#Oscar2019

Vice: a arbitrariedade da servidão ao poder

“Cuidado com o homem calado, pois enquanto os outros falam, ele observa. E enquanto os outros agem, ele planeja. E quando finalmente descansam, ele ataca…” (Anônimo)

*Por Talita Guimarães

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Uma longa narrativa sobre o fervor ao poder. Assim é Vice (2018), comédia dramática de Adam McKay, inteligente e necessária sim, mas superestimada para a corrida a oito estatuetas no Oscar 2019, incluindo a de Melhor Filme.

Embora não se destaque pela estética ou pela ousadia, o longa metragem de 132 min se sustenta pelas interpretações consistentes de seu elenco estelar que traz Christian Bale no papel principal de Dick Cheney, Amy Adams como a esposa Lynne Vincent, Steve Carell como o político Donald Rumsfield e Sam Rockwell como George W. Bush que convencem nos respectivos papéis e impressionam pela semelhança com os personagens reais que representam.

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Enquanto a crítica se divide entre louvar uma abordagem criativa, engraçada e ácida para biografar um personagem impopular como o vice-presidente dos Estados Unidos, responsável por deflagrar guerras, ocultar documentos, manipular leis para autorizar tortura e rearticular grande parte das políticas externas do governo George Bush (2001-2009), há quem como eu sinta enfado e irritação durante as mais de duas horas na companhia de personalidades tão desprezíveis, cuja escalada ao poder se dá por uma doentia habilidade em fazer as ideias mais maníacas e extremadas soarem como políticas de governo coerentes e profissionais. E o pior: exequíveis e alienantes.

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Por meio de diálogos debochados e montagens irônicas para ilustrar a narração analítica feita por um cidadão comum chamado Kurt, cuja relação com o protagonista só é revelada na parte final do filme, conhecemos o empresário e político republicano Dick Cheney e seu modus operandi como servo devotado ao poder.

Toda a primeira metade do filme enumera sua jornada ascendente por cargos públicos desde seu ingresso como estagiário do deputado Donald Rumsfield (Steve Carell) no congresso, com quem faz escola ao aprender sobre os bastidores do jogo político em cenas que não perdem a chance de expressar a mania de grandeza dos Estados Unidos em se identificar como a nação mais poderosa do mundo, de onde decisões de impacto global saem e toda aquela ladainha patriótica presente nos diálogos de antessalas e gabinetes institucionais.

Rapidamente, Cheney demonstra habilidade para lidar com conchavos, indo de aprendiz de Rumsfield à Chefe de Gabinete da Presidência, experiência passageira, pois com a derrota do presidente Gerald Ford (vice que assume o país quando Richard Nixon renuncia após o escândalo de Watergate), Cheney perde seu posto na chefia de gabinete e tenta recuperar alguma posição de poder disputando uma vaga para o congresso.

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Nesse ponto, vale destacar o papel da esposa durante toda a vida política de Cheney. Com intervenções contundentes e opiniões sólidas, a Lynne Vincent de Amy Adams brilha ao protagonizar cenas de igual para igual com o Dick Cheney de Christian Bale, ora chamando-o para a razão no começo do filme quando o enquadra a tomar juízo e largar o vício em álcool e confusão, ora repreendendo seu trato bobo com as filhas crianças quando Cheney confirma que seria uma espécie de elfo do papai noel na cena em que assume a chefia de gabinete presidencial e a família se reúne em sua nova e espaçosa sala na Casa Branca (“Se for bobo com ela, ela será uma mulher boba”, replica Lynne e acrescenta séria para que as filhas conheçam a realidade: “Não, ele não é [como um elfo do papai noel], Mary. Seu pai é chefe de gabinete. Chefe de gabinete.”). Ou ainda quando assume a frente na divulgação da candidatura do marido ao congresso na ocasião em que Dick sofre um infarto e precisa se afastar das funções para repouso.

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Seguindo o baile, Vice retrata um país continuamente dividido entre o conservadorismo dos republicanos representados por Cheney e os democratas alinhados à esquerda progressista. Quando o republicano Ronald Reagan é alçado à presidência, Dick Cheney já como congressista joga a favor do governo e se aproxima do Vice-Presidente George H. W. Bush, que em um evento social o agradece por votar a favor da imprensa de opinião, alteração na lei que com os anos mudaria significativamente o perfil do jornalismo norte-americano, colocando a informação à serviço dos interesses da direita.

Nessa sequência, o casal Cheney saboreia o poder acumulado enquanto cumprimenta as autoridades presentes e desfruta dos olhares de admiração, inveja e temor. “Metade do salão quer ser nós, e a outra metade nos teme”, sussurra Lynne ao pé do ouvido do marido. Minutos antes, Bush pai precisara se afastar para conter os danos da cena que um jovem George W. Bush completamente embriagado armara no meio da festa. O casal se entreolha e revela sua descrença pelo futuro do rapaz ao defini-lo como a ovelha negra da família.

Em seguida, o filme estabelece um link infeliz entre os problemas familiares do vice-presidente aos da família Cheney quando insere a cena em que Mary já adolescente sofre um acidente ao sair intempestivamente da escola. No hospital, a jovem revela aos pais que é lésbica e fugira porque a suposta melhor amiga, na verdade sua namorada, rompera com ela. Enquanto o filme mostra um Dick que aceita de imediato a orientação sexual da filha e reafirma seu amor por ela, apresenta uma Lynne decepcionada, que vaticina que as coisas serão difíceis para Mary.

Enquanto isso, no campo do poder, Bush pai se elege presidente e leva Cheney para a Secretaria de Defesa, o que o coloca como sexto na linha de sucessão presidencial. Anos depois, Dick avalia concorrer a presidência, mas hesita tanto por estar em último nas pesquisas quanto por medo de ter sua imagem desgastada por uma possível perseguição a sua filha homossexual, uma vez que entre o eleitorado republicano as pautas baseadas em valores tradicionais prevalecem, o que o faz desistir da política temporariamente e se dedicar ao setor privado como CEO de uma gigante petrolífera.

Nesse ponto, o filme tanta fazer graça ao jogar com o espectador, mostrando uma sucessão de informações biográficas que rapidamente fazem parecer que o casal Cheney saiu da vida pública e política em nome da defesa da privacidade da filha e do bem-estar da família. A produção chega a fazer subirem os créditos do filme exibido até ali. Mas antes mesmo da música de final feliz terminar um telefone toca e somos levados de volta ao hall dos Cheney na manhã do domingo em que Dick é convidado para ser vice na campanha à presidência de George W. Bush. Enquanto Lynne se opõe por crer a vice-presidência um trabalho nulo, Dick diz que pelo menos ouvirá a proposta em respeito ao Bush pai. Claro que após algumas negociações e acordos, o veterano Cheney consegue do impulsivo e imaturo George Bush as cartas brancas que deseja para aí sim tirar vantagem do convite para a vice-presidência, garantindo para si um território de poder em que suas jogadas pesariam nas decisões finais sem que sua atuação estivesse em evidência e prejudicasse os interesses particulares que outrora o fizeram declinar da disputa à presidência.

A segunda metade do filme desfia a demonstração de um perfil político frio e engenhoso, lapidado durante décadas de experiências nos bastidores do poder, dando conta de quem é quem no jogo político e de como as tomadas de decisão funcionam. Logo nas primeiras cenas como Vice-Presidente, Dick Cheney mostra a que veio em uma reunião com uma enxuta equipe gerencial que terá acesso irrestrito a agenda e às pautas tratadas pelo Presidente, dando a entender quem comanda realmente o barco.

Prova disso são as sucessivas salas que Cheney arrebata pelos órgãos que o interessam, marcando uma presença inédita para um vice até então. Câmara, Senado, Pentágono, CIA, grupos anti-impostos. Cheney está em todo lugar, dando conta de todos os movimentos e se imbuindo de influenciá-los a seu favor.

Nesse contexto, Adam Mckay direciona seu filme para que compreendamos o grau de manipulação a que Cheney recorre para que os poderes público e privado se articulem pelos mesmos interesses. Quando o fatídico 11 de setembro irrompe no calendário global, com a tragédia das torres gêmeas bombardeadas desencadeando uma onda de pavor e dúvida nacional sobre contra quem se revoltar e combater, é Cheney quem articula o comando para a Guerra ao Terror com base em informações manipuladas por uma agressiva pesquisa com grupos focais a fim de entender que tipo de abordagem o povo americano apoiaria. Ao se encarregar de incutir o desejo de punição aos culpados pelos atentados na mente das pessoas, nomeando o adversário e situando-o no mapa, o governo conquista aprovação às invasões no oriente médio que lhe suprem, acima de tudo interesses comerciais, como a exploração de petróleo, por exemplo.

Contudo a história mostra que nem todas as estratégias se mantiveram sob controle, de modo que os tiros começam a sair pela culatra quando a fama exagerada conferida a terroristas que o próprio governo fora alertado não representarem ameaça real devido à falta de confirmação das informações obtidas, os fortalece e encoraja à honrar os rótulos de inimigos dos EUA, com ações imprevistas de impacto inesperado.

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Com a sucessão de erros vindo à tona, o governo Bush se enfraquece, assim como o até então discreto Cheney se torna impopular. Mas como não fazia parte de seu perfil se desculpar, quando confrontado pela imprensa responde com total desprezo pela opinião popular quanto a sua pessoa, discursando sobre o trabalho sujo que alguém na sua posição teria que fazer para manter a população segura e devolvendo para o povo a culpa por ter pedido exatamente o que ele fez.

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Se por um lado Vice não enaltece a jornada de seu “herói”, sua crítica por meio de um humor debochado adota um caminho irregular, com intervenções estéticas simplórias como as relações entre paciência e pescaria ou ambição e uma torre de xícaras e pires empilhados, para humanizar uma figura polêmica ao mesmo tempo em que lhe confere extrema importância e aqui ou ali zomba dela, para se safar da admiração.

Se levarmos em conta que a divisão entre conservadores e progressistas trata as mesmas pautas com opiniões e interpretações diametralmente opostas, Vice se situa entre o alerta acerca da alienação a que a população é submetida durante o jogo político e a exaltação do poderio norte-americano sobre o mundo. Ainda que Adam Mckay tenha a seu favor uma assinatura totalmente ciente dos caminhos reprováveis e perversos adotados por seu biografado para impor a força hegemônica estadunidense.

Confira o trailer:

 

FICHA TÉCNICA:

Vice

Direção: Adam McKay

Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell etc.

Nacionalidades: EUA

Duração: 2h 14min

COMO ASSISTIR (SP):

Em cartaz em salas de redes como Cinermark, Kinoplex, PlayArte, Espaço Itaú de Cinema, Reserva Cultural, etc.

 CATEGORIAS INDICADAS NO OSCAR 2019:

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*Talita Guimarães

É jornalista e escritora, autora do livro infanto-juvenil Vila Tulipa (2017), Prêmio Odylo Costa Filho no XXX Concurso Literário e Artístico Cidade de São Luís e em 2016 lançou Recorte!, livro de crônicas.

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