#Oscar2019

A Favorita: tudo pela atenção da rainha

*Por João Pedro Rosa

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SPOILER ALERT

Duas mulheres, com temperamento forte e objetivos claros, disputam a atenção de uma rainha excêntrica e mimada e, por conseguinte, a oportunidade de administrar uma Inglaterra monárquica, volátil e em guerra e de guiar o jogo político. Essa é a base do roteiro de A Favorita, escrito pela historiadora Deborah Davis em conjunto com o escritor de cinema e televisão Tony McNamara, ambos indicados à Melhor Roteiro Original, que por 20 anos tentaram vender seu projeto em Hollywood. Até cair nas graças do Yorgos Lanthimos, Deborah teve seu trabalho rejeitado por diversos diretores e produtores que não queriam produzir um filme com três protagonistas femininas por receio da recepção da crítica e do público. Além disso, qualquer coincidência com a novela global de João Emanuel Carneiro, A Favorita, ironicamente o mesmo nome do dito filme, será mera coincidência…

#Oscar2019 – Confira a nossa resenha para os Melhores Filmes

Se olharmos para os diversos filmes e séries sobre a monarquia inglesa existentes, sejam comédias, dramas ou a mistura de ambos, a grande maioria trará um mundo complexo e perfeito, cheio de trapaças e luxúria heterossexual. Sem deixar as trapaças e complexidades do jogo político dentro da Corte Real, A Favorita inova ao centralizar a narrativa em duas personagens lésbicas realistas, sendo a própria rainha uma delas. Ademais, se em boa parte dos filmes com personagens homossexuais o sexo e a relação são tratados de uma perspectiva romântica, idealizada, o diretor e roteirista do filme em questão compõem um outro tipo de relação homoafetiva, bem mais realista. Além de fluir de uma forma totalmente natural, a paixão que Rainha Anne e Sarah Churchill compartilham é retratada grotescamente e sem firulas ou eufemismos; o mais puro desejo carnal exala das telas e invade o espaço material.

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Num ano repleto de diretores e diretoras com trabalhos muito bem recebidos pela crítica especializada, apesar de mais uma vez o Oscar não indicar nenhuma mulher na categoria, o excêntrico diretor grego Yorgos veio com tudo e abocanhou seu posto entre os melhores do ano. Ele conseguiu trazer vivacidade e originalidade à história de Deborah, que se soma às centenas de obras sobre a monarquia britânica, mas se diferencia de todas. Indicado na categoria de Melhor Diretor, a sutileza e precisão com que Lanthimos captura as cenas e dirige os componentes é brilhante e encantadora. Seu trabalho com as câmeras que acompanham as atrizes, tendendo ao mínimo de cortes possíveis, trazem uma sequência fluida e orgânica de cenas que se interpolam e se sobrepõe tão fácil quanto a Duquesa de Marlborough consegue ludibriar a Rainha.

Igualmente, a primorosa edição do parceiro grego de Lanthimos, Yorgos Mavropsaridis, indicado à Melhor Edição, que deixa essa obra prima ainda mais polida e bem-feita; um trabalho minucioso de limpeza e organização do conteúdo produzido. E não só esses aspectos, mas também algo muito bem pensado pela produção que me chamou muito atenção de forma positiva, a divisão em capítulos foi um ponto muito interessante que diferenciou o filme dos demais longas contemporâneos. Uma frase aleatória escolhida entre a fala dos atores do capítulo em questão é retirada de contexto e posta como título dele. Porém, essa frase, de aleatória não tem nada e basicamente resume o que está se passando ali, uma autoexplicação bem colocada no início.

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Revivendo parte do elenco com quem já trabalhou em outros carnavais, como Olivia Colman e Rachel Weisz, ambas parceiras de cena no também aclamado The Lobster (2015), a escolha e desempenho dos atores é um dos pontos altos da película. Com todas as protagonistas indicadas nas categorias de atuação, sendo uma indicação merecidíssima a Melhor Atriz para a impecável e caricata Olivia e duas a Melhor Atriz Coadjuvante, uma para a Weisz e outra para a Emma Stone, todo o elenco, seja de apoio ou principal, entrega um lindo trabalho conjuntural. Por mais que os surtos e gritos da Rainha Anne se interpolem tão avidamente, todo esse drama exagerado é facilmente explicado na narrativa tão esquizofrênica quanto a interpretação das atrizes. E assim, ainda que as chances de ganhar o Oscar nessa categoria sejam bem rasas e que todas as mulheres indicadas tenham feito trabalhos excepcionais, não custa nada torcer para Colman, eterna rainha no meu coração, e Weisz, lenda sapatônica. Mas, se as expectativas para a maior premiação de Hollywood são baixas, ao menos no BAFTA, maior premiação do cinema britânico, que aconteceu no último dia 10 de fevereiro, o filme foi “vingado” e saiu da noite com alguns bons prêmios, como Melhor Atriz para Olivia e Melhor Atriz Coadjuvante para a Rachel, além do prêmio de Melhor Filme Britânico, perdendo apenas o maior prêmio da noite, Melhor Filme, para Roma, do mexicano Alfonso Cuarón.

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Além de tudo isso, antes de comentar sobre o maior prêmio da Academia, não posso deixar de falar sobre as outras indicações pelas quais o filme foi nominado, empatado com o belíssimo filme do Cuarón, cada um com 10, como os mais indicados da edição. Duplamente indicada na mesma categoria, Sandy Powell disputa mais uma estatueta dourada na categoria de Melhor Figurino. Três vezes oscarizada, inclusive dois deles também por filmes de época na antiga Britânia, sendo um deles a polêmica película que roubou o tão sonhado Oscar de Melhor Atriz para a Fernanda Montenegro, Shakespeare Apaixonado, a icônica figurinista britânica volta a concorrer por dois longas completamente distintos: Mary Poppins Returns, a continuação do clássico da Disney, e por A Favorita. É perceptível o trabalho minucioso de pesquisa e desenvolvimento dos looks usados no filme: cada detalhe, drapeado, brocado, renda, escolha de tecido, joia, tipo de vestido, maquiagem, cabelo e até mesmo a cenografia se harmonizam e formam um conjunto belíssimo. Inclusive, a direção de arte assinada pela Fiona Crombie, também indicada ao Oscar, é outro show à parte.

Uma categoria adorada pelos amantes da sétima arte, mas que nesse ano não receberá espaço dentro da premiação para ser anunciada, como se os profissionais envolvidos fossem menos importantes que diretores e atores, o longa também foi nominado à Melhor Fotografia. Comandada pelo Robbie Ryan, que recebeu sua primeira indicação ao Oscar neste ano, esse aspecto tão intrínseco a todos filmes é executado com maestria por ele. É como se cada frame fosse cuidadosamente pensado e captado, como um conjunto de fotografias. As cores escolhidas e empregadas nas cenas contribuem para caracterizá-las e dão o tom do que se passa ali: ora tons mais obscuros e dourados que trazem uma sensação de sensualidade, traição e falsidade; ora cores vibrantes e claras com uma subjetiva transparência, razão e lucidez embutida. Por mais que a já decadente Academia tenha decido não mais premiar esse tipo de trabalho dentro do show, sabemos bem o quão importante a cinematografia é para uma boa finalização da película.

RESENHA | Roma: o que acontece quando não está acontecendo nada

Enfim chego no tão almejado BEST PICTURE, como gosto de chamar o prêmio mais importante das noites de premiação da Academia americana. Indicado na categoria, que não necessariamente prestigia os melhores filmes do ano, Yorgos fecha o ciclo A Favorita com o que chamaria de a cereja do bolo. Sinceramente, não acredito que de alguma forma este longa-metragem ganhará, mas é de longe um dos meus favoritos e um dos melhores do ano, diria até que é um dos poucos dentre os oito nominados que realmente merece a indicação e uma eventual estatueta. Ele não se compara com dramático e genial Roma, do já oscarizado Cuarón, um dos mais lindos que já assisti na minha vida, mas com certeza esmaga o reduto músico-sentimental que é Bohemian Rhapsody, com atuações e direção fracas e que se apoia unicamente no fenômeno mundial que o Queen foi.

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Seguidamente, se tivesse que destacar defeitos, já que nem tudo são flores, diria que a duração de 120 min alonga por demasiado e deixa uma narrativa densa, que poderia ser facilmente enxugada em uns 100 min. Ademais o som altíssimo é um outro probleminha que dificulta um pouco a experiência com o filme. Cada tiro repentino ou movimento estrondoso era um susto meu no cinema, mas, como não sou especialista, não sei bem se seria isso um problema no cinema em fui, o lugar onde me sentei ou se era algo na mixagem e tratamento de som. Todavia não foi algo nada tão horrível ao ponto de atrapalhar a tão bem feita escolha e preparação da sonoplastia, uma marca nas películas do diretor helênico.

No final das contas, esse é um lindíssimo trabalho feito de forma tão espetacular e rica e que aborda temas tão contemporâneos, numa sociedade tão arcaica, de um modo tão natural. Sou suspeito por ser fascinado pela monarquia britânica, mas esse é de longe, por mais que os fatos não sejam totalmente comprovados, um dos melhores filmes sobre o tema que já assisti.

Yorgos sendo ele e entregando mais uma obra prima.

Confira o trailer:

 

 

FICHA TÉCNICA:

The Favourite

Direção: Yórgos Lánthimos

Elenco: Olivia Colman, Rachel Weisz, Emma Stone etc.

Nacionalidades: EUA, Reino Unido, Irlanda

Duração: 2h 00min

COMO ASSISTIR (SP):

Em cartaz em salas de redes como Cinermark, Kinoplex, PlayArte, Espaço Itaú de Cinema, Reserva Cultural, etc.

CATEGORIAS INDICADAS NO OSCAR 2019:

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*João Pedro Rosa

Estudante de Design de Moda e crítico especializado nas horas vagas, ou seja, em todas. Apaixonado por teatro, cinema, Gaga, Florence e Lorde, perde mais tempo vendo vídeos de culinária, coisa que ama, do que com os livros da faculdade empilhados no quarto. Não vive sem o fone de ouvido, o Twitter e um bom mix de chá todos os dias. Desempregado, atualmente só vive enfurnado na biblioteca scaneando coisas inúteis e dormindo.

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