Questão de Opinião

Fuzuê Nerd: quadrinhos no feriado em São Paulo

*Por Meiri Farias

A tarde do feriado de 15 de novembro foi de celebração nerd no centro de São Paulo! O evento Fuzuê Nerd apresentou sua primeira edição no hotel Novotel São Paulo Jaraguá, com uma programação recheada de palestras interessantes e um artist alley robusto. Paralelamente, alguns problemas de estrutura (e calendário) prejudicaram o aproveitamento completo do evento. Vamos aos melhores momentos da tarde e também o que poderia ser melhor na próxima edição:

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O ESPAÇO:

O Fuzuê Nerd ocupou o espaço de convenções do hotel, com três salas com atividades: Auditório Principal, Fuzuê Cult e Fuzuê Pop. Alguns expositores estavam espalhados no trajeto até as salas (um acerto), mas a maior parte do artist alley estava dentro do Auditório Principal (o grande problema do evento), onde a falta de espaço dificultou o transito entre as mesas e, principalmente, gerou confusão ao manter palestras nesse ambiente. Mesmo com microfone para os convidados, era difícil escutar tudo ou se concentrar completamente na atividade enquanto o barulho (natural e esperado) vinha das mesas dos artistas que atendiam seus leitores. Além disso, não havia espaço para se acomodar para assistir as palestras. Alguns sentavam no chão, outros se encolhiam nos corredores e a experiência como um todo foi prejudicada. O interessante é que ao se deparar com a programação, era fácil imaginar que o Auditório Principal seria supostamente o mais confortável e espaçoso. Definitivamente não foi.

Por outro lado, as salas menores Fuzuê Cult e Fuzuê Pop, apresentaram sua programação de forma muito mais consistente. Mesmo sem tanto espaço, havia espaço para todos os visitantes se acomodarem com conforto, assim como interagir e participar efetivamente das conversas. Nesse caso, faltou apenas um microfone para melhorar a compreensão dos artistas.

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A PROGRAMAÇÃO:

Infelizmente não foi possível acompanhar todas as mesas, por isso vamos comentar os destaques entre as palestras que participamos:

 

Internet é o futuro dos quadrinhos? Com Johncito, Lila Cruz e Filipe Remedios

Apesar do tema ser constantemente explorado (a exaustão) em eventos de quadrinhos, o encaminhamento dessa conversa foi surpreendente e muito útil para a reflexão sobre a produção de HQ independente no Brasil e a valorização dos profissionais que trabalham com arte sequencial. Johncito, Lila e Remedios discutiram o papel da internet em seu trabalho sem a romantização rotineira que esse tema gera, muito pelo contrário.

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Remedios, que produz as tirinhas da página Batatinha Fantasma, comentou a importância de fomentar novos leitores de quadrinhos, mas indicou que ainda é muito difícil ganhar dinheiro apenas com HQ, que ajuda a atrair novos trabalhos, ilustração, por exemplo, mas ainda não é um mercado autossuficiente. O autor comentou também a dificuldade que faz com que os quadrinistas se tornem quase reféns das regras e estruturas das mídias sociais “A gente está dentro de plataformas que não são nossas”, comenta.

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Arte: Remedios – Facebook

Para o trabalho do Johncito, a internet é extremamente necessária: ele é autor do Oseias, uma história completamente interativa, que os leitores literalmente ajudam a definir o que acontecerá nas próximas páginas. “Eu desenho, mas o roteiro é nosso”, explica. Ainda assim, o quadrinista não considera a internet como o futuro dos quadrinhos, apenas uma aliada para divulgação do trabalho e estreitar a relação com os leitores. “Ao mesmo tempo que a internet é um canal aberto e receptivo, aumenta a ansiedade. ”

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Arte: Johncito + enquete no Twitter para decidir a continuação da história

A ansiedade e saúde mental, aliás, é um tempo recorrente na arte da Lila. A ilustradora baiana, que vive em São Paulo, é autora do Manual do Autocuidado e publica ilustrações e tiras sobre o tema com frequência no Instagram. Ainda assim, Lila é do time que prefere que o futuro dos quadrinhos não seja simplesmente a internet. A artistas cita várias situações onde o espaço da internet não foi amigável a produção do quadrinista: o estresse e pressão em Financiamento Coletivo, o uso de artes sem os devidos créditos por psicólogos (“Existe uma noção de que na internet tudo é gratuito”), além de cobranças, inclusive dos leitores. “As pessoas adoram ver o cotidiano da produção”.

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Arte: Lila – Facebook

A profissionalização e valorização do trabalho do quadrinista acabou sendo o tema central da conversa. Remedios destacou a necessidade de não ter medo de cobrar por seu trabalho. “Se as pessoas cobram pouco, elas acostumam as pessoas a pagar pouco”, explica. “Se você quer viver de quadrinhos, você tem que cobrar de fato o que vale seus quadrinhos.”

A conversa apresentou essa demanda dos artistas de que seu trabalho seja financeiramente reconhecido, para que a produção seja sustentável e mostrou que, para além da internet, é necessário pensar sobre o modelo de produção e consumo de HQ no Brasil.

O único contra da mesa veio de uma falta de suporte do evento: os artistas não sabiam quem mediaria a mesa e começaram e seguiram até o fim da conversa sem mediador. Nesse caso a falta de informação não chegou ser um problema, mas poderia ser. Como aconteceu na próxima palestra.

 

Tudo é política, inclusive os quadrinhos. Com Rafael Calça, Helô D’Angelo, Thiago Carneiro e Jotapê Martins (?)

A conversa com tema mais urgente do evento foi a mais afetada pelo problema de estrutura. Ao ser realizada no Auditório Principal, a atividade foi seriamente prejudicada pelo barulho e transito constante dos leitores. Mas definitivamente, esse não foi o grande problema.

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A conversa começou com Jotapê Martins, tradutor e editor de quadrinhos, responsável por algumas series clássicas no Brasil, de Sandman a super-herói. Até aí tudo bem. O problema é o restante dos convidados aparentemente não foram informados da participação do editor. Enquanto Jotapê apresentava uma serie de slides sobre política nos quadrinhos – sozinho -, os outros autores estavam claramente desconfortáveis, sem entender o que estava acontecendo. Aliás, Jotapê não está na programação no site do Fuzuê, mas seu nome estava na programação impressa espalhada pelo evento. Ninguém entendeu o que aconteceu, muito menos o público.

Depois do (longo) constrangimento inicial, Thiago Carneiro, do Afronerd, mediou a conversa entre Rafael e Helô. Os autores contaram que, mesmo quando uma história não fala diretamente da política tradicional (ou institucional), as escolhas que são feitas ao contar uma história sempre refletem determinada visão de mundo. Os dois artistas (ele do ponto de vista da cultura negra, ela como mulher feminista) relataram a dificuldade de necessariamente precisar abordar esses temas em suas obras. “A gente não pode se dar ao luxo de ser só entretenimento”, comenta Rafael, que é autor de Jockey (editora Veneta) e um dos autores da GraphicMSP Jeremias – Pele, que é um dos finalistas no prêmio Jabuti 2019. O autor lembra que muitas vezes o entretenimento já foi usado inclusive contra as minorias políticas.

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Graphic MSP Jeremias – Pele, de Rafael Calça e Jefferson Costa

Helô comentou sobre as reações ao seu trabalho (a autora publica tiras com frequência em sua página no Instagram e recentemente fez uma campanha de financiamento coletivo para publicar o livro Dora e a Gata) e que recebe ameaças e comentários negativos com frequência, principalmente quando fez uma série de tiras sobre os projetos de Fernando Haddad durante a corrida eleitoral de 2018. Ainda assim, Helô destacou que para abrir espaços, é necessário seguir produzindo e que “quando incomoda, é que a gente sabe que está fazendo certo. ”

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Arte: Helô D’Angelo – Facebook

Os autores ainda comentaram sobre as relações do quadrinho mainstrean com a diversidade (“Eles querem o nosso dinheiro também”, Rafael) e como muitas vezes esses meios alimentam estereótipos. Thiago também citou a dificuldade de acesso, ao revelar que apenas 20% do acesso a sua página é feito por pessoas negras.

 

Perspectivas Urbanas. Com Marília Marz, Amanda Miranda, Jefferson Costa, Marcello Quintanilha e mediação de Cassius Medauar.

Seguindo a programação do Fuzuê Nerd, a mesa sobre Perspectivas Urbanas apresentou diferentes visões sobre como o espaço onde se desenrola uma história é elemento essencial para a caracterização da mesa. Com mediação certeira do Cassius Medauar, jornalista e editor de quadrinhos, os autores debateram sobre suas obras e o contexto na qual estão inseridas, passando principalmente pela cidade, pelo lugar onde a ação se desenvolve.

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Amanda, uma das autoras de Tabu (Editora Mino), explica que a cidade é essencial para sua narrativa. “Eu acabo explorando a cidade como uma forma de expressão do que está acontecendo na história”, a artista também explica as relações de identidade do lugar nas histórias. “Existem linguagens da urbanidade brasileira que são muito nossas”. Quintanilha também reflete sobre as relações da ambientação de uma história com essa identificação. “Eu acho que a gente está em pleno processo de reinvindicação dessa identidade”, comenta o autor de obras como Tungstênio e Talco de Vidro, amplamente reconhecidas pela crítica e premiadas no exterior.

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Amanda é uma das autoras de Tabu, da editora Mino

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Capa de Tungstênio, de Quintanilha, vencedor do prêmio do Festival Angoulême, na França

Para Marília, a interação com o lugar retratado é importante para tentar captar aquela realidade. A autora fez a HQ Indivisível, sobre a cultura negra e a oriental presentes no bairro da Liberdade em São Paulo e sua relação com o tempo e o espaço. “Você tem a noção de que conhece um lugar, mas não conhece porque ele está sempre sendo transformado pelo tempo”.

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Arte Marília – Site da autora

A conversa apresentou um encontro rico entre artistas de diferentes contextos. Um microfone poderia ajudar ainda mais, porque apesar da sala ser pequena e o público acompanhar tudo com atenção e silêncio, em alguns momentos era difícil escutar os autores.

 

Quadrinhos libidinosos. Com Rafael Bastos Reis, Gillian Rosa e Carol Ito.

A última conversa que acompanhamos também foi na sala Fuzuê Cult e trouxe o sexo para a discussão. Carol conduziu a descontraída, porém super completa, conversa sobre o tema mais polêmico e tabu em qualquer produção artística. Como falar de “putaria” nos quadrinhos?

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Foi unânime entre os autores o discurso da necessidade de humanizar o sexo no conteúdo que produzem e naturalizar o tema nas discussões. Tanto Rafael, como Gillian relataram uma relação complexa entre um passado religioso e a descoberta da sexualidade.

Já Carol, que está produzindo um quadrinho sobre suruba, discute também a relação do sexo com a experiência feminina. “Essas obras são necessárias até para forçar esses limites do que é uma sexualidade feminina”, reflete. Carol também foi criativa ao resolver o problema de não ter acesso a um projetor para exibir os slides que preparou para conversa, publicando a apresentação nos stories do seu Instagram.

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Arte: Carol Ito – Site da autora

Arte: Rafa Bastos – Instagram

Arte: Gillian Rosa – Twitter

CONCLUSÃO

O Fuzuê Nerd surgiu com mais uma opção interessante para os leitores de quadrinhos encontrarem seus autores favoritos, debaterem sobre HQ e, claro, manter a leitura em dia comprando da produção independente. A identidade mais independente, o preço baixo do ingresso e uma programação inteligente e atrativa são pontos altos da iniciativa e despertam a curiosidade para uma próxima edição do evento. Porém, para que o potencial do Fuzuê seja melhor aproveitado, é necessário repensar a estrutura das salas e organização. Talvez também a data. Enquanto o Fuzuê acontecia em São Paulo, o Festival Geek acontecia em Santos e é provável que os autores se dividiram entre os dois eventos, além da proximidade da Comic Con Experience talvez comprometer as compras dos leitores mais ávidos.

Torcemos para que a próxima edição do Fuzuê ajuste esses probleminhas para que se concretize realmente como um sinônimo de festa e celebração, sem cair no sentido pejorativo da palavra que pode fazer alusão a bagunça.


 

Meiri Farias

Café, música e quadrinhos são combustíveis para o que você encontra aqui. Jornalista especialista em Mídia, Informação e Cultura, com experiência em programação não-linear (VoD), produção de conteúdo e comunicação coorporativa, Meiri Farias é paulistana convicta e contraditória, latino-americana em descoberta e adora falar sobre isso. Tomando café, obviamente.

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