#Oscar2019

BlacKkKlansman: quando KKK deixou definitivamente o riso para virar representação de um histórico de violência*

*Por Beatriz Farias

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*A frase que acompanha o título do filme faz referência a uma fala proferida pelo sociólogo Tulio Custodio durante debate organizado na última quinta-feira sobre Infiltrado na Klan e o Racismo Ontem e Hoje.

Antes de tudo, entendi que não deveria escrever essa reflexão. Porque sou uma mulher branca e porque não sei o que é sofrer com o racismo. Não importa quanto me cause repulsa o racismo, ainda falo de um lugar onde o privilegio me torna racista. Mas aí um jovem negro foi assassinado em um mercado onde você e eu geralmente compramos pão e outros itens básicos para nosso cotidiano e, depois da notícia, não escrever sobre o filme me pareceu mais do que um ato respeitoso, uma tendência em permanecer nesse lugar confortável onde reconheço meu privilegio e decido fazer um total de nada com essa consciência. Um silêncio que não tem finalidade nenhuma a não ser efetuar a manutenção da minha licença de continuar quietinha.

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A filósofa militante Angela Davis afirma que “em uma sociedade racista, não basta não ser racista, é necessário ser antirracista” e é daí que surge esse texto. Porque embora continue da opinião de que meu papel nessa luta seja ouvindo, é preciso começar a questionar a razão pela qual na minha faculdade não vejo negros. E porquê o mesmo acontece no meu trabalho e nas ruas caras por onde círculo.

“Você realmente quer sua preciosa criança branca indo a escola com negros?”

O cenário composto pela projeção de cenas do controverso filme “O nascimento de uma nação”, mesclado a presença do segregacionista Dr. Kennebrew Beauregard (Alec Baldwin) e seu discurso acerca da frase redigida acima, é a cena de abertura do filme abordado hoje.

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Baseado na autobiografia “Black Klansman” de Ron Stallworth, “BlacKkKlansman” (Infiltrado na Klan) conta a história de um policial negro do estado de Colorado. Interpretado por John David Washington, a vida de Ron é alterada quando em 1978 o mesmo se depara com anúncios da Ku Klux Klan no jornal e decide começar uma investigação que culmina na sua infiltração para a seita. Comunicando-se com os outros membros por meio de cartas e telefonemas, o policial chega a enviar um policial branco para fazer sua vez quando é necessário a presença física nos eventos do grupo.

Com direção, co-escrita e produção de Spike Lee, o longa que vem colecionando uma série de indicações nas premiações da temporada, estreou no dia 10 de agosto de 2018, data que completa um ano da manifestação de Charllotesville 2017 da supremacia branca. Curioso notar logo no princípio da trama que enquanto o ódio institucionalizado era destilado em cada gesto pelos governantes e cidadãos de bem, a grande preocupação da polícia era com a união de grupos negros de resistência, chegando a infiltrar seus funcionários em reuniões do movimento considerado subversivo.

Em um momento onde assistimos 3 filmes cuja questão racial é parte do enredo  de alguma forma (Infiltrado na Klan, Pantera Negra e Green Book) e ainda assim – ou talvez alinhado a isso -, acompanhamos uma onda intensa de racismo assolando nosso país e o restante do mundo, os debates sobre a relevância das representações nas obras cinematográficas saltam das telas do computador e ganham sentido ainda maior no encontro na semana que antecede o Oscar. A fim de discutir racismo e a contribuição do filme Infiltrado na Klan na luta contra a opressão, a plataforma de streaming de audiolivros Ubook, o Grupo Editorial Pensamento e a Livraria Blooks se reuniram na última quinta-feira para promover debate com o ator e rapper que dá voz ao Ron no enredo digital, André Ramiro, a socióloga e criadora do projeto Quilombo Literário, Luciana Bento e o sociólogo e curador de conhecimento na Inesplorato, Tulio Custodio.

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Foto: Blooks Livraria

O debate que aconteceu na livraria localizada no Shopping Frei Caneca, contou com participação de um público majoritariamente negro de faixa etária distinta. Em determinado momento da discussão, que durou mais de 2h, certo integrante da plateia se levanta para constatar que “esse shopping nunca teve tanto preto junto”. O comentário, embora irônico e bem-humorado, é seguido da pergunta de um rapaz ali presente: “qual é a nossa maneira, enquanto negros, de sobreviver?”. E fica evidente que até mesmo a brincadeira do primeiro relato expõe o que Tulio afirma em outro momento do bate-papo: “a gente (enquanto sociedade do século XXI) acha que está tudo bem. Mas não está”.

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O evento, que ocorreu por coincidência no aniversário de 54 anos do assassinato do político e guerrilheiro Carlos Marighella, traz também à tona a importância da representatividade dentro da sétima arte e no entretenimento de maneira geral. Acerca do tema, André Ramiro comenta a maneira especial com que o diretor destaca a beleza negra na trama. Seja pelo enquadramento em cada olhar, seja pela paleta de cores que permeia todo o enredo – vale mencionar a cena de encontro de estudantes negros com o revolucionário Stokely Carmichael, onde a câmera foca sem pressa o rosto de inúmeros jovens em diferentes níveis de emoção -, é incontestável como a precisão só poderia provir de um conhecimento de causa inerente.

Embora seja reconhecido por filmes memoráveis e de grande fascínio dos amantes do cinema, Spike Lee nunca havia sido indicado ao Oscar, fato considerado quase por unanimidade como uma das maiores injustiças no decorrer dos anos na premiação. Como resposta a afirmação que nem precisaria de pergunta, se Spike Lee vence este ano, se torna o primeiro diretor negro a ganhar o Oscar. Falar de sua importância é também falar do que representa seu filme.

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Indicado a 6 categorias do prêmio mais importante da indústria cinematográfica, afirmo sem medo que o prêmio de direção aqui é mais que merecido. Spike Lee é impressionante em todos os recursos de que se apropria durante as duas horas de filmagens. A criatividade na forma com que optou por contar a história chega a ser catártica na mescla de cenas reais e ficcionais, ferramenta que não seria novidade nas telas não fosse o parâmetro de contradição ou confronto de uma confirmação exposta pelo diretor.

Sem que precise verbalizar a intenção da ideia para que o espectador entenda do que se trata, um dos maiores trunfos do filme é o modo com que possibilita que a mensagem circule com potência e facilidade, como na cena de reunião entre os membros da KKK. A câmera que passa na horizontal pelos empregados detecta sutilmente o sorriso de duas serviçais brancas enquanto o coro dos homens ressoa em um forte “american first”. Na sequência, quatro empregados negros são apresentados um a um, mas, em contraste com as moças, observam sem emoção o espetáculo patético.

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Outro momento digno de aplausos é a já citada cena da palestra de Stokely Carmichael. Ao contar seu exemplo com o desenho Tarzan, o ativista comenta que enquanto gritava “mate a besta” para a tela, na verdade dizia “me mate”. Ao mesmo tempo em que se ouve sua voz, o enquadramento retoma o rosto de Stallworth, e a atuação de John David Washington nos brinda com uma expressão que vai além de resenhas, como se ali percebesse que ao trabalhar em uma investigação contra um grupo negro lutando por seus direitos, também dissesse “me mate”.

Muito além da preocupação em contar uma história verossímil, “Infiltrado na Klan” esmiúça com inteligência pontos cruciais do nosso racismo na atualidade – embora o filme se passe em outra década. Quando o personagem de Adam Driver, detetive Philip Zimmerman, comenta com outro policial branco o quanto adora os negros, já que a maioria de seus astros o são, é impossível não lembrar do caso recente com a ex-diretora da Vogue Brasil. Não pretendo estender o texto com todo o repúdio sentido com a festa de aniversário temática de “Brasil Colonial” que Donata Meirelles achou por bem planejar. Entretanto a situação exemplifica o que Luciana Bento aponta durante o debate de quinta-feira: “a crença de que não existe racismo no Brasil é o que mais dificulta nossa organização”.

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Dentre o mal necessário, a exibição dos trechos do intragável “O nascimento de uma nação”, filme de 1915 do diretor e produtor D. W. Griffith, é difícil de assistir sem repulsa. Além da primeira cena do longa, os trechos voltam a aparecer em um encontro dos membros da KKK, quando se divertem com a violência moral e física destinada às pessoas negras na película. Sobre a cena, o ator Adam Driver comenta o desconforto com a situação, assim como o momento em que precisa utilizar a veste dos associados: “colocar o capuz da KKK é difícil porque você entende o que é aquilo. Quando você está usando as vestes, é algo tão longe daquilo que você acredita que não parece o certo a fazer.”

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E acredito que é nesse lugar que nós enquanto brancos precisamos estar. O lugar do desconforto. Ainda sobre o personagem de Adam Driver, importante ver a forma com que Zimmerman vai se percebendo durante o enredo. Quando Ron, que é um policial, repito: policial, é atacado por um colega de profissão por estar armado (repito: um policial negro é atacado por um policial branco por estar portando uma arma), é necessário a chegada de um outro policial branco para legitimar sua profissão. Aqui é impossível não comentar a cena tão repleta de significados quando Philip retira as algemas e Ron acusa sem grande estardalhaço: “você está atrasado”. Os poucos segundos da câmera em Adam Driver talvez fomentem sua indicação a ator coadjuvante (embora tenha muito apreço pelo ator, resta dúvidas se a estatueta seria merecida), já que ali o homem entende que a profundidade da fala do companheiro vai além de um ou dois minutos que levou para chegar e libertar Ron. Nós estamos atrasados.

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Diferente do que esperam as pessoas que sempre esperam happy endings, a frustração com o desfecho da investigação não poderia ser diferente: parabéns por tudo que vocês fizeram, vocês são ótimos em suas funções. Agora vamos encerrar as investigações por corte no orçamento e peço que apaguem todos os registros do que fizeram até aqui. Nós estamos atrasados.

Preocupada em escrever esse texto, fiz algumas enquetes sobre o que as pessoas acharam do filme nas redes sociais e as chances de levar a principal estatueta da noite do Oscar. Dentre as respostas obtidas, uma em especial me toca pela profundidade em dizer absolutamente nada: “o filme não me emocionou”. Não acredito que caiba a mim embasar o discurso de emoção causado ou não pelo filme. Não vejo como meu lugar. No entanto, também não vejo justiça em um filme que nos leva a tantos lugares e reflexões, a queixa de não ter arrancado algumas lágrimas em pessoas que nem necessariamente são oprimidas pelo contexto abordado. Se nós estamos atrasados até na indicação de Spike Lee ao Oscar, imagine quanto ao resto.

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Nos últimos minutos, o longa atinge seu ápice ao complementar a cena ficcional de uma cruz sendo incendiada a registros da manifestação de Charllotesville 2017, onde pessoas gritam que “vidas brancas importam”. Aqui já não se trata de ficção ou de 1980. As filmagens são de 2017, são do atual presidente dos Estados Unidos. Nós estamos atrasados, bem-vindos a potência de incomodo que esse filme causa. E contar que a última cena trata-se da bandeira dos Estados Unidos de ponta cabeça não é um spoiler se você está vivo em 2019 e tem o mínimo acesso a informação. Nós estamos atrasados.

Confira o trailer:

 

FICHA TÉCNICA:

BlackKksman

Direção: Spike Lee

Elenco: John David Washington, Adam Driver, Topher Grace etc.

Nacionalidades: EUA

Duração: 2h 16min

COMO ASSISTIR (SP):

Em cartaz em salas de redes como Kinoplex, PlayArte, Espaço Itaú de Cinema, etc.

CATEGORIAS INDICADAS NO OSCAR 2019:

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*Beatriz Farias

Estudante de artes, estagiária de moda sustentável, escrava de Armazém de Cultura, Beatriz Farias ainda não é formada, ainda não tem curso superior e segue sem vergonha de falar de si em terceira pessoa. Gosta de gostar das coisas mas descobriu nos últimos anos que olhar criticamente para o mundo é também uma forma de amar e mudar as coisas.

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