Questão de Opinião

Pausa para agradecer: obrigada 5 a Seco

Segue um texto cheio de afeto e pieguice, que esqueceu de ser resenha. Mas é que as vezes é necessário se permitir sentir

*Por Meiri Farias

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Foto: Página oficial do 5 a Seco

Subia a rua Catão, na Lapa, meio atrasada para o estágio. 2013, meados de julho. Com a playlist no aleatório, engatei uma sequência que foi ponto de virada: Feliz pra cachorro, Gargalhadas e Faça desse drama. A essa altura, já escutava 5 a Seco a mais ou menos um ano, mas na expectativa para o meu primeiro show do coletivo, estava escutando às canções obsessivamente. Nesse dia calhou dessa tríade da “volta por cima” me despertar daquele torpor que a gente entra quando ouve música em movimento ou com outras ocupações. Naquele ponto eu percebi que aquelas canções tinham algo diferente. E que marcariam minha vida de forma muito profunda.

É engraçado como a arte funciona na gente e creio que a música, mais que qualquer outra, penetra todos os poros de forma rápida e definitiva. É maluco, não? Como uma relação de canções pode ajudar a recalcular as rotas e mudar tudo. Naquela fase estranha, início da vida adulta, ainda se apegando às desilusões (hoje tão banais) da adolescência, escutar algo como “Quero ver quem vai me impedir / De sorrir do Pari até o Pará” foi um clique. Foi a trilha sonora que eu precisava para inventar o caminho que eu queria trilhar na minha vida.

A história desse blog também está muito entrelaçada às canções do 5 a seco. Logo no nosso início, lá em 2014, fizemos um especial em comemoração do 5 aniversário do coletivo, onde conversamos principalmente com os fãs. Os fãs do 5 a seco foram os primeiros a acompanhar o Armazém de Cultura, os primeiros a se engajar com o nosso conteúdo. E durante os cinco anos, sempre retornamos ao trabalho dos meninos, coletivamente ou com os projetos individuais.

Leia também:

(2015) Música do Dois: Encontro Sublime

(2016) Dança entre o medo e a esperança: Tó Brandileone e Zé Luís Nascimento no Auditório Ibirapuera

(2017) Reflexão sobre “Chorume”, peça de Vinicius Calderoni e o nosso de cada dia

Nesse fim de semana a Casa Natura Musical recebeu o 5 a Seco para uma ocasião especial: a tour de comemoração de dez anos do coletivo e também as apresentações finais antes da já anunciada pausa (o MINIDocs transmitiu o show ao vivo no Youtube e ainda é possível assistir aqui). Comparecemos a última apresentação e esse texto deveria ser uma resenha desse show. Esse era o plano. Mas aconteceu de chorar um bocadinho e aí a objetividade foi para os ares. Com a casa lotada depois da tarde mais fria do ano até agora (a temperatura máxima do dia foi de 11,7° em São Paulo), era impossível não sentir um calorzinho no coração contrastando com a leve melancolia dessa “despedida”. Algo como a nostalgia do momento presente. 5 a Seco apresentou as canções dos discos Síntese (2018), Policromo (2014) e Ao vivo no Auditório Ibirapuera (2012), surpreendendo ao apresentar alguns “clássicos” como Gargalhadas, já citada, que empolgou o coro do público tanto quanto as canções mais recentes.

Mais recentes, até então, é claro. Nos momentos finais do show, Vinicius Calderoni fez a anúncio do lançamento de um novo disco às 00h. Pausa, porque não poderia ser diferente.

Leia também:

(2014) Policromo: Primeiras percepções

Te conto o show: Estréia do Policromo em São Paulo, em 07/09/14 1ª sessão

Te conto o show: Estréia do Policromo no Rio, em 11/08/14

Te conto o show: Estréia do Policromo em Brasília, 17/08/14

Estou escutando o novo disco enquanto escrevo esse texto e é engraçado como o sentimento é sempre o mesmo, mesmo quando o tom das músicas é completamente diferente. É um pouco daquela tristeza de identificação que eu sentia lá em , no primeiro disco ou aquele deslumbre com o colorido narrativo de Abrindo a porta. Ou em Policromo, quando vinha aquela vontade de desaba(fa)r ouvindo Fiat Lux ou de maneira completamente oposta e complementar, se apaixonar perdidamente em Vem e vai. Já em Síntese, a empatia e a vontade de abraçar o mundo em Lua Cheia ou sorriso de compreensão na genialidade de O mar dentro da concha. Em Pausa tem tudo isso ao mesmo tempo em cada uma das músicas. Aquilo de doce, intrigante, inteligente que levou uma pequena multidão com lágrimas nos olhos a ocupar a Casa Natura em quatro apresentações.

Leia também:

(2014) Especial 5 a Seco: Apresentação

Conhecendo as carreiras individuais de cada um dos cinco, é de se esperar que sempre apareça muita coisa boa por aí. A Pausa (a palavra, a ação e o disco) deixa sempre as portas abertas para possíveis retornos. E a parte essa melancoliazinha de fã, ao ter que dizer tchau ou até logo a algo tão especial, é preciso aplaudir a coragem de saber o momento de fazer uma pausa. Saber parar também é bonito, principalmente entregando muito mais do que qualquer um esperaria.

Na sua última fala, emocionado como todos os outros no palco, Vinicius citou Rafael Gomes ao dizer que “quando acontece alguma coisa, também acontece tudo que vem depois.” Há seis anos, o 5 a seco me ensinou que escolher a felicidade pode ser revolucionário. Hoje eles ensinam que também é preciso parar, recalcular e seguir carregando o que há de doce, de aprendizado, de triste, mas principalmente de beleza.

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Tudo precisa respirar. Inclusive o amor. Sobretudo o amor. Compartilhar uma década de palcos e estradas é compartilhar a vida toda. Acabamos de fazer há poucos instantes, na Casa Natura Musical em São Paulo, o último show de nossa turnê comemorativa de dez anos. Este é o marco de inauguração de duas pausas. A primeira é a que já se sabe: um tempo de inatividade dos palcos, que tem tudo a ver com a respiração de que o amor precisa. Mas nós queremos falar da segunda PAUSA: este é o nome do disco que estamos lançando à meia noite do dia 5 de agosto em todas as plataformas digitais, o quarto de nossa trajetória. SURPRESA!!! No repertório, onze canções inéditas: uma para cada ano da história e uma que sinaliza e aponta o futuro. É nosso presente pra vocês nestes dez anos, em gratidão a tanto carinho e tanta devoção. É nosso presente para nós mesmos: uma auto celebração coletiva deste encontro que transformou nossas vidas. Tomara que vocês gostem. Depois contem pra gente. 😍 Dez anos juntos servem pra gente perder o medo de recorrer a um clichê quando ele é absolutamente verdadeiro. Dez anos juntos, e especificamente estes dez anos maravilhosos em que nós construímos uns aos outros, não nos dão outra alternativa que não seja acreditar no amor. 📸: @chuchotragaluz capa: @annaturra p.s.: vocês não têm ideia o tanto que foi difícil gravar o disco em segredo e não compartilhar nadinha com vocês esse tempo todo. Ufa! 😍❤😂 #5asecodiscopausa

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Ouça Pausa:


 

Meiri Farias

Café, música e quadrinhos são combustíveis para o que você encontra aqui. Jornalista especialista em Mídia, Informação e Cultura, com experiência em programação não-linear (VoD), produção de conteúdo e comunicação coorporativa, Meiri Farias é paulistana convicta e contraditória, latino-americana em descoberta e adora falar sobre isso. Tomando café, obviamente.

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