Abre Aspas

Onde estão as Artistas Brasileiras?

Quadrinho, arte e memória com Aline Lemos

*Por Meiri Farias

PRÓLOGO

Um texto com um prólogo, vamos retomar ambiciosamente. Consideremos algumas situações recentes:

Situação 1: No último mês, a seleção brasileira feminina de futebol fez história, mesmo sem conseguir se classificar para as fases eliminatórias. Amplamente discutido na imprensa, o mundial feminino mobilizou a torcida massiva do povo brasileiro pela primeira vez. Para além da Marta e da Formiga, que já tinham nomes relativamente conhecidos do espectador, as mídias sociais ficaram repletas de vivas e incentivos a Debinha, Barbara, Monica, Ludmila e muitas outras. Escolinhas de futebol de bairro começaram a receber cada vez mais procura de garotas. Apesar de escutarmos com frequência sobre os marcos e prêmios recebidos por Marta, por que só agora estamos vendo mulher jogando futebol na TV aberta?

Situação 2: Estive de férias na Cidade do México em maio. Em uma viagem fascinante e emocional, passei sete dias pulando de museu em museu, conhecendo ruínas, bairros cheios de história e principalmente gente – abraçando o clichê – a maior riqueza cultural do país. Para além dos museus e monumentos absurdamente bem sinalizados, completos e com informações detalhadas, os mexicanos se comportam de forma cotidiana como receptáculo de sua história e cultura. Orgulhosamente me perguntavam se já conhecia tal e tal museu, indicavam lugares imperdíveis, ruas históricas, referências pré-hispânicas. Nos taxis, comércio, restaurantes. Quando retribuíam minha curiosidade, perguntando sobre o Brasil, sobre nossos indígenas, nossos movimentos de resistência política, nossos museus, me constrangia em perceber quão pouco interagimos com nossa história no dia a dia.

Situação 3: Ontem me peguei refletindo sobre a letra da canção Mulheres de Atenas, do Chico Buarque, e pensando na Grécia como um dos berços da civilização e uma metáfora para muitos dos nossos problemas contemporâneos. O povo que nos ensinou a política e a democracia, foi o povo que não considerou a mulher como cidadão. A sociedade grega era a base do sistema patriarcal: homens pensantes, filósofos debatendo na ágora, participando politicamente e vivendo publicamente. Da mulher pouco se sabe, apenas que vivia para a casa e para gerar os novos “filhos de Atenas”. Próprias do espaço privado, sem autonomia ou direito ao pensamento. Sem gosto ou vontade. Nem defeito, nem qualidade.*

Essas três situações ficaram martelando minha cabeça quando sentei para escrever esse texto. Resolvi deixar sair. Vamos ver onde elas se encontram.

 

QUANTAS ARTISTAS BRASILEIRAS VOCÊ CONHECE?

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A primeira frase da hq Artistas Brasileiras, de Aline Lemos, chega como uma flecha: “quantas artistas brasileiras você conhece?” Conseguiu responder sem esforço, de chofre? Eu não.

Mas talvez eu esteja enferrujada, não é? É só lembrar das aulas de história da arte na escola. Ui, vamos tentar outra vez. É só lembrar das aulas de história da arte na faculdade: Tarsila, Anita, Lygia Clark, e …? Se esforçar esticar um pouco para América Latina, vem Frida Khalo, Ana Mendieta, mas a lista vai minguando depressa, porque a realidade é que simplesmente não conhecemos a produção de artistas mulheres. Muito mais grave que isso, não nos foi dado a conhecer a história e a obra dessas mulheres.

É por isso que ler a hq de Aline foi um misto de entusiasmo, vergonha e revolta. O trabalho de arte e pesquisa da Aline se debruça sobre perfis de artistas brasileiras que nasceram até 1930. Não em uma relação de qualidade ou hierarquia para reforçar mitos sobre “talento” e “genialidade”, mas um breve recorte sobre a vasta produção nacional e sua diversidade geográfica, uma das características mais claramente identificável da obra. “Um dos princípios do projeto era dar um panorama diversificado da atuação das mulheres na arte brasileira, então fiz questão de procurar artistas de todas as regiões e contextos sociais diferentes”, explica Aline. A quadrinista comenta que para ela era importante discutir os contextos em que as artistas atuaram e os motivos pelos quais muitas foram esquecidas. “Acredito que temos uma carência de narrativas sobre essas e muitas outras personagens da nossa história, que sejam visibilizadas e celebradas de uma forma que a narrativa tradicional não fez.”

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A HQ é formada por breves perfis de cada artista, como a página acima sobre Mirian Inéz da Silva

Aline Lemos é uma ilustradora de Minas Gerais e publica quadrinhos independentes desde 2014. Mestre em história, com formação complementar em artes plásticas e design gráfico, Aline colaborou com publicações como o jornal Folha de S. Paulo, Zine XXX, Ladys Comics, etc. Artistas Brasileiras foi publicada em 2018 pela editora Miguilim. Essa é a segunda vez que conversamos com a Aline, a primeira entrevista você pode conferir aqui.

 

NAS PÁGINAS DOS LIVROS

Porém, na realidade, como todos sabemos, as coisas como estão e como estiveram, nas artes, bem como em centenas de outras áreas, são entediantes, opressivas e desestimulantes para todos aqueles que, como as mulheres, não tiveram a sorte de nascer brancos, preferencialmente classe média e acima de tudo homens. A culpa não está nos astros, em nossos hormônios, nos nossos ciclos menstruais ou em nosso vazio interior, mas sim em nossas instituições e em nossa educação, entendida como tudo o que acontece no momento que entramos nesse mundo cheio de significados, símbolos, signos e sinais. Na verdade, o milagre é, dadas as esmagadoras chances contra as mulheres ou negros, que muitos destes ainda tenham conseguido alcançar absoluta excelência em territórios de prerrogativa masculina e branca como a ciência, a política e as artes.

“Por que não houve grandes mulheres artistas?”

Linda Nochlin**

O entusiasmo com Artistas Brasileiras só aumentou a cada página, mas não posso seguir para o entusiasmo antes de explicar porque passei pela vergonha e a revolta. Como jornalista e alguém que sempre teve a arte presente (principalmente a pintura, já que meu pai sempre foi apaixonado pelo tema, ainda que sem conhecimento formal ou teórico sobre) é desorientador perceber que não sei o suficiente sobre a arte brasileira e principalmente a arte de mulheres brasileiras. É fácil citar movimentos europeus, classificar Impressionistas, expressionistas e surrealistas, mas quando se trata de Brasil, é quase impossível ir além dos modernistas e da semana de 1922. É constrangedor, mas é muito mais revoltante, porque se a história não chega até nós, e por algo acontece no caminho.

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Ao contar sobre seu projeto, Aline comenta que também passou a conhecer várias artistas somente durante a pesquisa. “Acredito que a memória e a história no Brasil ainda são limitadas pela visão eurocêntrica e masculinista, apesar de haver cada vez mais esforços para aprofundar e pluralizar nossa visão.”, reflete. “Foi um longo processo de exclusão das mulheres e outras minorias sociais dos espaços privilegiados de poder e cultura, incluindo a arte, e esse processo não se reverte sozinho.”

Mas como reverter esse processo, se no Brasil até o final do século XIX as mulheres sequer eram aceitas nas principais instituições de ensino do país? E hoje, ainda que as mulheres estejam presentes nos cursos de artes contemporâneas, o registro da produção de suas precursoras não consta na bibliografia básica do seu curso. E é claro que estamos discutindo um ambiente que já é privilegiado: se já é difícil para quem está em uma instituição de ensino universitário encontrar essas referências em suas pesquisas, imagina para o restante do país que sequer pode prosseguir os estudos? Como destaca Aline, “ainda é uma minoria da população que tem acesso a instituições superiores e as mulheres continuam enfrentando jornadas duplas de trabalho e uma cultura sexista.” Se a nossa cultura e memória são bens que independem de classe social, estudar arte e democratizar o estudo da arte desde a educação básica é um direito. Que esse estudo seja inclusivo, diverso e abrangente, talvez seja a resposta.

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Além dos perfis de cada artista, Aline apresenta tirinhas ficcionais de humor, que imaginam ou satirizam situações que essas artistas passavam

Em Artistas Brasileiras, Aline se preocupa em apresentar perfis variados, de regiões diferentes do país, sem hierarquizar e conferir relações de qualidade. Para a quadrinista, classificar as artistas como “melhores ou mais importantes” significaria que as outras eram menos importantes. “Seria insistir no erro da narrativa tradicional de que um artista é um gênio fora do seu tempo e que a única coisa que explica a sua visibilidade é o seu próprio ‘talento’, a mesma narrativa que exclui as mulheres da história”, explica.

 

MEMÓRIA E REGISTRO

A variedade geográfica em Artistas Brasileiras é levada a sério por Aline. Julieta de França (Belém-PA), Lídia Baís (Campo Grande – MS), Elisa Martins da Silveira (Teresina – PI) e Conceição dos Bugres (Polvilho de Santiago – RS) são só alguns dos exemplos de artistas retratadas em perfis biográficos ou tirinhas ficcionais que “aconteceram só na cabeça” de Aline, enquanto buscava se aproximar dessas personagens, como explica nas primeiras páginas de introduções da HQ.

Personagens já mais familiares do imaginário artístico brasileiro como Tarsila do Amaral e Anita Malfatti aparecem em diálogos divertidos e até satíricos, como ao relembrar da repercussão negativa das obras de Anita em textos de Monteiro Lobato. Formas, cores e outras referências fazem alusões às obras das próprias retratadas, como por exemplo a página de Lygia Clark, que faz referência a obra Bichos.

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Página sobre Lygia Clark faz referência a obra “Bichos”

Aline explica que mais difícil que levantar as informações, foi organizá-las e transformá-las em uma narrativa relevante. Embora certamente tenha sido mais difícil encontrar informações sobre artistas que não fossem brancas, escolarizadas e do eixo centro-sul: “A tarefa do pesquisador é ir além e buscar essas informações, ou isso nunca será corrigido.” A artista conta que começou o projeto já em 2016 e para cada quadrinho passava alguns dias lendo, reunindo informações e pensando no roteiro. O projeto é muito rico bibliograficamente e ao fim da HQ estão listadas as referências consultadas. “Foi um desafio grande resumir as informações em apenas uma página. Cada artista podia virar um livro inteiro!”, comenta. “Eu entendi com o processo que não se tratava de dizer tudo, mas de ressaltar alguns pontos que eu escolhi como interessantes para entender nossa história e a atuação das mulheres nela.”

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A artista mineira destaca que foi um grande aprendizado estar em contato com a história dessas artistas que atuaram em áreas tão diferentes. “Me impactaram muito os trabalhos bordados da Madalena Santos Reinbold, só depois de ter desenhado o quadrinho eu tive a oportunidade de vê-los pessoalmente no Museu Afro Brasil e fiquei muito emocionada.” Aline ainda cita a história de Yêdamaria, artista baiana, que estudou nos Estados Unidos, onde deixou uma representação de Iemanjá, desafiando o preconceito da instituição e de Pagu e sua atuação com quadrinhos políticos de humor. “E fiquei surpresa em descobrir que Angelo Agostini, um artista muito relevante pra história dos quadrinhos no país, teve um relacionamento extraconjugal com uma artista que foi sua aluna, Abigail de Andrade.” Enquanto Abigail sofreu as consequências e não pode seguir sua carreira no país, Angelo não apenas pode retomá-la, como decidiu não criar a filha, Angelina Agostini (que também se tornou uma artista). Atualmente é impossível estudar história das histórias em quadrinhos, sem lembrar de Agostini. Lamentavelmente sequer conhecíamos Abgail e Angelina.

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Impressionistas, históricas, modernas, abstratas, art noveau. Na arte plástica, na escultura, na cerâmica, ou desenvolvendo toda uma técnica de tingimento com  areia, como é o caso de Goiandira do Couto, o fato é que as artistas brasileiras pintam o país de todas as formas e perspectivas. E já passou a hora de honrarmos sua memória e devolver ao país o registro de sua cultura.

 

EPÍLOGO

Uma quarta e última situação aleatória: na última sexta minha irmã leu para mim uma publicação do deputado Marcelo Freixo no Instagram. O contexto (parabenizar o ator Wagner Moura por seu aniversário) não é relevante para o nosso tema, mas uma frase que usou para falar de arte sobre o trabalho do ator me pareceu muito interessante: “a arte como instrumento de transformação da vida.” A arte pode ser instrumento de transformação da vida?

Edgar Morin, sociólogo e filósofo francês, afirma que a cultura se constitui de um sistema complexo de normas, símbolos, mitos e imagens que penetram a intimidade dos indivíduos, estruturam seus instintos e orientam suas emoções. Morin explica que a cultura fornece pontos de apoio imaginários à vida prática, alimenta esse “semirreal”, que cada um preserva dentro de si, sua personalidade.*** A cultura oferece pontos de referência, um espaço de ancoragem, uma espécie de espelho coletivo onde buscamos aquilo que nos reflete como indivíduos

Por isso fiquei pensando tanto nas garotas que demoraram tanto até conseguir ver outras garotas jogando futebol na televisão. Eu nunca gostei muito de futebol, mas talvez seja porque eu nunca soube que podia. Não cogitei me tornar pintora, mas talvez seja porque não soube que era permitido. Essa é a relevância de bater outra vez nessa tecla e insistir outra e outra vez no quanto é importante a diversidade de representação em todos os espaços da cultura.

E que essa representação seja registrada, compartilhada e celebrada, para que possamos ter orgulho da nossa história com os mexicanos que conheci em maio.

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Essa é a minha ilustração favorita da HQ! Nair de Tefé foi cartunista, pintora, cantora. Também foi primeira-dama do Brasil, como esposa de Hermes da Fonseca****

 

*Referência a letra da canção Mulheres de Atenas de Chico Buarque: “Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas / Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas / Elas não têm gosto ou vontade / Nem defeito nem qualidade / Têm medo apenas.”

**Disponível em < NOCHLIN, L. Por que é que não houve grandes mulheres artistas? Nova York: Revista ARTnews, 1971.>

**Disponível em <MORIN, E. Cultura de Massas no Século XX. Editora Forense, 1997>

****Todas as ilustrações publicadas neste texto estão na página do Facebook de Aline Lemos: Desalineada.


 

Meiri Farias

Café, música e quadrinhos são combustíveis para o que você encontra aqui. Jornalista especialista em Mídia, Informação e Cultura, com experiência em programação não-linear (VoD), produção de conteúdo e comunicação coorporativa, Meiri Farias é paulistana convicta e contraditória, latino-americana em descoberta e adora falar sobre isso. Tomando café, obviamente.

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