Questão de Opinião

Duda Beat: Rainha da sofrência pop

Artista recifense sobe ao palco da Natura Musical durante a já tradicional programação de carnaval da casa

*Por Beatriz Farias

Esse título aí, sabe? Esse que a gente usou para nomear o texto. Quem deu a Duda Beat esse título foi ninguém mais ninguém menos que Duda Beat. Em determinado momento do show, suor e cerveja para tudo quanto é lado, a artista segurou o microfone como quem não quer nada, mas sabe bem onde está pisando, que ela, ela do lugar onde estava, era a rainha da sofrência pop.

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Foto: Renato Galvão

Para começar, é válido destacar que essa resenha não tenta em nada fazer uma descrição inteiramente comprometida com a ordem dos fatos e, muito mais, se passa dentro de uma sensação. De estar ali naquela noite depois de um dia inteiro de trabalho e ver essa figura surgir no palco de rosa choque com todo carinho do mundo: O tempo virou, uma luz acendeu e tudo mudou. É coisa linda o que a Duda tem para falar.

Plena véspera de feriado, o clima de “sextou” antecipado fervendo a cidade de São Paulo. O local do show, Casa Natura Musical, ganhadora de 2018 na categoria de melhor casa de shows de grande porte de São Paulo do jornal O Estado de S. Paulo e de Melhor Espaço Para Shows no Blog do Arcanjo/UOL, que vem fazendo justiças a esses títulos em quase dois anos de residência. Lugar em que as pessoas estão perto, que cria uma graça com isso da dança, que parece um corpo só e, ainda assim, propicia um ambiente onde todo mundo sabe que para invadir o espaço do outro, é necessário ser convidado ou ter permissão concedida. Para eventos como o show de Duda, alternativa correta.

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Foto: Ana Catarina Duarte

E já que estamos falando de dançar, Duda Beat não se faz de rogada. Natural do Recife, mas radicada no Rio de Janeiro, soma seu gingado e sotaque nordestino à ritmos e eletrônicos. Entre desabafos ácidos e uma batida dançante, Duda se mostra uma romântica que questiona a fluidez dos relacionamentos contemporâneos, mas sem amargura – ou fazendo desta, artifício do seu pequeno deboche com a tristeza. As canções vêm com lamentos e declarações rasgadas. Junta o brega com o lírico e se apresenta absolutamente pop. Desperta mais dúvidas que certezas em quem escuta: o que essa moça está fazendo e porque é tão único? Com a artista o palco e plateia lotada de energia, não faz falta resposta. Se o disco é seu diário, o momento do show é aquela mesa de bar com todos os amigos em que finalmente chega a momento de oralizar as histórias e transformar em hino, em todos os sentidos. A cor, a luz, todo o desenho estético é narrativo: da capa do disco ao figurino do show, que lhe confere ares de “red carpet”: “hoje eu vim receber o Oscar”, brinca em determinado momento da apresentação.

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Foto: Ana Catarina Duarte

“CARNABEAT APAIXONADO”

A festa nomeada como CarnaBeat Apaixonado faz parte da programação de pré-carnaval 2019, realizada na Casa Natura, que também é responsável por trazer ao palco importantes nomes do circuito de blocos como Bloco Ritaleena, Bloco Calor da Rua, Bloco Confraria do Pasmado, dentre outros. O “o baile mais safado do verão” de Duda, surge como um esquenta de luxo para o Carnaval que só chega oficialmente em março. O novo show tem como base o repertório do álbum Sinto Muito, com novos arranjos bem dançantes, misturados a hits de todos os gêneros, com muita sofrência, axé, brega e pagode. Com apresentação única e ultra disputada (ingressos esgotados, pessoas com placas de “compro ingresso” na porta da Casa), é interessante ver a adesão intensa do público a música que Duda faz. A artista ainda é acompanhada por um time de peso formado por por Tomás Troia (guitarra), Lux Ferreira (teclado e programações), Gabriel Bittencourt (bateria e spd), Felipe Vellozo (baixo), Camila De Alexandre (backing vocal) e Luiza De Alexandre (backing vocal).

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Foto: Ana Catarina Duarte

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Foto: Ana Catarina Duarte

Uma junção perfeita entre algo que a gente poderia chamar de “chorar e dançar”, da melhor maneira possível. Se a música começa com os dizeres: “eu nunca fui tão humilhada…”, a plateia inteira já está com os braços para o alto respondendo fervorosamente.  E não se trata de romantizar a tristeza. Não é ignorar ou banalizar o sofrimento. É dar pra gente o direito de sentir tudo, tudo que é possível enquanto dá uma reboladinha. O show da Duda deixa claro que se é pra se entregar pra essa vida, a gente tem a opção de ficar triste e só ou ficar triste caindo na pista. Que seja assim.

As músicas são potentes para o corpo e para os ouvidos. A canção “Bichinho”, que chega a dar nó nosso cérebro, ficou por algumas semanas no top 5 da lista de virais do Brasil no Spotify. Na Casa Natura, ganhou a participação especial da paraênse Luê e um coro especialmente emblemático da plateia lotada. Os covers também têm espaço especial: aquela música que dá pra dançar mais coladinho, mais solto, o axé levinho, cover que vai de Djavan a Mc Loma com tranquilidade.

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Com participação especial de Luê. Foto: Ana Catarina Duarte

Assista o clipe de “Bichinho”:

 

 

Seria impossível e até mesmo irresponsável não relembrar que o show também aconteceu nesse mesmo dia de relevância assombrosa na história do país. Dia em que o deputado federal Jean Wyllis desistiu de exercer seu terceiro mandato, devido forte leva de ameaças que vem recebendo e se intensificaram desde a vergonhosa tomada de posse do chamado presidente do Brasil. O tema, que foi também abordado pela artista em determinado momento do show, deixa evidente que vai ser necessário tratar desse assunto em nosso convívio. Que desintegrar arte e política é tirar da cultura a capacidade de visualizarmos juntos uma saída para nossa conjuntura atual. Como primeira publicação desse ano, o Armazém de Cultura lamenta profundamente as violências que o deputado vem sofrendo nos últimos anos e acredita firmemente que a luta não acaba aqui. Para lutar é preciso do profundo respeito e reverencia a todos que morreram lutando ou não tiveram a chance de lutar. Sobretudo, cuidemos uns dos outros. Como Wyllis a Folha de São Paulo: “Para o futuro dessa causa, eu preciso estar vivo. Eu não quero ser mártir. Eu quero viver.”

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Foto: Ana Catarina Duarte

É pessoal, o carnaval está chegando por aí. O Armazém de Cultura já está com as portas e janelas escancaradas para receber a melhor fase do ano. E começar com essa mistura genial de tecnobrega, pop, o axé e o dub da Duda Beat é uma afirmação de que mesmo com o desengano e dificuldade proporcionado pelo cenário político do país, nós vamos enfrentar tudo isso dançando. Portanto, senhoras e senhores, sabendo que Não é Não, sabendo que ele Não nos representa, com a certeza que você pode usar rosa e azul no seu bloquinho e até mesmo as duas cores juntas ou nenhuma delas, declaramos aberta a temporada de carnaval de 2019. Pode vir que a gente dá um jeito.

Confira o disco “Sinto Muito”:

 


Assinatura Beatriz

Beatriz Farias: Tumblr | Instagram

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