dos quadrinhos só encontram rivalidade no eterno fascínio que exerce em gerações e gerações de leitores através dos últimos séculos. Essa maneira de contar histórias, essa ferramenta para compreender a história se desenrolando ao nosso entorno e a maneira toda especial de apresentar e representar a realidade é tema de discussões acaloradas desde sempre, objeto de estudo acadêmico nas últimas décadas e tema da nova mega exposição que ocupa o Museu da Imagem e do Som, MIS, em São Paulo, de 14 de novembro de 2018 a 31 de março de 2019.

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Desde 2013, com a mega exposição sobre Stanley Kubrick, o MIS vem abrigando mostras ambiciosas e com sucesso de público. Com o Armazém de Cultura visitamos Castelo Rá-tim-Bum (que, de certa maneira, foi o texto que estabeleceu o “estilo” de texto do AC) e O Mundo de Tim Burton, mas o museu também apresentou de maneira multimídia a histórias e personalidades como Renato Russo, Silvio Santos, David Bowie, Alfred Hitchcock, etc. e agora se debruça sobre a história das histórias em quadrinhos, em uma exposição que ocupa dois andares do museu, além de proporcionar uma programação paralela de cursos e eventos sobre o tema. A curadoria é de Ivan Freitas da Costa (sócio-fundador da CCXP/Comic Con Experience e da Chiaroscuro Studios) e projeto expográfico da Caselúdico (que também assinou as mostras do Castelo e de Tim Burton) e apresenta uma retrospectiva contada através de revistas, artes originais e colecionáveis, entre os mais de 600 itens que integram o acervo pessoal de Ivan e de outros colecionadores.

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UM POUCO DE CONTEXTO:

A história das histórias em quadrinhos

Entre as muitas (e abrangentes) definições sobre Histórias em Quadrinhos, é Scott McCloud quem apresenta uma das descrições mais interessantes. Para o quadrinista e estudioso da nona arte norte-americano, quadrinhos são “imagens pictóricas e outras justapostas em sequência deliberada.” Em seu livro Desvendando os Quadrinhos (2002), McCloud faz um resgate histórico e conceitual da HQ, pontuando sua história e características, que a distingue como arte autônoma. O autor, inclusive, traça paralelos entre os quadrinhos e seus ancestrais na pré-história e na idade média. De arte rupestre a vitrais de igrejas, passando por tapeçarias com narrativas, contar histórias com imagens sequenciais não é uma novidade dos últimos séculos. Porque a via sacra, dispostas em quadros sequenciais na parede de uma igreja não poderia ser considerada uma espécie de história em quadrinhos?

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Essa linha do tempo acelerada (e obviamente pautada por exemplos rápidos e preferencias da autora do texto) termina com o fortalecimento do mercado independente que encontra seu escoamento em Fanzines, revistas independentes e, claro, na internet, que vem alterando completamente a forma de pensar e produzir quadrinhos no Brasil. Poderíamos enumerar exemplos, mas como desbravar a produção autoral e independente foi a vocação do Armazém desde o inicio do blog, deixamos o convite para conhecer nossas resenhas e entrevistas sobre o tema.

É necessário reiterar que seria impossível resumir de maneira objetiva toda a história das historias em quadrinhos em um texto curto, por isso foi escolhidos alguns exemplos de preferencia pessoal. Afinal, cada texto, verbal ou visual, é um recorte. Assim com o tema inicial dessa matéria, a exposição Quadrinhos, sobre a qual vamos caminhar agora.

(material produzido pela pesquisa do próprio Armazém de Cultura, sem relação com o conteúdo produzido pela exposição, apenas para fim de contextualização)

 

A EXPOSIÇÃO

Início – Origens

A exposição começa com as boas vindas de Piteco, personagem de Mauricio de Sousa e se encaminha para a área que apresenta as origens da arte sequencial. Com uma ambientação que mimetiza uma caverna pré-histórica com arte rupestre, a sala exibe vídeos sobre os “parentes distantes” das histórias em quadrinhos e brinca com a temática ao expor revistas dos Flintstones. Há também um espaço dedicado a cartoons, edições originais e até mesmo uma raridade: uma Revista Ilustrada com capa de Angelo Agostini.

 

Tira

Um espaço pequeno, porém bem utilizado e de forma criativa. A sala Suplemento Tiras é um dos pontos de destaque da exposição. Justo ao subir um lance de escadas, é impossível não ficar “tonta” com a quantidade de informação, personagens e autores queridos. No melhor sentido, é claro. Garfield, Graúna, Peanuts, Hagar, Menino Maluquinho, Anésia, Calvin, Mafalda, são só alguns dos “rostos conhecidos” que aparecem nas centenas de tiras dispostas entre as paredes e cataventos.

 

Quadrinho Europeu

Um dos espaços mais extensos da exposição, a sala dedicada a produção europeia é um prato cheio para quem quer conhecer os personagens mais clássicos do velho continente. Tintin, Tex, Spirou, Asterix e muitos outros na exposição a imagem dos personagens vem com a uma pequena biografia dos autores no verso. Outras raridades como o primeiro número de Tex no Brasil, esboços e lembranças de autores. V de Vendeta, capas polêmicas de Chalie Hebdo, e até a presença de Alejandro Jodorowsky e Marjane Satrapi, que não são europeus, porém publicaram e se popularizam no continente.

 

Mangá

O quadrinho japonês é homenageado com uma das salas mais bonitas da exposição. Akira, Lobo Solitário, Sakura, Sailor Moon, são alguns dos personagens destacados. Mas é a obra de Osamu Tesuka que ganha a maior homenagem em uma composição de guarda-chuvas.

 

Quadrinho Erótico

 A área “proibida para menores” da mostra Quadrinho contava com uma fila considerável na entrada. A sala, que na verdade era um banheiro real ambientado, não comportava muitas pessoas ao mesmo tempo, mas representava muito bem o ar de intimidade e subversão que o tema demanda. Com Milo Manara, Carlos Zefiro, Robert Crumb, Guido Crepax, Angeli, entre outros, as interpretações do corpo (principalmente o feminino) tinha diversos olhares. Menos um feminino. A baixa representatividade de mulheres artistas foi uma constante na mostra como um todo, mas nessa sala o peso é maior. Seria uma ótima oportunidade para destacar o trabalho da italiana Giovanna Casotto ou da brasileira Lovelove 6. Faltou. Como ponto positivo, vale destacar a ideia genial do “olho mágico”

 

Mauricio de Sousa

 A sala dedicada a Turma da Mônica é outro espaço abarrotado e bem completo em conteúdo. Primeiras edições, originais, processos de produção, storyboard de Mônica Toy, linha do tempo da Turma da Mônica Jovem e uma parede especial dedicada ao projeto Graphic MSP.

 

Brasil

Ao sair da sala da MSP, a escada que desce ao andar inferior é ambientada em homenagem a Angelo Agostini. Descer em direção a produção brasileiro a partir do trabalho do quadrinista pioneiro do gênero no Brasil é simbólico e adequado. Uma passagem pela história das revistas clássicas: O Tico Tico, Gibi, etc. Um olhar rápido pelas adaptações literárias e estamos na sala mais interessante da mostra. O quadrinho brasileiro das últimas décadas ganha uma homenagem a “santíssima trindade” da HQ nacional. Los três amigos, Glauco, Angeli e Larte estão destacados ao centro com artes, originais e projeções de tiras. Ao redor outros nomes importantes são lembrados como Henfil, na “banca de jornal” humor gráfico. Prêmios como o HQ MIX em exposição, mais revisas clássicas e originais. Agora cercadas de quadrinhos dos artistas responsáveis pela produção atual. Victor Cafaggi, Felipe Nunes, Alcimar Frasão, Rebeca Prado, Odyr, etc. a produção autoral aparece distribuída quase como em uma biblioteca. É uma delícia ver originais de Daytripper dos gemeos Fábio Moon e Gabriel Bá ou de Valente, de Cafaggi. Mas fica uma sensação de que a produção atual merecia mais. Principalmente a produção independente e feminina.

 

América Latina

O espaço é apertadinho e destaca principalmente quadrinhos argentinos como Mafalda e Macanudo. O mosaico de tiras, principalmente o da personagem do Quino é uma forma eficiente e bonita de contar a história, mas também gera a sensação de que a produção da região fica apagada e “esprimida”. O que é uma pena.

 

América do Norte

Como esperado, o publicado nos Estados Unidos ganha um espaço considerável, porém há um esforço muito grande de juntar uma quantidade inacreditável de autores e mesmo assim o espaço não é suficiente. De Tarzan a Joe Sacco, de Peantus ao selo Vertigo, é possível ler muito pouco sobre conteúdos definitivos para as histórias em quadrinhos como Sandman ou de popularidade mundial como Calvin e Haroldo e Peanuts. Até o espaço do Will Einer, que está lindo e interessante, poderia ser um pouco maior. Mesmo nas salas separadas: Disney, Marvel e DC, é possível sentir a sensação de o espaço não foi tão bem distribuído. As salas da Marvel e da Disney decepcionam um pouco, pelo potencial de personagem e elementos marcantes que poderiam ser explorados. A sala da DC apresenta um conceito genial (a batcaverna com perfis e informações super secretas de cada herói), mas poderia ter explorado mais os grandes clássicos da editora. Um painel de Crise nas Infinitas Terras ou uma reprodução gigante da capa de Reino do Amanhã, por exemplo, poderia chamar mais atenção que as estatuetas da trintade, que embora muito bonitas, passam a sensação de que, ao contrário das duas salas anteriores, sobrou um pouco de espaço.

Confira a galeria completa da Exposição Quadrinhos no Facebook!

 

PONTOS NEGATIVOS

× Falta artistas mulheres, é preciso bater e bater nessa tecla;

× Mesmo que o objetivo pareça estar concentrado no resgate histórico, seria um bocado educativo explorar mais a produção atual;

× Algumas salas parecem ocupar mais espaço que deveriam, fazendo que outras fiquem abarrotadas.

 

PONTOS POSITIVOS

Independente do tema de espaço, todas os ambientes estão belíssimos. A ambientação de Quadrinhos eróticos é genial, a sala de quadrinho brasileiro é linda e emocionante e Quadrinho europeu é interessante e divertida para quem curte história como um todo;

Falta representatividade, mas a diversidade nos temas é muito eficiente em mostrar que quadrinhos é muito mais que infantil e super-herói. É uma delícia pensar que muita gente, que não está acostumada com esse universo, terá a oportunidade de conhecer uma infinidade de autores e estilos diferentes;

Os originais, há, os Originais. Fã de quadrinho que se preze, vai se derreter com os prints e originais de suas histórias favoritas.

 

IMPERDÍVEIS

Sala de quadrinho brasileiro. Entre e fique por horas. Vale a pena olhar cada detalhe, do chão ao teto.

 

PASSA BATIDO

Marvel e Disney, poxa.

 

VEREDITO FINAL

É um recorte muito interessante e divertido da história das histórias em quadrinhos. Vale visitar, inclusive mais de uma vez para voltar com calma e mais atenção depois da excitação da novidade. É divertido, bonito e fascinante, como passear por páginas de uma HQ. Mas é importante ter consciência de que é um recorte desse universo, é claro. Afinal, quando se trata de quadrinhos, as possibilidades são infinitas e é impossível abarcar tudo isso em dois andares.

 

SERVIÇO

Museu da Imagem e do Som – MIS
Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo| (11) 2117 4777 | www.mis-sp.org.br

Data 14 de novembro de 2018 a 31 de março de 2019
Horário
 terças a sábados, das 10h às 20h (com permanência até as 22h); domingos e feriados, das 9h às 18h (com permanência até as 20h);
Excepcionalmente na segunda-feira 19 de novembro, véspera de feriado, o MIS estará aberto das 10h às 20h
Local Espaço Redondo, Espaço Expositivo 1º andar e Espaço Expositivo 2º andar

Ingressos

                Bilheteria R$ 14,00 (inteira) e R$ 7,00 (meia) na Recepção do MIS (somente para o dia  da visita). Terças-feiras entrada gratuita. Menores de 5 anos não pagam

                Ingressos antecipados para os dias 14, 15, 16, 17, 19, 21, 22, 23, 24, 28, 29 e 30 de  novembro; 1º, 5, 6, 7, 8, 12, 13, 14 e 15 de dezembro
                Valor R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia- entrada)
                Vendas pelo site e app da Ingresso Rápido

 

 


Perfil Meiri

Meiri Farias: Portfólio | Instagram | Twitte

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