Cotidianas

RÁDIO YANDÊ: Retomada, resistência e representatividade

*Por Meiri Farias

*As entrevistas e redação original da reportagem foram realizadas em janeiro de 2018 durante a realização de uma atividade para o curso especialização de Mídia, Informação e Cultura, no Celacc – USP (Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação). Após a conclusão do curso em abril de 2019, refleti que esse conteúdo é relevante demais para ficar restrito a avaliação privada da Universidade e resolvi compartilhar com vocês.

RETOMADA, RESISTÊNCIA E REPRESENTATIVIDADE

Retomada, resistência, representatividade. A ação, o estado e o objetivo. Assim vivem as mais de 900 mil pessoas que se declaram indígenas no Brasil, 57,7% vivendo em terras oficialmente reconhecidas. A população indígena no Brasil é diversa, heterogênea não é vista e não se vê, já que não existe a preocupação na história, na educação e na mídia hegemônica de mostrar todas as nuances dessa pluralidade de culturas ou apresentar personagens de real identificação para essas populações.

É para ajudar a mudar esse cenário que a Rádio Yandê existe. O nome da web rádio criada em 2013, que tem origem Tupi, significa “nós”, “nosso” e sintetiza a vocação de ser um espaço de acolhida e representatividade para os povos indígenas. “É para ser o meio de que qualquer indígena passa falar ‘é o meu espaço onde eu tenho voz, onde eu tenho condições de estar junto, de ajudar e de participar’”, explica Denilson, publicitário de etnia Baniwa e um dos fundadores da Yandê.

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Logotipo da Rádio Yandê

Feita por e para indígenas, um dos pontos de partida da Yandê é incentivar a autovalorização do indígena. Denilson Baniwa aponta que na América Latina a população indígena tem uma autoestima muito baixa e nesse cenário, a rádio surge como uma ferramenta educativa no sentido de apresentar o potencial dessas pessoas. “A gente não entende o tanto que a gente é capaz, sabe? E a rádio ela tem esse papel de mostrar o quanto de coisa legal que indígena está fazendo no Brasil”, conta Denilson, explicando que o jovem que ouve a rádio ou que acessa o conteúdo disponível no blog conhece a história de indígenas que são médicos, professores, advogados, músicos, cineastas, etc. “A importância da rádio para as populações indígenas, é para elas olharem alguém que se parecem com elas, que falem com elas, que tenham o mesmo biótipo, as mesmas características e que, ‘estão fazendo coisas importantes para o mundo.’”

Denilson conta que sempre escuta em várias aldeias jovens e crianças que querem ser músicos, que gostam de hip hop, por exemplo, mas que não imaginavam poder fazer isso na própria língua. E ao ouvir um Guarani cantando rap em Guarani para de pensar que apenas o branco pode produzir esse tipo de música. Incentivar a população indígena a ser quem quiser ser, ser uma espécie de “espelho”, “onde qualquer indígena no Brasil possa olhar e se reconhecer”, esse é o principal objetivo da rádio Yandê.

 

TRADIÇÃO ORAL

Na publicação “Entre tradições orais e registros da oralidade indígena”, Eva Gutjahr, pesquisadora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH – USP), descreve tradição oral como a transmissão de saberes e práticas através da “boca e da orelha” e da “mão e da voz”. Para a autora, um dos motes da narração é passar (e repassar) as experiências vividas no dia a dia, difundi-las e socializá-las no interior dos grupos sociais. Para as comunidades indígenas, a narração oral serve para agregar memórias, difundir tradição e proporcionar reconhecimento.

Para a Yandê, a escolha da ferramenta não poderia deixar de levar em conta esse fator. “A escolha do formato de rádio foi justamente da identidade de comunicação indígena, que é muito baseado em oralidade”, explica Denilson. Da transmissão de conhecimento por meio da fala, até a facilidade de fazer download dos conteúdos e levar para as aldeias, o formato de web rádio permite que a comunicação com as comunidades seja muito mais acessível. Denilson destaca que, embora a maioria das populações indígenas compreendam bem o português, nem todos sabem ler e escrever. Assim, o áudio facilita a comunicação, inclusive com notícias e conteúdos no idioma específico de diversas etnias.

 

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Denilson Baniwa – Foto: Página oficial da Rádio Yandê

O ponto de partida oficial da rádio Yandê foi em novembro de 2013, com o encontro de Denilson, Anápuáka Tupinambá e Renata Tupinambá, todos com experiências anteriores com outros projetos de jornalismo e comunicação. Denilson, que é do Amazonas e vivia em Manaus, já conhecia a Renata pelo Orkut, por meio de grupos de discussão sobre juventude indígena, e conheceu Anápuáka por intermédio da jornalista. Nessa época, Denilson foi estudar publicidade no Rio de Janeiro, onde os outros dois viviam e nasceu a discussão sobre como o indígena é visto ou exposto dentro da mídia.  “Quase sempre invisível e quando aparece é de uma maneira bem estereotipada e bem preconceituosa”, explica. “A maioria dos indígenas não leem o jornal como o Estado de São Paulo, a Folha de São Paulo, eles querem ler uma coisa que se pareça mais com o que eles falam.”

Em 2013, com os casos de violência contra os Guarani-Kaiowá, a demanda por um meio de comunicação legitimamente indígena se tornou mais visível e nasce a rádio Yandê, para noticiar aquilo que não está na pauta da mídia hegemônica. “Globo não está interessada em mostrar a luta indígena. A Globo está interessada em alguém que venda mais a Globo, sabe?”, reflete. Canal no YouTube, jornais em PDF, página no Facebook foram algumas das opções cogitadas, mas a rádio pela web juntamente com um blog com notícias foram os formatos escolhidos. A experiência de Denilson e Anápuáka com rádio voluntária e comercial e a de Renata com redação também foram fatores que influenciaram a escolha. Denilson conta que nesse período tiveram contato com estudos e experiências de indígenas da América do Norte, onde a comunicação indígena já é mais consolidada, com emissoras de televisão, rádio, jornais, etc.

Atualmente a rádio Yandê conta com mais de 80 colaboradores esporádicos por todo país, além de nove correspondentes fixos. É por intermédio dessas pessoas, sempre indígenas, que é possível ter acesso às comunidades e levantar uma base de informações sobre diferentes aldeias. Entre as principais dificuldades estão dinheiro e questões estruturais, já que a rádio não recebe nenhum tipo de patrocínio atualmente. Com um edital de mídias livres foi possível adquirir equipamentos e atualmente é com uma lojinha de produtos com a marca Yandê que é possível pagar as despesas do streaming da rádio e do site.

Da parte da audiência, o problema é estrutural. Muitas aldeias não têm acesso a internet ou apenas se conecta por meio de internet 3G. Em muitos casos, alguns indígenas que precisam ir à cidade por algum motivo aproveitam para fazer o download do conteúdo, salvar em pen drive e levar para sua comunidade.

Ainda assim, o feedback é positivo. Denilson conta que o que mais escuta nas comunidades é como é necessário ter formas de comunicação indígena e sempre recebe incentivo para continuar. “Inclusive a gente recebe muita mensagem de outros indígenas que, por terem conhecido a rádio Yandê, estão construindo seus próprios meios de comunicação dentro dos seus locais”, conta, exemplificando com mídias que misturam outros modelos de comunicação como o Mídia Índia, que também reúne referências do Mídia Ninja. “Tem rádios indígenas em várias partes do Brasil hoje que tiveram a vontade de começar a trabalhar a partir da rádio Yandê e isso pra gente é bem legal.”

 

ONDE ESTAMOS?

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir ou deixa de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.  (Trecho da carta de Pero Vaz de Caminha a corte portuguesa)”

O primeiro relato sobre os povos nativos que os portugueses encontraram ao chegar na “terra de Santa Cruz” parece ter estabelecido um precedente para a mídia hegemônica que pouco mudou em mais de 500 anos. Marcada pela invisibilidade e estereótipos, a mídia pode ser um agente de proliferação de preconceitos. Ao apresentar o “índio” como um só povo, genérico e sem diversidade, a multiplicidade de culturas é esvaziada. Denilson critica o posicionamento de alguns veículos jornalísticos que, em eventos indígenas, procuram entrevistar pessoas brancas como se o indígena não tivesse capacidade de explicar sobre assuntos relacionados a suas comunidades. Ainda mais problemático é uso de palavras que indicam confronto ou violência da parte das comunidades indígenas em casos relacionados a reivindicação e demarcação de terra. “Nos jornais é colocado como invasão, violência indígena, invasores, bandidos. A gente sempre tenta tratar como ‘retomada’”, explica. “Retomada é uma palavra que a gente usa muito toda vez que um grupo indígena retoma o seu lugar de origem.”

Denilson destaca o caráter espiritual e de identidade da terra para o indígena, que não se trata de um número de hectares ou quilômetros de terra. “Para um povo indígena a sua terra detém inclusive tudo o que é possível para aquele povo se reconhecer como ser humano, como ser vivo.” É na ligação com a terra que se conhece os mitos e tradições de determinado povo. Suas histórias de criação, mitos dos povos ancestrais, locais de oração e rituais, lugar para plantar, para construir suas casas.

“Alguns clãs de Guaranis, por exemplo, eles só podem ser enterrados em um lugar, todos eles são enterrados naquele lugar. Porque lá é o lugar sagrado segundo o mito daquele clã”, explica. “Só que a maioria desses lugares hoje é fazenda sabe? E aí é uma ofensa para esse Guarani ser enterrado em outro lugar. É uma desonra para aquela família.” Denilson conta que vai muito além de um pedaço de terra para plantar e sobreviver, mas também são lugares para manter vivo o espírito de um povo. O modo com a qual se entendem como humanos.

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Foto: Página oficial da Rádio Yandê

 

REDE DE RESISTÊNCIA

A partir de 2016, a Yandê começou a estreitar laços com comunidades de outros países da América Latina. “Nossa ideia era realmente fazer esse intercâmbio, troca de experiências”, conta. “E acabou que a relação ficou tão grande assim, entre a gente da América Latina e também com Canadá e dos Estados Unidos, que criamos uma aba só de internacional”. No blog da rádio Yandê já é possível encontrar conteúdo em inglês e espanhol, além de conteúdos em idiomas de diversas etnias.

Denilson explica que o objetivo é realmente estabelecer uma rede de comunicadores indígenas pelo mundo, que se apoie e troque experiências, inclusive sobre o que é parecido na luta indígena em lugares diferentes. “A rádio tem esse papel de informar a algumas pessoas que aquele índio de 1500 não está mais parado em 1500”, explica, ressaltando como 500 anos de contato, violência, catequização influenciaram o que o indígena é hoje. “É o nível de conhecimento sobre as populações indígenas que o Brasil tem, que os índios residem no passado, como algo histórico, como algo que existiu. Mas que não cabe dentro do mundo atual.” E a rádio Yandê luta justamente por mostrar como essas comunidades continuam transmitindo suas tradições, mas em um contexto atual, trabalhando, estudando, criando. E resistindo.


Meiri Farias

Café, música e quadrinhos são combustíveis para o que você encontra aqui. Jornalista especialista em Mídia, Informação e Cultura, com experiência em programação não-linear (VoD), produção de conteúdo e comunicação coorporativa, Meiri Farias é paulistana convicta e contraditória, latino-americana em descoberta e adora falar sobre isso. Tomando café, obviamente.

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