#Oscar2019

Roma: o que acontece quando não está acontecendo nada

*Por Meiri Farias

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Dia desses, Lara, a cachorra lá de casa, teve a deselegância de fazer suas necessidades bem no meio do quintal, na passagem, sem chance de desvio. Resignada pela falta de opção, peguei uma pá e o balde de água e me preparei para a limpeza ingrata. Quando a água começou a escorrer pelo quintal, foi impossível não lembrar da cena de abertura de Roma.

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O cocô de cachorro, deve ser uma metáfora para tudo que está dando errado na vida daquela família, mas bem poderia ser sobre a nossa vida também. Roma é basicamente a historia de uma empregada e sua vida em torno da família que serve, na Cidade do Mexico dos anos 1970. Cleo (Yalitza Aparicio), a jovem protagonista, é uma moça silenciosa e servil, de origem indígena do estado de Oaxaca.  A vida da personagem é simples e sem grandes aspirações, quase totalmente voltada a  cuidar de uma casa eternamente caótica no bairro de classe média Roma, sempre atenta às necessidades de seus patrões. Um casal em ruínas, crianças barulhentas que tudo querem, tudo pedem, tudo ordenam.

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Aclamado pela crítica, com fortes chances nas principais categorias do Oscar 2019, Roma é definitivamente um filme que não passa batido. O longa de Alfonso Cuarón (Y tu mama también, Gravidade, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban), diretor, produtor e também está envolvido na fotografia e edição, mas é preciso mencionar o que o filme é para ele também. Com um olhar agridoce para a cidade, Roma traz em seu enredo um pouco da história de Cuarón. O diretor dedicou o longa a Liboria Rodríguez, que foi empregada de sua família, no bairro homônimo, a “sua” Cleo. Roma e uma história íntima e com resquícios autobiográficos. Uma historia extremamente pessoal e, justamente por isso, absolutamente universal.

Roma é uma filme sobre gente, sobre um lugar e sobre sentimentos subjetivos que nem sempre são fáceis de entender, aceitar ou conviver. É um filme grandioso, emocional e cativante, mas ainda assim controverso e incômodo. De forma bem pessoal, porque afinal é justamente disso que se trata, acredito que seja um dos melhores filmes que já vi e certamente ficará martelando a minha cabeça por um par de anos, no mínimo. Cuarón sabe contar historias de maneira singular. A fotografia é impecável, ser em preto e branco dita a atmosfera de forma muito específica, os personagens são profundos e tridimensionais e há algo em Roma que é muito presente em outros títulos do diretor, como Y tu mama también, por exemplo: a capacidade de mostrar sem falar. Da mesma maneira que vemos uma infinidade de cenas peculiares e incômodas na road trip aparentemente banal do filme de 2001, em Roma vemos diversas cenas em segundo plano que poderiam compor um filme completamente distinto da historia de Cleo, mas estão lá, acontecendo. E incomodando. As cenas de protesto são um exemplo, mas não só. É o que acontece quando não esta acontecendo nada.

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É importante pensar também em como a personalidade das personagens principais dialoga entre si, principalmente no que diz respeito as duas mulheres que tem sua história mais expostas, Cleo e a patroa Sofia (Marina de Tavira). A mulher de classe média, símbolo claro de opressão na historia da protagonista, é mais uma mulher sujeita a dinâmica cruel de um sistema patriarcal. Abandonada pelo marido, tendo que cuidar de quatro crianças que pensam que o pai está viajando, Sofia também está lidando com coisas demais e, se essa fosse a sua história individual, seria ainda mais fácil ser solidária a ela. Mas Cleo está em uma situação de vulnerabilidade infinitamente maior e, diferente da patroa, sem grandes perspectivas de emancipação. Ainda assim, é um retrato duro de como ser mulher sempre nos jogará em um espaço cruel de opressão, independente da classe social.

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As duas mulheres são abandonadas pelos homens que deveriam ser seus companheiros no momento que mais necessitam e as três cenas mais marcantes das personagens acontecem em função disso: Para Sofia, quando o marido está indo embora e ela o abraça. E aquele momento “fotografavel”, dolorido e imensamente bonito de se assistir. Para Cleo, quando após engravidar e ser abandonada pelo namorado, perde a criança durante um ataque a uma manifestação de estudantes (onde o antigo namorado está no grupo atacante). Por fim, a cena clímax do filme, quando personagem salva os filhos da patroa de um afogamento no mar e admite de forma culpada e catártica que não queria o nascimento da criança.

Além de um incômodo criativo, que instiga positivamente, há outro incômodo para qual ainda não consegui encontrar uma conclusão. Roma é a história de uma empregada e mostra claramente as dinâmicas de classe, de poder e até de submissão. Mas é um pouco difícil sentir rancor da família, quando Cleo olha tão amorosamente para eles. E isso incomoda, por que a crítica fica em um limbo de mea culpa e condescendência, justamente porque o filme é baseado na própria experiência do diretor. Há um sentimento de “ok, é ruim e errado que uma pessoa seja relegada a este tratamento servil, mas olha como eles se importam com ela! Como eles realmente gostam dela!” pelo menos até o próximo ”Cléo me traz um lanche”. É difícil não lembrar da nossa versão brasileira desse conflito, tão recente e fresco na memória, Que Horas Ela Volta, da diretora Anna Muylaert, que apresenta uma premissa semelhante a de Roma, com uma perspectiva mais crítica e o final com uma proposta mais emancipatória, que não é visto no filme de Cuarón.

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Mas não existe 8 e 80 e há uma área cinza muito mais complexa em tudo isso, afinal o “buraco é muito mais embaixo” quando pensamos nas relações humanas. No fim, não sabemos o que acontece no dia seguinte de Que horas ela volta. Sabemos que Val “quebra as regras”, entra na piscina. Que sua filha pobre entra na universidade e o filho privilegiado da patroa não, que existe um depois que evoca futuro e mudança. Mas e o depois do depois? Sera que a Val não será mais doméstica? Ou vai passar a odiar aquela família? É quase certo que não, embora algum tipo de rancor possa continuar na superfície. O mais provável é que ela mantenha algum tipo de afeto por aquelas pessoas, por mais complicada que seja essa dinâmica.

Para além do enredo ficcional, Roma vem suscitando debates paralelos e necessários, como os aspectos mercadológicos que rondam a produção atual de cinema. Com estréia diretamente no Netflix, o filme de Cuarón inova ao usar uma plataforma de streaming como ferramenta de distribuição de seu filme, gerando opiniões controversas (o que não foi problema para o Oscar, mas sim para Cannes, que cortou Roma da mostra competitiva, aparentemente por uma imposição dos distribuidores tradicionais). O longa também ficou em cartaz em um número reduzido de salas de cinema, por tempo limitado, mas o esforço de promoção certamente foi centrado no streaming. Ao ver o êxito de crítica (e infelizmente não é possível avaliar de publico, já que a Netflix não divulga números), é interessante pensar em como as mudanças de comportamento no consumo de conteúdo estão afetando a produção dos mesmos. Mas isso é papo para outra hora, porque há outros debates que urgem.

Roma é um filme latino-americano, falando em espanhol com mixteca e também está submetido a um escrutínio que nada tem a ver com a distribuição pura e simplesmente, mas principalmente com um olhar sociocultural hegemônico europeu, norte-americano “hemisfério norte” de mundo. Para ser exibido  na Espanha, Roma recebeu legendas em um espanhol europeu. E não, não estamos falando dos momentos em que o idioma mixteca é utilizado, pois nesse caso já seria esperado, mas durante todo o filme, o castelhano mexicano precisou de “tradução” para ser aproveitado pela audiência do colonizador. E sem contar as adaptações incoerentes, como traduzir “mamá” como “madre”. É ofensivo.

Além disso, o filme expôs as próprias desigualdades internas na produção artística do México. A ótima Yalitza Aparicio, que interpreta Cleo, vem sofrendo ataques de atores e atrizes mexicanos que não concordam com sua indicação ao Oscar de melhor atriz. Yalitzia, que nunca trabalhou com cinema anteriormente, e era professora no povoado Tlaxiaco de Oaxaca. Os comentários odiosos sobre sua indicação não a reconhecem como atriz ou focam em desqualificar sua aparência. Não vou aprofundar nesse tópico específico, mas vale a pena ler e refletir sobre o que estamos pensando, sobre as pessoas e nós mesmos.

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Roma é um filme latino-americano, repito. Um filme que expõe características intrínsecas da nossa identidade e que precisam ser expostos em suas contradições. É ainda uma obra de resistência para a produção mexicana, frente a um tempo de perseguição e embate com a política preconceituosa e restritiva de Donald Trump nos Estados Unidos. Se ganhar o prêmio principal da noite ou o de melhor diretor para Cuarón, será um posicionamento da Academia que envolve, obviamente, o mérito criativo e o resultado excepcional do longa, mas também um ato de resistência política.

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Roma é a historia de Cleo, limpando o cocô do cachorro que sujou os pneus do carro do patrão, que enfureceu a patroa abandonada, mas também é um espelho das nossas sujeiras necessárias e não exploradas. Acredito que Roma é mais realisticamente a vida que segue pós Que horas ela volta, para bem ou para mal. Há símbolos de opressão, há uma condescendência incômoda e uma obra memorável e lindamente executada. E ainda não há respostas claras para mim. Tudo bem, acho que a arte está aí para fazer as perguntas. Responder é um processo que a gente busca enquanto vai vivendo, pensando e limpando o cocô do cachorro.

Confira o trailer:

 

FICHA TÉCNICA:

Roma

Direção: Alfonso Cuarón

Elenco: Yalitza Aparicio, Marina de Tavira, Nancy García etc.

Nacionalidades: MEX

Duração: 2h 15min

COMO ASSISTIR:

Filme disponível no Netflix

CATEGORIAS INDICADAS NO OSCAR 2019:

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 *Meiri Farias

Café, música e quadrinhos são combustíveis para o que você encontra aqui. Jornalista pós-graduanda em Mídia, Informação e Cultura, com experiência em programação não-linear (VoD), produção de conteúdo e comunicação coorporativa, Meiri Farias é paulistana convicta e contraditória, latino-americana em descoberta e adora falar sobre isso. Tomando café, obviamente.

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